terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dinâmica de Grupo sobre uma Ótica Comportamental




A leitora
Tamires Mascarenhas fez um pedido de post, via Caixa de Sugestões:




estou fazendo monitoria em um materia sobre dinamica de grupo e a professora tem uma abordagem mais de analise institucional, ae ela pediu para eu ver se consigo falar de dinamica de grupo na perspectiva behavorista


Pessoas, em situação grupal, têm um
"dinamismo", isto é,se comportam de forma peculiar


Respondendo a você, Tamires...


Não existe algo como "uma teoria behaviorista da Dinâmica de Grupo", até porque behavioristas não trabalham com teorias que interpretam os fatos, mas com conceitos descritivos isentos de inferências teóricas.


Para um Analista do Comportamento, uma técnica de Dinâmica de Grupo não deixa de ser um experimento com pessoas. Portanto, deve ser orientado mediante as mesmas questões de um experimento (objetivos, hipóteses, fidedignidade, generalidade, técnicas de controle, etc). Sendo assim, o "movimento", a "Dinâmica" de pessoas em grupo não deixa de ser comportamento, submetido aos mesmos princípios de qualquer comportamento, com a peculiaridade que ocorre uma maior incidência dos do tipo social, que funciona mediante contingências entrelaçadas, produto agregado e práticas culturais.


Em outros posts, já falei aqui sobre Dinâmica de Grupo enquanto técnicas específicas, como p.e. o Focus Group, a técnica da cadeira vazia, e também a Janela de Johari (instrumento teórico usado comumente em Dinâmicas). Confira esses posts e você verá análises comportamentais minhas sobre porque essas técnicas funcionam.


Neste post aqui mostrei uma aplicação prática de técnica de Dinâmica para o meu trabalho, com o objetivo de avaliar a usabilidade de um game.


Contudo, a Dinâmica de Grupo não é apenas a técnica em si (que é como uma ferramenta que você tira da mochila), mas também é uma forma de trabalhar o comportamento humano na situação de pessoas interagindo. A Dinâmica de grupo tem um arcabouço metodológico, que explica porque as técnicas dela funciona, porque os fenômenos grupais são como são. 


Neste post aqui eu analiso um fenômeno mediante critérios da Dinâmica de Grupo envolvida, e mostro como o processo grupal costuma ocorrer em fases no tempo, e como essas fases tem características peculiares e devem ser conduzidas, controladas, pelo ministrante da Dinâmica, para isso fazendo uso de diversos recursos a mão (recursos de tempo, espaço, cenário, papéis, etc).


No mais, ainda há um outro nível de compreensão da Dinâmica de Grupo: enquanto o estudo de como massas, grandes grupos, interagem na sociedade. Assim é possível falar da "dinâmica das classes sociais no Brasil", o que seria um nível Psicossocial de análise.


Espero ter ajudado! Bom trabalho para você na monitoria!




segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Lançamento do "Challenge Board" para iPad



Olá, pessoal!

Na 6a-feira próxima, 10/SET/2010, estréia na App Store da Apple o novo jogo da FisioGames, (cujo Game Design é meu).



Trata-se do "Challenge Board", um jogo de tabuleiro a moda antiga para jogar no iPad!


Tela inicial do Challenge Board




Vocês devem estar lembrados que já postei aqui no blog sobre um teste de usabilidade e jogabilidade que fiz do produto. Também refiz o teste, com o game quase pronto, com uma turma de universitários.


.Pois bem, apliquei o que sei de Análise Experimental do Comportamento para deixá-lo o mais divertido, bonito e usável para o público.


Tabuleiro durante uma partida.


Viram como Análise do Comportamento pode ser muito mais do que estamos habituados a pensar dela?


Abraço a todos, e bons games!





Existe um quarto nível de determinação do comportamento ?





Já falei, mais de uma vez, aqui no blog sobre os 3 níveis de determinação do comportamento, citados por Skinner. 


Resumidamente: filogênese (herança genética, oriunda da Evolução), sociogênese (aprendizagens culturais, coletivas, sociais) e ontogênese (experiência de vida de cada indivíduo, que o torna único).


Pois bem, sabem que andei pensando ontem?


Talvez esteja faltando um quarto nível.


Notem que Skinner fala do cultural tanto no âmbito coletivo quanto individual, mas ao falar do biológico, ele só cita o coletivo (o papel da Evolução da espécie).


