Sábado, 4 de Julho de 2009

Skinner lendo Buda


Capítulo 3 do Dhammapada, chamado "Citta Vaga", cujo tema é a mente.

Vejamos como B. F. Skinner poderia ler esse trecho do clássico budista, traduzindo-o para conceitos comportamentais:


"A mente é difícil de ser controlada.. difícil de ser percebida... O sábio a domina, pois uma mente controlada conduz a felicidade"


Antes de mais nada, a palavra original para mente no texto é Citta, que traduz-se literalmente por "pensar", "ter consciência de algo". Ou seja, para o budismo a mente não é uma entidade, (que seria expressa por substantivo), mas um comportamento (expresso por um verbo).

A tradução do trecho do Dhammapada acima, para termos comportamentais, poderia ser algo como: "O pensar é um processo difícil de ser controlado, pois ele envolve diversos fatores, alguns acessíveis ao pensador, outros não. Porém controlar esses fatores que determinam o pensar conduz a felicidade".

OBS: Classicamente, os fatores que determinam o pensar podem ser controlados com uma vida comedida em termos de dieta, exercícios, hábitos virtuosos e acima de tudo, exercício da meditação e da compaixão.

"A mente é precursora de todos os estados. A mente é o chefe. Todos os estados são confeccionados pela mente. (...) Aquele que vive imerso em vícios, sem virtude, logo é controlado por suas ilusões, e não tem dignidade".


Ok, aqui entramos em uma clássica questão Comportamental: a impossibilidade da "mente" ser a causadora de comportamentos.

Mas note como imediatamente após a declaração de "A mente é quem manda" vem logo a advertência sobre hábitos e vícios. A fórmula que Buda oferece parece ser: discipline a forma como você se comporta e você disciplinará seu pensar.

E como obter essa disciplina?

São prescrições budistas para isso:

- meditar

- fazer jejum regularmente

- evitar matar, roubar, mentir, etc

- exercer compaixão pelos outros

- etc.

O pensar é visto, no Budismo, como um agregado de processos que forma a consciência (uma vez que somados ao perceber, ao sentir, a informação sensorial, etc). O agregado "Pensar", por sua vez, foi determinado por outros agregados, como o sentir (emoções) e o perceber (5 sentidos). Assim,a mente não é uma criadora incriada: ela é determinada pela relação com o ambiente (nossos sentimentos, sensações e percepções depende da interação com o ambiente).

Logo, o que o Dhammapanda está no dizendo, sua grande lição, em termos comportamentais, é: "Comporte-se adequadamente, exercendo hábitos virtuosos, e mesmo seus pensamentos serão controláveis, e assim você será mais feliz".

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Teoria da Personalidade (2)

Origem Histórica o Termo Personalidade


O termo “personalidade” vem do grego “persona”, que significa máscara. Trata-se de uma referência poética a idumentária que o ator usava no teatro grego para ajudar a vestir-se de um determinado personagem. Ou seja, a personalidade é tida como uma interface entre o eu-verdadeiro (o ator) e o meio social (o público).


Com a Modernidade, em especial pela influência do Romantismo nas artes, o termo personalidade deixou de ser visto assim, mudando seu significado de aparência para essência. Por personalidade passou-se a entender o aspecto interior e metafísico da alma que torna cada pessoa única.


Boa parte dessa transformação conceitual ocorreu por influência, como já citada do Movimento Romântico, que inaugura a expressão poética do Individualismo Moderno, passando a identificar personalidade com alma (conceito filosófico grego). Do ponto de vista político, com o Liberalismo Moderno, a personalidade ainda ganha uma conotação de “coisa privada”, particular, cultivada na vida pessoal, em oposição ao social, cultivado na esfera pública.


A esse tempo a personalidade passou a significar algo como um mundo interior, subjetivo, reduto do eu diante do mundo, uma misteriosa essência metafísica. É nesse contexto que nasce a Psicologia Moderna, com a árdua missão de compreender o funcionamento pessoal do indivíduo, isto é, sua personalidade (motivações, necessidades, interesses, desejos, etc). Se o psicólogo atém-se a pessoas ou, dizendo de outra forma, a vida pessoal dos indivíduos, então ele deve entender o que é a personalidade.



Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Rato na Caixa (1)


Um conhecido meu e leitor deste Blog, André, graduando em Psicologia pela UFSC, postou esta foto no orkut dele:


Legenda da foto: "Big O' Jack aloprando geral na caixa de Skinner. R.I.P. :("


Achei bem expressivas as reações dos amigos, em comentários no ser orkut. Expressivas das mais comuns opiniões, de leigos e estudantes de Psicologia, sobre uso de ratos na Caixa de
Skinner:

Pelo visto, Raquel demonstra alguma saudade do rato que ela utilizou. Se apegou a ele?