Esquematicamente:






Vale lembrar que a linha de pesquisa de Skinner girava em torno do condicionamento operante, e ele estava obcecado, no final da carreira, com a questão do comportamento verbal (que é social e individual ao mesmo tempo).


Ou seja, acredito que Skinner não deu tanta atenção assim ao biológico porque simplesmente não era seu foco de pesquisa.

Outros behavioristas, mais tarde, teriam esse papel. Skinner não entregou um pacote pronto, mas um projeto de pesquisa para outros ajudarem a desenvolver!



Por isso hoje conciliar a Análise Experimental do Comportamento com dados biológicos de cada organismo é uma fronteira de nosso saber.


E que dados seriam esses?


Cito alguns:


- Peculiaridades genéticas (Não de ordem filogenética, mais individuais, p.e., herança familiar, epigenética, etc)


- Fenômenos relativos ao cérebro (Não encarado como fonte dos comportamentos, claro, mas como parte do contexto desses)


- Consequências do uso de substâncias no organismo (Entra aí a Farmacologia Comportamental)


- Questões pré-natais, embriológicas e neo-natais (Sim, até o parto que tivemos faz diferença)


- Efeitos dos hormônios (Ah, a adolescência...)


- Doenças e como elas afetam o comportamento (O próprio Skinner passou a dar mais atenção ao cérebro depois que ele teve um derrame, e sentiu que seu comportamento havia mudado bastante).


- dentre outras classes de variáveis...

Talvez esses itens acima possam ser incluídos no âmbito ontogenético de alguma forma, ou no filogenético, mas talvez eles sejam um quarto nível de determinação ainda pouco explorado pelos Analistas do Comportamento.


Irei atrás de bibliografia sobre isso e posto aqui outra hora, ok?



No mais, as diferenças biológicas e individuais são mesmo uma fronteira de conhecimento fascinante.

O desafio é estudá-las mantendo o rigor analítico-comportamental, contudo, pois é fácil atribuir a nossa biologia, de forma reducionista, as 'causas' dos comportamentos, e ignorar demais contingências.






domingo, 5 de setembro de 2010

"Táticas da Pesquisa Científica", de Murray Sidman - Parte 4 de 7





Continuando a série de posts sobre o livro de Murray Sidman, "Táticas da Pesquisa Científica", vamos começar a falar hoje sobre a generalidade dos resultados vindo de experimentos.


Por generalidade entende-se que os resultados do experimento dizem coisas que são aplicáveis a outros casos, e não apenas ao experimento original.


Tomemos um exemplo... Se eu faço um experimento que conclui que as pessoas mais altas preferem usar roupas pretas a brancas, imediatamente um cético pode me perguntar, com bastante razão: "Ah, é? E que pessoas? Todas? Será que isso que você descobriu se aplica a todo mundo mesmo?"


É de suma importância, então, que os resultados de uma pesquisa experimental tenham o maior grau de generalidade possível, caso contrário, do que adianta descobrir algo que só funciona em casos estritamente particulares?


Não devemos, contudo, confundir "buscar a generalidade" com "fazer generalizações". No senso comum dizemos que alguém está fazendo uma generalização quando conclui coisas equivocadas sobre algo, fazendo declarações genéricas baseadas em um ou outro caso particular. Por exemplo: Se tenho dois amigos de origem japonesa e os dois são inteligentes, posso fazer uma generalização indevida de que todos os japoneses são inteligentes.


"Todos os japoneses são inteligentes" é uma generalização sem base
lógica, pois você não conheceu todos os japoneses


Façamos um esclarecimento importantegeneralizar é, falando em termos de senso comum, criar um conceito falho por falta de discriminação de casos particulares; enquanto buscar a generalidade científica é cuidar para que o maior número possível de casos particulares sejam contemplados por uma afirmação baseada em uma generalização bem embasada logicamente.

P.e., se eu digo "Todos os jovens japoneses submetidos ao sistema educacional daquele país e a um determinado sistema de incentivo obtém desempenho acadêmico formidável", então essa frase tem um bom grau de generalidade, e não se constitui uma generalização indevida.

Agora que já está explicado o que é generalidade que perseguimos, prossigamos falando de um fator fundamental para obtê-la: a replicação de resultados.

A grosso modo, um resultado de pesquisa é replicável se outro pesquisador, agindo da forma correta e de boa-fé, consegue chegar aos mesmos resultados que eu, assim confirmando-os.

P.e., se eu concluo que crianças que comem muita fastfood se tornam desatentas através de um experimento, então se outro pesquisador submeter outras crianças a um experimento de condições similares, ele deverá obter resultados similares. Caso contrário, minha conclusão se mostra falha em termos de generalidade, pois não apresentou replicabilidade de resultados.

Há 2 tipos de replicação de resultados:

Tomemos um experimento sobre aprendizagem
usando um rato que deve aprender a pressionar a barra
quando uma luz vermelha acende... 

a) Direta - Que ocorre quando eu repito o experimento com os mesmos sujeitos, e os resultados voltam a se repetir. Por exemplo: "Já testei 100 vezes, e o rato continua a pressionar a barra quando a luz vermelha acende. Logo, ele está condicionado sim".

b) Sistemática - Quando eu ou outro pesquisador reproduz o experimento com outros sujeitos, mas chega a resultados parecidos. Ex: "João, Peter e Xiang, três colegas, um em cada país, chegaram ao mesmo resultado: o rato pressiona sim a barra quando a luz fica vermelha".

No próximo post falarei de outro fator fundamental para obter generalidade científica: a taxa aceitável de variabilidade de resultados.

Aguardem...


sábado, 4 de setembro de 2010

John Searle, ou "Um Babaca e sua Crítica"





Eu já não gostava de John Searle. A partir da leitura de um capítulo de um de seus livros, hoje, passei a ter ojeriza desse sujeito.


Você é um babaca, Searle!


Me refiro ao livro "A Redescoberta da Mente", onde em um capítulo que fala das visões materialistas sobre a mente, Searle resolve criticar o Behaviorismo.


Fui ler, empolgado, achando que seria uma crítica boa, dessas que vale a pena refletir e ponderar, afinal Searle é um aclamado filósofo, certo?


Afff.. Que decepção. Criticazinha fraca, hein?


Vamos lá...


Searle diz que vai detonar as explicações dualistas (cita o Cognitivismo) e também as materialistas estritas (onde cita o Behaviorismo).  Na seção em que fala do Behaviorismo, é capaz de dizer as seguintes abobrinhas:


1) "O Behaviorismo se divide em Metodológico, de Watson, e Lógico, de Ryle".


Ei, ei, pera aí... Você não tá esquecendo nada não, companheiro?


E um tal de Behaviorismo Radical, de Skinner?


Pois é, Searle simplesmente não o cita (o livro é de 1992 e Searle, professor universitário de Linguística e Filosofia nos EUA, não tem pretexto para desconhecer por inteiro a obra de Skinner).


Continue lendo e você entenderá o motivo de Skinner ter sido excluído da crítica.


2) "O Behaviorismo nega a mente".


Errado.


Ele explica que a mente é como um jogo de palavras, um metáfora para comportamentos verbais muito complexos.


Skinner diz que a mente é na verdade uma forma leiga de tratar o problema do comportamento. Mas acho que você sabe disso, né, Searle?


3) "O Behaviorismo explica a mente por meio de predisposições a se comportar, mas não explica o que são essas predisposições".

Explica sim, Searle. Quando o Skinner fala de determinismo probabilístico, explica direitinho a diferença entre emitir uma resposta e ter a probabilidade de emissão de resposta aumentada.



4) "A análise Behaviorista explica a mente de forma circular, pois diz que se uma pessoa deseja algo é porque acredita que é melhor, e por acreditar deseja, e por desejar, acredita"


Não, Searle. Se João prefere sorvete de chocolate ao de morango é sinal de que aprendeu em algum momento isso em sua ontogenia, i.e., história de vida.


Seu desejo não é explicado de forma circular, como você diz, mas de forma histórica, ontogenética.

5) "O Behaviorismo esquece o fato que todo ser humano sabe ser verdadeiro de que a mente, isto é, nossos desejos, crenças, sentimentos, etc causa comportamentos".


Searle, de boa, cara... Você já ouviu falar em senso comum?


O senso comum é sim de que a mente causa comportamentos. Assim como o senso comum, caso as pessoas não estudem Geografia, é de que o Sol gira em torno da Terra; e caso não estudem Física, é de que o relâmpago causa o trovão.