Mais uma demonstração de pena. Esta com um algum humor.


Apesar do humor do Pedro, muitas pessoas pensam exatamente isso, e levando a sério.

Há até quem proteste ferrenhamente contra uso de ratos em laboratórios, como o pessoal do PETA.

Dúvida comum. O rato é do aluno? É do laboratório? Quem é o responsável pelo rato? Ou, equivalente: quem controla sua vida?


Ok, essa foi uma expressão de uma emoção não identifícável. hehehe.

Pena, novamente?

As pessoas têm tanta pena dos ratos na Caixa de Skinner assim?

Caso sim, por que nós usamos ratos? Qual a importância do uso de ratos em Laboratórios de Psicologia?

Nos posts a seguir procurarei responder a essas perguntas...

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Teoria da Personalidade (1)

Hoje começo uma série de posts sobre Teoria da Personalidade.

Comportamentalistas mais ferrenhos, não se assustem... hehehe

Vamos a parte 1.



Personalidade como Conceito-Chave para compreensão da Psicologia


Personalidade” talvez seja o tema mais recorrente, mesmo que não citado nominalmente, na maioria das aulas de Psicologias. Trata-se do conceito-chave da maioria das abordagens psicológicas, mudando apenas de nomenclatura, sendo em algumas chamado de psique, em outras de ego, individualidade, ou mesmo alma, etc.

A Teoria da Personalidade pode ser entendida como o estudo da origem e desenvolvimento do indivíduo enquanto ser único e inconfundível em seus atributos pessoais. Procura responder perguntas como: “Por que as pessoas são como são?”, “Em que medida João é diferente de seu irmão Pedro?”, “Como uma mesma situação pode afetar diferentes tipos de pessoas?”, dentre muitas outras.



Comportamentalistas e a Teoria da Personalidade

Nos curriculos de graduação de Psicologia podemos verificar que muitas disciplinas são dedicadas ao estudo de diversas Teorias de Personalidade. Cada “psicologia” possui um volumoso corpo de conhecimento nesse campo. Já ouvi, contudo, diversas vezes que o Comportamentalismo não possui uma teoria de personalidade ou, quando é admitida, que essa é superficial e de pouca utilidade para aplicações (tais como a psicopatologia na área Clínica).

Afinal, Comportamentalistas acreditam em personalidade? E se acreditam eles se debruçam mesmo sobre essa questão?

O objetivo do presente artigo é apresentar de forma sintética o parecer Comportamental sobre a Teoria da Personalidade.

Veremos que personalidade, para um Analista do Comportamento, existe enquanto uma metáfora para explicar padrões de comportamentos sociais, e que o Comportamentalismo oferece uma visão radicalmente distinta do senso comum em diversos pontos sobre esse constructo. Uma Análise Comportamental demonstra como o que se entende comumente por personalidade é, na verdade, um conjunto de comportamentos. Ou, se preferir, um padrão relativamente estável de respostas, mas não por isso livre de mudanças.

Metafísica como preguiça

Vocês já notaram como explicações metafísicas para fenômenos são na verdade expressões de preguiça?

Por exemplo, dizer que Pedro ama Maria porque "seu coração o quer, com toda a força da alma".

Não creio que o amor seja redutivel a uma força vetorial. Antes, amar envolve história de vida, relações, um sem número de vínculos, mudanças e eventos que não podem ser condensados em algo como "É um mistério da alma".

É sempre mais fácil explicar as coisas por "energias", "forças", pulsões, psiquismo, e outros fenômenos de veracidade convenietemente não-verificáveis. Equivale a dizer: "É assim porque sim".


Agora, pesquisar, ir atrás, analisar eventos, procurando sentido entre eles e a forma como essa sutil conexão determina as coisas, isso sim, é uma atitude elegante.

Enquanto explicações mágicas/metafísicas são improvisáveis em segundos, analisar contingências demanda curiosidade e diligência.

Se é mais árduo? Sim! Mas o resultado é incomparávelmente mais rico e entusiasmante que o que pode surgir em bolas de cristal.


Domingo, 28 de Junho de 2009

David e Brian demonstram o condicionamento Pavloviano

Um video sci-comedy para descontrair:



Clique aqui para assisti-lo no YouTube.


Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Contracontrole no Irã


Para mim essa foto expressa de forma inigualável a máxima Comportamental pela qual controle aversivo gera reações emocionais intensas e contracontrole:

(Mulher "mostra o dedo" para o presidente do Irã,
notório por defender a guerra, a opressão,
o racismo, o machismo, etc, etc, etc)

E Michael Jackson morreu... Talvez pudesse ter sido diferente!



Morre Michael Jackson.