Um filósofo profundo ou charlatão
que age de má-fé ?


Agora, no final da seção, Searle dá uma prova de que agiu de caso pensado pra sacanear, mesmo.


Não se trata de um homem mal informado, pois é um intelectual celebrado. Se trata de um babaca querendo denigrir mesmo, e eis a prova: Searle satiriza os behavioristas, dizendo que as pessoas costumam fazer piadinhas deles. Só que cita uma piadinha muito famosa para ilustrar isso. 


A piada é: "O que um behaviorista disse para outro depois de fazer sexo? 'Foi bom para você, eu vi. Mas como terá sido para mim?' "


Só que Searle esquece de dizer é que a piada é do próprio Skinner!!!!


Skinner cita ela em "Questões Recentes de Análise Comportamental", num momento em que ele brinca com as limitações do Behaviorismo Metodológico


Isso mesmo, Searle cita Skinner, mas sem revelar a fonte. O mesmo Skinner que ele se recusa a citar quando vai criticar o Behaviorismo (de Watson), fazendo parecer que o Behaviorismo Radical (de Skinner) nem sequer existe.


Para mim, Searle agiu deliberadamente de má-fé para ludibriar seus leitores, omitindo fontes e divulgando parcialmente materiais para obter benefícios.


Em geral os críticos do Behaviorismo são movidos por falta de conhecimento. Mas no caso de Searle, é cafajestice da grossa mesmo.



"O Experimento" (2010) - Filme RUIM, mas recomendado





Já ouviram falar no experimento da Prisão de Stanford?


Lining Up the Prisoners
Qualquer um pode se tornar um agressor cruel?


Basicamente pesquisadores puseram 2 grupos de voluntários isolados em um presídio fictício, sendo que o primeiro grupo representaria os agentes carcerários e o segundo, os detentos. Em poucos dias o teatrinho virou um caso de polícia, pois rolou agressões sérias e o experimento, fora de controle, foi suspenso. A conclusão: qualquer um pode se tornar um agressor cruel, basta ser devidamente incentivado a isso.


Trata-se de um clássico da Psicologia Social de cunho cognitivista, levado a cabo por Philip Zimbardo. 


Rendeu um bom filme alemão, que já comentei há muito tempo aqui no blog. Pois é, agora acaba de sair uma nova versão, dos EUA. Vi essa segunda ontem e achei o filme muito ruim. Nem atores ótimos como o  Forest Whitaker salvam a película.

Veja o trailer:








Além do perdoável exagero das cenas, o que mata mesmo é o final, muito inverossímil.


 (ALERTA  DE  SPOILER!!!!!!!)


Eis o que acontece: no final do experimento, quando os 2 grupos estão prestes a se matar numa briga coletiva, sirenes vermelhas tocam, os portões se abrem e todos saem do presídio, relaxam, esquecem a briga e pegam um ônibus pra voltar pra suas casas, sem entender porque estavam agindo daquela forma... Ok, ok.  Affff...


Acho impressionante que o Experimento da Prisão de Stanford continue rendendo material pra discussão, porque efetivamente trata-se de um exemplar muito ruim de psicologia experimental.


Murray Sidman, que nos ensina tão bem sobre como conduzir experimentos científicos com pessoas de forma científica, teria ficado constrangido ou zangado!


O experimento foi realizado sem muito rigor e criteriosidade. Por exemplo, os voluntários não foram bem selecionados, e dentre eles havia sim pessoas com histórico criminal (o que certamente influenciou no desfecho violento). Fora isso, o controle dos experimentadores era frouxo, o que mostra que eles não estavam tão atentos assim a ética de lidar com seres humanos em situação de risco físico. As próprias conclusões que Zimbardo chegou com o experimento foram amplamente questionadas e de um modo geral muitos cientistas não o levaram a sério.

Contudo, ele ficou famoso. Na TV, no cinema, no imaginário popular... O que explica a, vejam só, boa fama de Zimbardo até hoje!



Zimbardo acabou se tornando famoso e reconhecido,
mas o experimento foi um fracasso
tanto de execução quanto de resultados



Zimbardo, o psicólogo cognitivista que coordenou o experimento de Stanford entrou pra história como um pesquisador original que descobriu coisas importantes, mas no fundo o que ele conseguiu foi gerar polêmica, daí sua fama, executando de forma displicente um experimento onde seres humanos poderiam ter morrido.


Em outro post já comentei como os psicólogos cognitivistas costumam ser relaxados com os conceitos e termos técnicos que usam. O episódio de Zimbardo me lembrou que até mesmo seus experimentos com seres humanos não costumam ter assim tanto rigor e criteriosidade.


Em todo caso, recomendo assistir "O Experimento" (2010), até para que cada pessoa que veja faça uma listinha de erros metodológicos do experimento do filme e depois comparem entre si suas listas. Vale como exercício de crítica para graduandos não cometerem as falhas técnicas que Zimbardo cometeu.





sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Freud : Um Cognitivista ?




Como assim? A psicanálise e a psicologia cognitiva são compatíveis? Ou seriam uma mesma coisa? Freud era um cognitivista? 


Ontem tive a oportunidade de ler um livrinho esclarecedor sobre essas questões.


Já no título a autora deixa claro seu intento: defender a compatibilidade da Psicanálise com o Cognitivismo. Freud, diz ela, foi um precursor da "Revolução Cognitiva".


A autora, Ana Lúcia Mac Dowell defende que os avanços da Psicologia Cognitiva apenas confirmam as teses de Freud, e que mesmo Freud era um neurocognitivista (ao menos no princípio da carreira, antes de cunhar o termo "Psicanálise" para seu movimento). Ainda mais ousada, a autora sugere que os Cognitivistas deveriam estudar Freud para obter uma ética para suas práticas, e um norteamento estético e científico para o que fazem.


A argumentação de Ana Lúcia Mac Dowell é bem embasada.


Freud, lembra ela, era um médico neurologista, um neurocientista. Antes de criar a Psicanálise ele tinha uma série de artigos publicados sobre o papel do cérebro na cognição. Essa fase de sua carreira é chamada de "Pré-Psicanalítica" pelos historiadores e tratada como uma espécie de pré-História de pouca importância. 


Mac Dowell discorda. Para ela, a fase neurocognitivista de Freud deve ser relida, pois é atual!


A Psicanálise pode se fundir
com a Psicologia Cognitiva?


Tudo começa com a publicação, em 1891, de "Para uma concepção da afasia: um estudo crítico", onde Freud cria uma inovadora hipótese para explicar os problemas de fala decorrentes de lesões cerebrais. Freud postula que existe um "aparalho da linguagem", que funciona a partir de conexões sinápticas no cérebro e explica, pela formação de redes, como o cérebro processa informações do mundo através da fala.


Já em 1895, Freud escreve "Projeto para uma Psicologia científica", onde postula a existência de segundo aparelho, que chama de "Aparelho da Memória". As informações processadas pelo aparelho da linguagem são armazenadas em redes de significados distribuídas no cérebro.


Porém é com "Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos", também de 1895, que Freud chuta o balde mesmo. Ele postula a existência de um "Aparelho psíquico", que seria explicado a partir da interação dos outros dois aparelhos supracitados.


O psiquisismo emergiria do cérebro através da fala e da memória, e teria por características:


- O predomínio do inconsciente como causa dos comportamentos, sobre o consciente


- A existência de diferentes "Eus-interiores" que vivem em conflito (ego, super-ego, id)


- A natureza sexual e afetiva da energia psíquica


e por aí vai.


O conceito de "psíquico" em Freud seria
herdeiro do neurocognitivismo


Curiosamente, Freud prefere não usar o termo "mente", mas sim "alma" (Psique, em grego). Ele deseja deixar claro, com isso, que sua matriz filosófica vem da Antiguidade Grega, e não dos filósofos modernos idealistas. Por isso ele fala de "energia psíquica", e não "energia mental". Mas notem que o psiquismo emerge do corpo, de forma análoga que, segundo uns, a mente emerge do cérebro.


Um dos conceitos fundamentais da Psicologia Cognitiva está presente na Psicanálise, segundo Ana Mac Dowell. É o conceito de representação. Para os cognitivistas, a mente processa a realidade externa em um modelo interno que, em última instância, é a origem dos comportamentos. Já para Freud, o psiquismo se apropria do mundo formando a "realidade psíquica", que é a realidade efetiva do sujeito, isto é, o domínio de sua própria subjetividade.