Também, pudera... Ele tinha 50 anos, vivia deprimido, sozinho. Estressado desde a infância com o trabalho. Tomava diversos remédios. Diversas complicações derivadas de cirurgias plásticas. Era acusado de pedofilia, e mesmo que seja inocente, só conseguia amar crianças, pois se via como criança em suas próprias palavras (O que revela um campo afetivo imaturo).

Tantos problemas...

Michael Jackson me lembrou o conceito de funcionalidade dos comportamentos. De certa forma todo comportamento é funcional, pois funciona para alguma coisa. Por exemplo, ao fazer cirurgias plásticas para alterar o rosto, Michael Jackson estava, em seu entender, se melhorando, o que o deixava feliz (Por mais que parecesse bizarro para os outros).

Porém, além da funcionalidade existe e adaptatividade dos comportamentos.

Somos felizes a medida que temos comportamentos bem adaptados, que funcionam na nossa vida no sentido de alcançar nossos objetivos, mas também aumentando nossa gama de possibilidades para a vida. Ao passo que comportamento não-adaptativos diminuem nossas possibilidades para a vida: nos tornam doentes, fracos, inseguros, e até mesmo podem nos matar. Exemplo: vícios em geral, como em drogas.

Da mesma forma que seres vivos que não se adaptam morrem em um ecossistema, pessoas que colecionam comportamentos não-adaptativos correm sérios riscos...

Michael Jackson, infelizmente, foi uma delas.

Taí alguém que precisava de terapia...

Adeus, Michael!

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Artigo Psique #42 - Habilidades Sociais


Saiu meu novo artigo pra Revista Psique. Edição 32, de junho de 2009.

Clique no link abaixo para lê-lo na íntegra.


Link:


http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/41/problemas-de-grupo-procurar-analise-apenas-para-sanar-problemas-141904-1.asp

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Cadeias Comportamentais?


Um amigo meu disse hoje que boa parte do que fazemos o fazemos por conta de nossos modelos mentais.

Perguntei para ele o que seria isso, e ele, que leu algo sobre o tema em um livro de autojuda, soltou essa: "São aquelas energias dentro do seu cérebro que fazem você agir sem pensar"

(!!!!)

Ok, ok.

As pessos em geral têm uma noção vaga de que pensamentos formam atitudes, que ficam flutuando na mente, e esses modelos ou padrões de respostas agem por nós. Isso seria um modelo mental, como mostra a figura a seguir:


E para um Comportamentalista, que seria um modelo mental?

Seria uma forma mentalista de chamar um cadeia comportamental. Sempre é mais fácil enxergar as coisas de forma mentalista, porque estamos imersos numa cultura que filosoficamente ensina as coisas assim.

Que seria uma cadeira comportamental, então?

Antes de mais nada, não é uma "força dentro de nós", mas uma relação do sujeito com o contexto, em algum momento aprendida.

Tomemos como exemplo a atitude otimista.

A cadeia comportamental aprendida e que uma vez emitida é chamada de "atitude otimista" é algo como:

1) Interpretar os eventos da vida da melhor forma possível

2) Acreditar que coisas boas virão

3) Relaxar, persisir, não esmorecer.

etc

Trata-se de comportamentos concatenados, que forma aprendidos em situações similares e se conectam no repertório do sujeito.

Certamente as pessoas têm inúmeras cadeias comportamentais, sobre todo tipo de assunto. É mais fácil pensar nelas como "energias" ou "modelos mentais" que ficam flutuando em um espaço etéreo da mente.

Mas ao agir assim perdemos de vista um fato importante: são comportamentos. E como tal, só fazem sentido no contexto de ação do sujeito.


Domingo, 21 de Junho de 2009

Twitter – Uma Análise Comportamental de Usos e Abusos



Prévia Hipertextual

Link do Twitter: http://twitter.com/



A capa da revista Época desta semana é contudente: o Irã passou por uma
revolução cultural que resultou em grandes transformações, e parte dessa revolução se deve a comunicação digital, em especial ao Twitter.

Link: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI78253-15227,00-O+LEVANTE+DO+IRA+TRECHO.html

Empresas, programas de TV, celebridades e até órgãos políticos e sociais têm Twitter como estratégia de comunicação.

Outro dia li num portal de notícias que uma importante votação do Parlamento alemão teve o resultado vazado pelo Twitter, o que abalou os alicerces do poder germânico.

Link: http://info.abril.com.br/noticias/internet/twitter-pode-ser-banido-no-parlamento-alemao-01062009-3.shl


Ao mesmo tempo, Ashton Kutcher, ator hollywoodiano, se gaba de ter 1.000.000 de seguidores no Twitter, tendo superado o conglomerado de mídia CNN nesse quesito.