Tanto psicanalitas quanto cognitivistas
acreditam que a origem principal do comportamento
é um "mundo interior"


Uma das conclusões que a autora do livro chega é que tudo bem para um psicanalista estudar a Psicologia Cognitiva, e vice-versa. As duas áreas são irmãs e, por que não, até poderiam trocar figurinhas e ensaiar um namoro e, quem sabe, casamento.

De fato, já há quem fale até de uma neuropsicanálise...



E agora vai uma opinião minha... O que a Psicanálise e a Psicologia Cognitiva têm em comum, que permitiria esse casamento? (Que aliás parece ser do desejo de muito psicanalista, como a autora do livro citado). O que as duas têm em comum é o fato de ser mentalistas, isto é, explicarem os fenômenos do comportamento humano a partir de 


a) causas internas para o comportamento (predominando sobre o contexto)


b) construtos hipotéticos que se comportam de forma autônoma (sejam eles psíquicos ou mentais/cerebrais).


Diante de duas semelhanças tão fortes, não acho nada estranho o casamento da Psicanálise e do Cognitivismo.



"Táticas da Pesquisa Científica", de Murray Sidman (parte 3 de 7)





Continuando a série de posts sobre o magistral "Táticas da Pesquisa Científica", de Murray Sidman, falemos hoje do conceito de fidedignidade.


No contexto de uso presente na obra de Sidman, por esse termo entende-se a capacidade dos resultados de uma pesquisa experimental serem confiáveis. Dizendo de outra outra: "Quem garante que esses resultados obtidos no laboratório vão se repetir mesmo em outras situações que não aquela do teste original?"


Pra vocês terem uma idéia de como Analistas do Comportamento levam a sério a comprovação experimental pensem no conceito de metacontingência. Ele não foi unanimamente aceito pela comunidade científica justamente porque ainda faltam comprovações experimentais de que é fidedigno.


Essa preocupação do Analista Comportamental é muito salutar, e demonstra o cuidado com um verdadeiro cientista tem com as coisas que apregoa. Afinal, um experimento só tem valor se seus resultados puderem ser checados e validados por outras pessoas. 


Em Ciência não se deve trabalhar com a fé, mas com confiança embasada em evidências.


Uma forma de honestidade científica é justamente oferecer condições de falseabilidade dos enunciados. Um cientista sério, respeitado pelos seus pares na comunidade científica, quando declara alguma teoria, emenda logo: "E vocês saberão se eu estou errado se conferirem tal e tal coisa e o resultado for diferente do que eu postulei". (Infelizmente, a grande maioria das teorias em Psicologia não trabalha com esse nível de transparência).


De que adianta criar uma teoria se ela não
 pode ter sua fidedignidade averiguada criteriosamente?


Afinal, se João faz um experimento que conclui que pessoas ruivas são mais burras que as não-ruivas, como reagir diante disso?


Fazendo perguntas do tipo:

- "João, posso saber em que condições experimentais você trabalhou?"



- "Você aplicou seus experimentos com quantas pessoas? Posso saber como selecionou os sujeitos?"


- "Outras pessoas, João, chegaram a resultados parecidos com os seus?"


- "Pedro fez um experimento parecido e chegou a resultados diferentes dos seus. Que você diz sobre isso?"


E por aí vai.
Lidar com sujeitos experimentais não-humanos
 pode ser um bom ensaio para aprender o
valor da criteriosidade e do rigor com os dados


A busca pela fidedignidade em Ciência tem a ver com termos cuidado, portanto, antes de sair falando qualquer coisa por aí. Afinal, o conhecimento precisa ser fiel aos fatos para merecer nossa confiança.  


O método científico envolve criteriosidade e rigor. Sem esses valores fundamentais, o que fazemos pode ser tudo, menos Ciência. 


Aguarde, na parte 4 dessa série falarei sobre outro conceito intimamente ligado ao de fidedignidade: o de generalidade dos resultados.





terça-feira, 31 de agosto de 2010

As 4 emoções básicas, segundo Hipócrates





Hipócrates, pai da Medicina Ocidental, dizia que havia 4 temperamentos básicos (colérico, melancólico, sanguíneo e fleumático), que correspondem aos 4 elementos (fogo, terra, ar e água) e a 4 emoções fundamentais (raiva, tristeza, alegria e medo).