Link: http://diario.iol.pt/moda-e-social/ashton-kutcher-twitter-demi-moore/1057573-4061.html

Diante dessas notícias surge o questionamento: “O que é o Twitter?”.


Que seria esse novo recurso de comunicação digital que abala tanto a esfera pública quanto privada? Como ele está influenciando o comportamento das pessoas?







O Twitter veio para ficar

Variação do fenômeno blog (diários on line), o Twitter pode ser definido como um microblog coletivo. Trata-se de uma forte tendência na internet: comunicação rápida, em tempo real, em uma rede de amigos (virtuais ou não), em detrimento das mensagens massivas, como SPAMs.

Cada “twitter” ou “twitteiro” pode escrever mensagens de apenas texto, contendo até 140 caracteres (curtinha, hein? Algo um pouco menor que este parágrafo até aqui. Por isso ele é um microblog).

Originalmente os microblogs foram criados para disseminação rápida de links de interesses de seus donos para amigos. Como, porém, o Twitter é coletivo significa que o que um “twitteiro” posta será visto por todos seus “seguidores” (pessoas que pediram para receber suas mensagens). Assim o resultado final, visível cada vez que se “loga” no Twitter é uma colcha de retalhos de mensagens de diversas autorias, sobre diversos assuntos, contendo links ou apenas textos.



Breve Análise Comportamental do Twitter

Cada mensagem permite até 140 caracteres. Se contarmos os caracteres de um eventual link a enviar isso significa que as mensagens no Twitter são realmente curtas. Ou seja, o comportamento de “twittar” tem um baixo custo de resposta. Por isso há pessoas que twittam tanto, em tono lugar, pelo celular ou do notebook, sobre qualquer assunto. É fácil twittar, por isso há tantos autores e mensagens lá. Sobre isso, conferir o Twitter do escritor Neil Gaiman, repleto de mensagens sobre temas cotidianos, como levar o cãozinho para passear:http://twitter.com/neilhimself

Outro motivo explica a profusão de autores e mensagens: modelação. Trata-se do comportamento de imitar o que modelos fazem. No caso, amigos (virtuais ou não). Afinal, seus amigos entraram no Twitter e estão adorando. Todo mundo legal está twittando. Você vai ficar de fora? (As últimas frases escritas refletem especialmente o discurso dos entusistas).

Um terceiro motivo parece ser a evasão de privacidade. Isto é, saber o que os outros estão fazendo em qualquer hora do dia, mediante seus próprios relatos. Mais que isso, também poder se expressar sobre qualquer assunto em tempo real, sabendo que será lido pelos amigos.

Um quarto motivo para o sucesso do Twitter seria seu caráter informativo. Me refiro a disseminação de links, referências, videos, notícias, etc de suposta qualidade. Como esse processo se dá entre amigos e o twitteiro pode selecionar de quem ele receberá ou não dados, então pode filtrar os conteúdos por seus interesses.



Novo vício?

O Twitter tem toda cara de poder gerar um novo vício digital em muitas pessoas. Afinal, a recompensa pelo uso é contínua e twittar para fazer parte de um grupo social também reforça o “vício”.

Da Romênia veio uma notícia um tanto estranha sobre os possíveis malefícios do Twitter:

http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1199434-6174,00-GAROTA+MORRE+ELETROCUTADA+ENQUANTO+TWITTAVA+NA+BANHEIRA.html

A garota romena morreu porque deixou um aparelho eletrônico cair na banheira. Mas por outro ponto de vista morreu também porque não resistiu a twittar enquanto tomava banho!!!!



Reflexões

Quando falamos de comunicação digital, o Twitter é uma perfeita expressão das tendências atuais: instantaneidade, redes sociais, compartilhar, etc.

Em termos de saúde humana, o Twitter nos adverte sobre os abusos da comunicação digital e seu potencial de vício.

Comunicação integra e estreita relações. Mas comunicar-se em excesso também pode ser uma patologia...


Para fechar...

Para quem estiver interessado, meu Twitter é: http://twitter.com/AlessandroVR

Sábado, 20 de Junho de 2009

Todos somos bissexuais?

Acho que Freud disse que todos somos ou ao menos temos potencial para sermos bissexuais.

Mais recentemente, há quem defenda isso.



Sinceramente, acho problemático dizer que todos são bi. Daí nasce preconceitos como estes: "Faluno é gay, mas se experimentar mulher, muda de idéia", "Beltrano só é machão assim porque nunca provou homem", etc.

A sexualidade é um conjunto de comportamentos relacionados a necessidades físicas, sociais e afetivas. Skinner disse, em "Sobre o Behaviorismo", que um heterossexual pode, em determinadas circunstâncias, ter uma experiência gay e continuar sendo hetero.