Hipócrates

Assim, cada pessoa tinha predominância de uma emoção, ou estado de espírito, mediante influências dos elementos naturais sobre ela (especialmente seus órgãos).


Esquematicamente:




Sabemos, contudo, que as emoções não são energias dentro de nós, mas consequências de estimulação ambiental. P.e., uma pessoa que tem um "temperamento melancólico" não é alguém que tem a "energia da tristeza", mas alguém que, tão somente, convive com contingências entristecedoras há muito tempo em sua história de vida.


Notaram, contudo, que as 4 emoções básicas, segundo Hipócrates, formam 2 pares de opostos?


Me refiro aos opostos "alegria e tristeza", e "medo e raiva".


Em Análise do Comportamento, entendemos a alegria como consequência da aproximação de um estímulo positivamente reforçador. Já a tristeza, do afastamento de um estímulo assim. (Ficamos alegres quando uma pessoa agradável se aproxima, e tristes quando ela vai embora).


Ao passo que raiva está associado a aproximação ou enfrentamento de um estímulo aversivo, e medo é relativo a se afastar de um estímulo aversivo. (Sentimos raiva em situações de enfrentamento de problemas, e medo quando fugimos deles).


Esquematicamente:




O que Hipócrates chamou de "4 emoções básicas" parece ser as relativas a afastar-se e aproximar-se de estímulos positivos e negativos, portanto.


Em outro post, contudo, eu já havia dito que havia 7 emoções básicas, e não 4 (Tomando por base as expressões faciais universais de emoções).


Só citei a teoria hipocrática das emoções por seu valor histórico... Contudo podemos viajar um pouco mais na tipologia hipocrática! 


Diz-se que o amor é uma mistura de alegria e tristeza, pois o amor está relacionado a estimulação positiva (querer estar perto dela e nunca longe). Ao passo que o ódio é uma mistura de medo e raiva, pois sentimos ódio do que é aversivo para nós, por algum motivo, e por isso queremos enfrentá-lo ou evitá-lo (luta ou fuga).


Ora, e o que seria a mistura de amor e ódio?


Respondo pelo diagrama:





OBS: Empédocles costumava ver a vida como uma mistura harmoniosa de amor e ódio.



Em resumo, não há algo como "emoções básicas". O que há são contingências, envolvendo reforçadores e situações relativas a eles, muito parecidas.


A chave para compreender as emoções é, portanto, estudar os reforçadores presentes no ambiente no momento em que ocorrem, e como a pessoa que se emocionou reagiu a eles.







Demônios e o Terror Noturno





Hoje vou atacar de demonologista.


Vocês já ouviram falar de Incubus/Sucubus


Na Idade Média (apenas naquela época?) acreditava-se que demônios atacavam pessoas quando dormiam, fazendo-os acordar em meio a reações de pânico. Incubus atacam mulheres, e sucubus, os homens.


Um Incubus atacando uma mulher adormecida


Um amigo me perguntou sobre terrores noturnos, porque sua filha de 9 anos acordava de madrugada em desespero, chorando, correndo pela casa, e ia pedir  para entrar no quarto dos pais, para dormir protegida com eles.


Claro que eu não disse se tratar de obra de um Incubus, gente. 


O "terror noturno" é como um ataque de pânico que acorda a pessoa. Sua respiração fica lenta e difícil, diafragmática. A falta de a faz acordar com o desespero próximo do de um afogado. Contudo a pessoa, por alguns segundos, não acorda inteiramente e fica semiconsciente na cama, sem conseguir se mexer.


Imagine a sensação de estar sem ar, consciente, e sem poder se mexer para fazer nada. Pois é... É como ser atacado por um demônio:


"Não temerei os terrores da noite" (Salmo 91:5a)


No imaginário medieval, o Incubus/Sucubus ficava em cima de sua vítima, pressionando seu peito enquanto sugava seu fôlego vital. A imagem do demônio Incubus é uma representação supersticiosa da experiência fisiológica do Terror Noturno, conforme eu já descrevi acima.


Agora, um dado curioso: na mitologia medieval esses demônios tem natureza sexual. De alguma forma, então, acreditava-se que o terror noturno estava relacionado a sexualidade.


Ao lembrar disso, perguntei para esse meu amigo o que sua filhinha fazia ao acordar. Ele disse que ela ia chorando para o quarto do casal, pedindo pelo pai. (E não pela mãe).