Que circunstâncias são essas?

- Curiosidade (Especialmente em fases exploratórias da vida, como a adolescência)

- Tesão (privação prolongada de sexo ajuda, como ocorre com detentos, militares, etc)

- Amizade (Tem uma gíria para isso: "Fuck Buddy")

- Álcool (sim, tem gente que fica saidinho com apenas algumas cervejas).

etc, etc, etc.

Sendo a sexualidade comportamento, e não uma estrutura interna imutável da pessoa, então ela pode variar. Fases da vida e eventos podem fazer uma pessoa ora hetero depois se tornar homo, ou o contrário.

Se tem uma coisa que aprendi sobre sexualidade estudando Psicologia, foi isso: "
Os seres humanos são bem mais variados que macho-fêmea".

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Relatividade do Reforçador

Uma barra de chocolate. É uma poderosa recompensa, não?

Talvez nem tanto.

Tem gente que odeia. Sério!



Vamos supor alguém que adore chocolate. A mesma barra não seria tão atrativa em qualquer circunstância. É bem provável que logo após comer 3 iguais a 4a barra já não seria tão atrativa.

Da mesma forma que o sujeito estiver com fome e gostar de chocolate, ela pode se tornar ainda incrivelmente mais.

Podemos comparar o poder de recompensa ou de punição de um reforçador aos preços dos produtos. Ambos variam conforme circunstâncias (outro nome para "contingências").

Por exemplo, quanto custa 1 quilo de arroz?

Depende.

Do quê?


- origem


- tipo


- ponto de venda

- época do ano

- quantidade a comprar


- interesse de compra de quem vai comê-lo


- habilidade de persuasão de quem está vendendo
etc, etc, etc.

O preço do arroz não é absoluto.
Da mesma forma, nenhum reforçador tem poder constante.

A barra de chocolate, por exemplo, tem seu poder de reforço positivo alterado por ao menos 2 contingências:


- estado de saciação ou privação da pessoa que vai comê-la


- histórico de reforçamento (que determina se ela gosta ou não de chocolate).

Você consegue imaginar outras?

Disso extraímos uma importante lição: nossos desejos não estão em nós, mas nas relações mutáveis entre nossos estados momentâneos e as coisas.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Análise de um doidão dançando com a galera

Esse video é realmente impressionante!

Foi gravado em um festival de música. Trata-se, na minha opinião, da mais perfeita ilustração do "efeito manada" que eu já vi. (Uma forma de modelação do comportamento que ocorre em grandes grupos, massivamente).


Clique aqui para assistir e começar a dançar também.


Alguns conhecidos e eu fizemos um jogo bem Comportamental com esse video: procuramos o maior número possível de contingências que explicariam os comportamentos visto nele, a partir de evidências que o video mostra.

Vamos lá a lista que achamos:

1)

Notei que a maioria dos que imitiram o "maluco" e entraram na algazarra eram jovens acompanhados (grupos de amigos e casais). Esses perfis parecem se identificar mais com o "maluco", potencializando a modelação. Notem como muitas pessoas de mais idade permanecem sentadas, especialmente familias (baixa identificação com o modelo "maluco").

2)

Repare que o primeiro a acompanhar o maluco na dança chega logo que o refrão "I gotta be unstoppable" é cantado.


A segunda leva chega logo que é cantado o refrão pela segunda vez.

Repare que, após o termino da música, quem está filmando continua a cantar o refrão.

É um refrão muito forte. Imagine as pessoas de manhãzinha, depois de dançarem a madrugada inteira: estão lá, doidonas, deitadas na grama sentindo o solzinho bater. Todo mundo meio parado, se espreguiçando.

Aí começa um refrão desse, como que desafiando as pessoas: "Vamos ver quem aguenta, quem realmente é guerreiro e vai continuar dançando".

3)

pelo angulo das sombras e o tipo de iluminacao ambiente, parece ser algo entre 8 e 10h da manhã

acho q esse pessoal passou a noite toda da rave, e estava descansando...

O maluco que iniciou a turba foi mesmo, como o Vinicius sugeriu, um agente que desafiou a galera para persistir...

4)

O video nao mostra, mas se fosse uma rave, elas costumam ter varios palcos, cada um com seu publico.

Eh possivel q esse maluco tenha atraido um grupo de pessoas de um outro palco onde o show tivesse acabado.

Assim teria havido uma MIGRAÇÃO de festeiros de um palco para outro, puxados pelo maluco inicial.

para reforçar essa hipotese, observemos o fato de ha uma turma de pessoas sentadas que nao adere a turba... Os que aderem parecem estar correndo de longe (de outro palco?)

5)

Interessante também é a aceleração gradual do numero de dançantes. Começa um tempão (t) o cara sozinho, depois em por metade desse tempo (t/2) fica um segundo carinha, depois por t/4 fica o 3o e assim por diante, sendo uma curva positivamente acelerada da adoção da prática. Lembra um pouco as 'curvas de adoção' de inovação, uma curva em forma de sino com eixo temporal:
http://www.valuebasedmanagement.net/methods_rogers_innovation_adoption_curve.html

Mas no caso, a curva teria uma aceleração ainda mais rapida que a tradicional curva de adoção de inovação (seria um sino mais comprido), talvez pela facilidade da 'adoção', talvez por fatores outros como os listados (controle verbal pela musica, a predisposição ao comportamento pela população que vai a shows de musica eletronica, etc, etc).

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Experiência ou talento?


Sabe os missionários mórmons?
Pois é... Passam horas batendo de porta em porta, falando com estranhos, sendo persuasivos, simpáticos, carismáticos com o objetivo de converter fiéis.
E fazem isso por 2 anos "em missão".
Agora imagine... O cara termina a missão e com essa bagagem de experiência, tem todo "talento" para trabalhar com quê?
Vendas, claro.
Saiu uma notícia no UOL sobre isso, que me fez lembrar: cuidado com a tentação de dizer que fulano "leva jeito" ou "é talentoso" para tal assunto. Geralmente quem se apressa a declarar isso são as pessoas que não analisaram contextualmente o histórico do mesmo fulano, em busca de experiências pregressas.

Ninguém "nasceu bom para vendas". Mas quem ficou 2 anos "vendendo" a Igreja de Jesus Cristo acaba "pegando jeito" para vender qualquer coisa...
Link da notícia: clique aqui.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Ambiente como CONTEXTO


Qual seria a melhor palavra para substituir "ambiente" ?

Se você perguntar para um leigo em Análise do Comportamento, provavelmente ouvirá que
ambiente é um espaço físico, ou se trata de algo como meio ambiente. Nesse caso, se trata de "o mundo lá fora", externo, onde se situam os sujeitos e os objetos.

Penso que a palavra mais próxima do conceito
ambiente na Análise do Comportamento seja contexto.

Pense comigo... Con-texto...
Con está relacionado com conjunto, etimologicamente; enquanto que texto com informação, artigo a ser lido ou interpretado. Logo, contexto é um conjunto de informações legíveis. Ou, vendo de outra forma, um texto no qual nos inserimos como autores e personagens ao mesmo tempo.

Dê uma olhada nesse quadro de Magrite:


O ambiente pintado é real? Está no quadro? Na paisagem? A interpretação do quadro é contextual: depende da "leitura" de quem o aprecia, e essa só ocorre em um determinado ponto-de-vista.

Ambiente é a totalidade de condições que afetam os eventos. E como tal, só pode ser entendido contextualizando sujeito, objeto, tempo e espaço. Portanto, é ambiente:

1) O sujeito que emite comportamentos, em sua corporalidade, linguagem, relações sociais, etc

2) O espaço-tempo onde o sujeito transita. Isto é, seu mundo e cenário.

3) O objeto, isto é, toda forma de estímulo que afeta o sujeito.


Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Controle


Esse, para muitas pessoas, é um palavrão. Para Analistas do Comportamento, longe disso.

Infelizmente muita gente que se aproxima da Análise do Comportamento faz cara feia, torce o nariz e sai de fininho quando ouve frases do tipo "Devemos criar condições de controle melhores para as pessoas".

Soa tão feio, né? Controlar as pessoas...

Mas isso apenas quando se usa o termo "controle" conforme o senso comum, onde ele significa subjugar e está associado a autoritarismo e coerção.

"Controle", etimologicamente, contra-roulum (latim), pode ser entendido como "... a faculdade de vigilância, orientação e correção que um Poder, órgão ou autoridade exerce sobre a conduta funcional de outro”.

Em Análise do Comportamento, dizer que alguém está sobre o controle do ambiente significa tão somente dizer que há poderes além dela que determinam, de forma probabilística, a forma como ela age.

Controlar alguém significa influenciar seu comportamento. Determinar, até certo ponto, mas nunca com 100% de eficácia, mas não necessariamente de forma coercitiva.

Por exemplo, o amor é uma das formas de controle mais fortes que existem.

Talvez a mais forte de todas, aliás....

Sábado, 30 de Maio de 2009

Como virar vegetariano?

Não sei se você sabia que eu sou vegetariano. (Se eu fosse falar em "Comportamentalês", eu deveria dizer "Pratico o comportamento de me alimentar apenas de vegetais").

Eu sou vegetariano. (É isso que significa esse "V" verde em forma de folha na minha foto do profile do blog, aliás). Ou seja, sou daquelas pessoas que se alimenta, bem e muito!, apenas de alimentos de origem vegetal (Nada de carne de animais, leite, queijos e afins).