Então veio a hipótese: "Ela pode estar com ciúmes da relação de vocês dois. Os terrores noturnos podem estar ligados a isso".


Como saber se a hipótese está certa?


Se os ataques sumissem com a ausência por viagem longa de um dos pais, seria um sinal de que a hipótese está correta.

Em todo caso, esse meu amigo disse que vai atentar para a respiração da filha (afinal, pode ser um caso de apnéia do sono) e também para essa hipótese do ciúme.



Antes que eu esqueça..

Eu mesmo já tive a experiência de ser "atacado por um sucubus".



As pessoas sempre tiveram explicações
supersticiosas para os males que não entendiam


Uma noite acordei com uma sensação de pressão no peito. Eu estava assustado, quase em pânico (pois estava ficando sem ar). Olhei pra frente e vi uma sombra sobre mim, que sumiu rapidamente, ao mesmo tempo que o ataque passou.


Por alguns segundos irracionais, desses que temos quando acabamos de acordar e podemos confundir sonho e realidade, acreditei ter sido atacado por um demônio. Mas então notei que a "sombra" era tão somente um efeito da luz do meu quarto sobre minha retina, aliado ao fato de ter erguido a cabeça rapidamente.


Acho que nenhum demônio sobrevive a uma análise de cunho racional...





segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Aprendizagem Latente contraria a Lei do Efeito ?



Quando eu tinha 5 anos desapareci de casa por varias horas. Meus pais, preocupados, acabaram me achando na casa de um amigo do outro lado da cidade. Eu atravessei uma distancia imensa a pe para chegar a casa dele, e ninguem entendia como eu havia feito aquilo, pois eu nunca havia, em tese, aprendido o trajeto.

Voces podem ate duvidar, mas eu lembro como fiz aquilo...

A casa desse amiguinho, cujo nome, vejam so, eu nao lembro, (mas acho que ainda lembraria como chegar a casa dele), era no caminho do onibus escolar que eu pegava todos os dias. Eu fazia aquela viagem sempre e acabei aprendendo o trajeto porque eu gostava do passeio e prestava muita atencao a cada detalhe da paisagem, porque a achava bonita.

Alguem poderia dizer que tive uma "Aprendizagem Latente" do trajeto pra casa do amigo, pois nao fui reforcado, mas mesmo assim aprendi como chegar la.

Tolman, em um celebre experimento, chegou a conclusao de que havia aprendizagem sem reforco, pois um rato saciado que havia explorado a esmo um labirinto acabara aprendendo a sair dele. Isso poria em cheque a Lei do Efeito, pois o rato teria aprendido o "mapa" do labirinto sem ter sido reforcado (O efeito da aprendizagem nao teria sido reforcado de forma nenhuma, mas a aprendizagem ocorreu mesmo assim).

E o que Tolman diria da minha experiencia aos 5 anos? Que aprendi sem reforcamento o "mapa mental" para casa do meu amigo, tambem. Contudo,Tolman estaria enganado, porque houve um reforcamento sim, so que ele foi sutil, dificil de perceber. 


Nao tive meu comportamento de "achar o caminho pra casa do amigo" reforcado por recompensas de chegar la. O que houve foi que tive o comportamento de "lembrar de enderecos daquela vizinhanca" reforcado pela beleza da paisagem.

A propria beleza da paisagem era o
reforco, e nao o chegar ao destino!!

O erro de Tolman foi nao perceber reforcadores mais sutis e nao tao faceis de observar quanto comida, agua e afins.


O que chamamos de "Aprendizagem Latente"  e' na verdade uma aprendizagem sutil, derivada de reforcadores dificeis de perceber, mas que estão sim no ambiente, e não uma aprendizagem oculta, que ocorre no plano cognitivo da mente, como achava Tolman.


Assim, p.e., eu nunca tinha aprendido a ir pra casa do meu amigo sozinho (porque isso nunca havia acontecido e portanto nunca tive esse comportamento reforcado) mas aprendi, por causa do reforcamento da paisagem, a me deslocar pela vizinhanca dele.

Nem tudo que nos reforca e' facil de perceber, apesar de ser reforcador. Estamos o tempo inteiro aprendendo de forma latente pequenas e grandes coisas. Identificar o que nos reforca nem sempre e' uma tarefa facil...



Tolman que o diga...


Related Posts with Thumbnails