Outro dia, em um fórum na internet, estava trocando idéias sobre como ajudar outras pessoas interessadas no vegetarianismo a aderir a essa prática.


Lancei a questão: "Qual a melhor forma de virar vegetariano?"

Surgiram 3 instruções básicas para esse objetivo:

1) Simplesmente páre de comer carne do dia para a noite.


2) Vá aos outros diminuindo o consumo de carne. Gradativamente em quantidade, até chegar a zero.

3) Escolha um dia da semana em que você comerá apenas vegetais. Depo
is veja como se sente nesse dia e no seguinte. Se algo melhora para você. Caso goste dos resultados, faça isso com 2 dias não seguidos, depois 2 dias seguidos, depois 3 dias, etc, até se tornar vegetariano definitivamente.

Como no Comportamentalismo sabemos que não há receitas universais para nada que diga respeito ao comportamento humano, então as 3 instruções são válidas. De repente a primeira funcionaria bem para você, mas não a segunda. Enquanto que a terceira faria mais resultado com seu melhor amigo, e funcionasse apenas mais ou menos com outro, etc.

Mas para todos que me perguntam eu sempre começo falando da alternativa 3, por um simples motivo: é um bom esquema de reforçamento.


Vegetarianos não comem apenas "mato". Hehehe.
A comida 100% vegetal pode ser muito saborosa.



Em partes, vamos analisar esse esquema de reforço:

1)
Reforço positivo: Passar 1 dia sem carne para que ela consiga checar se há mudanças é torná-la mais sensível as consequências de seus hábitos alimentares em seu corpo. Ao colher os benefícios (por exemplo, sensação física de leveza e bem-estar depois das refeições, ao invés de sentir-se pesado e sonolento) ela estará sendo recompensada.

2)
Reforço negativo: Porém ao mesmo tempo, funcionalmente, pode ser um reforço negativo para muita gente, pois ao eliminar-se carne do cardápio colhe-se benefícios. (Reforço negativo é decorrente do ganho por ter se livrado de algo prejudicial).

3)
Reforço contínuo: Cada dia passado 100% com vegetais gera um ganho por si só (pois naquele dia você dorme melhor, melhora funções gastrointestinais, e pode até sentir pequenas mudanças na pele e nos odores do corpo no dia seguinte). Ou seja, é possível marcar bem uma relação causa e efeito. "Se 2a-feira foi meu dia vegetariano, então na 3a-feira me sinto super bem ao acordar". Isso ajuda a demarcar continuamente o poder reforçador da classe de comportamentos de "ser vegetariano". Por causa desse caráter contínuo do reforço de cada dia sem carne, dará vontade de ficar mais 1, e mais 1, e depois 2, 3, 4, 5, etc, dias sem carne.

Como dito antes, não há uma receita definitiva para se virar vegetariano. Se você está interessado nessa prática, recomendo que experimente as que existem, até achar uma boa para você.

Informe-se um pouco mais neste site.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Por que saí rápido do elevador?

O episódio que vou narrar agora aconteceu ontem.

Era meio-dia. Estava num elevador com amigos, descendo para ir embora daquele prédio. Tinha que sair no térreo para ir para a rua, mas o elevador parou antes do primeiro andar. Eu, apressado, saí andando rápido.


"Ei, Alessandro. Aqui ainda é o térreo!"

Normalmente eu não cometo esse tipo de falha boba.
Porém... Você notou para uma fato importante que eu descrevi? Era meio-dia. E a que contingência isso aponta?

Hora do almoço! Eu estava apressado porque estava com fome. Vendo esse episódio isolado, sem levar essa contingência temporal em conta, alguém poderia dizer, me atribuindo um traço de personalidade: "O Alessandro é um cara apressado". Mas analisando melhor as contingências, temos: "Alessandro estava apressado naquele momento porque estava com fome".

Primeiro, viram como fazer análise funcional do comportamento é sempre uma forma mais rica de compreender as pessoas do que simplesmente hipotetizar "traços de personalidade" delas?

Outro ponto: o fato de ser meio-dia e eu estar com fome funcionou como Operação Estabalecedora para o comportamento de sair rapidamente do elevador. Uma Operação Estabelecedora é, a grosso modo, uma motivação que explica porque fazemos uma coisa numa dada situação mas não fazemos em outra. Por exemplo, fome é uma operação estabelecedora que aumenta a atratividade de qualquer coisa que aumente a chance de obter comida, (como sair rápido do elevador).

Domingo, 24 de Maio de 2009

Filosofia Comportamental da Mente (3)


Estréia em junho próximo a série "Mental", da Fox.

Trata-se de um psiquiatra nada ortodoxo que resolve casos em um hospital.
Note que pelo título da série já fica claro a visão que a embasa. "Mental" porque o tal médico psiquiatra trata a mente dos pacientes, como um oncologista trata o câncer e um ortopedista trata de ossos e afins.

Certo? Não tanto assim... Não há consenso, mesmo no DSM-IV, para uma definição de mente, ou de transtorno mental, na Psiquiatria.


Notem abaixo a imagem de divulgação da série:



Clique aqui para saber mais sobre a telessérie "Mental"


Como um psiquiatra pode tratar a mente se o próprio manual médico que funciona como Bíblia para ele diz que não se sabe ao certo o que é a mente?

Mesmo sem uma definição, psiquiatras dizem que tratam a mente. Pela imagem acima podemos deduzir que, na visão corrente na Psiquiatria, a mente tem algo a ver com o cérebro. (O quê?)

Abrindo a cabeça das pessoas podemos chegar a sua mente, identificada, de alguma forma, com o cérebro.

Nesse caso, qual a relação entre mente e cérebro?

Para a maioria dos psiquiatras, a mente é o cérebro em funcionamento, ou seja, um processo decorrente da neurofisiologia. Assim, se uma pessoa tem alucinações, a melhor forma de intervir é alterando sua neurofisiologia, p.e., com medicamentos.

E para um Analista do Comportamento, qual a relação entre mente e cérebro?

Como já expresso aqui no post anterior desta série, a mente, para a Análise do Comportamento, é uma metáfora para certos comportamentos mais abstratos oriundos da relação do homem com o ambiente (mundo, outros, ele mesmo, etc).

Aí é que entra um ponto crucial: o cérebro também é parte do ambiente.

Na verdade, o cérebro é um conjunto de variáveis interligado a um sem-número de outras variáveis ambientais. Ou seja, para a Análise do Comportamento é importante sim estudar o cérebro para entender a mente. Mas isso não dispensa jamais estudar o contexto em que a pessoa, dona do cérebro, se comporta.

Na série "Mental", da Fox, o psiquiatra herói trata mentes.

Pois bem, um Analista do Comportamento jamais trata mentes. Ele trata pessoas. E pessoas têm cérebros, "mentes", etc, mas também só eexistem em contextos socio-históricos.

Se é importante entender o cérebro para compreender a mente?

Sim!

Mas nunca podemos perder de vista que o cérebro não é o núcleo da mente, e nem o centro da pessoa.

A mente e a pessoa não têm centro ou núcleo, porque são ambas teias de relações entre organismo e ambiente.

Sábado, 23 de Maio de 2009

Habituação

Se você gosta de mulher será que continuaria gostando tanto assim se tivesse que passar as mãos nos corpos de dezenas delas, das mais lindas do mundo, por até 14 horas por dia?


Clique aqui para ver um video de uma das piores profissões do mundo.


Soa estranho, mas talvez seu apetite sexual mudasse. Talvez erotizasse essa cena um pouco menos.

O que explica isso é o fenômeno de habituação a estímulos. A grosso modo: estímulos com os quais estamos muito habituados passam a não nos estimular tanto assim, se tornando até "imperceptíveis". Digamos, uma pessoa sentada em um escritório e sempre ouve telefones tocando, até o ponto que jura não perceber mais.

A habituação, aliás, explica procedimentos terapêuticos como o de "inundação", onde o cliente é exposto a um estímulo que causa desconforto ou desejo de forma exagerada, até o ponto que o efeito indesejado do estímulo perca força.

Por exemplo, uma pessoa que sente desejo incontrolável por comer uvas é "forçada" a comer quilos dessa fruta até que essa necessidade diminua de forma duradoura.

Sábado, 16 de Maio de 2009

Filosofia Comportamental da Mente (2)

A filosofia comportamentalista sobre a mente gira em torno de um conceito-chave: "A mente é explicável como um fenômeno muito mais social que biológico, fundamentalmente de natureza verbal, no lugar de neural".

Ao longo desta série de posts pretendo explicar detalhadamente esse conceito.

O que pensei para hoje é fazer uma análise de discurso dos usos corriqueiros da palavra "mente". Afinal de contas, quando usa a palavra mente está se referindo ao que?

Vejamos alguns casos, extraídos de falas do dia-a-dia:

1. "O que você tem em mente?"

Aqui o que está sendo perguntado é o que a pessoa está pensando. Logo, por mente aqui se entende, digamos assim, o tema dos pensamentos, seu conteúdo, etc.

2. "João tem uma mente poderosa"

João tem uma capacidade intelectual poderosa, isto é, habilidades relacionadas com raciocinar, deduzir, pesquisar, etc.

3. "Você não sabe o que eu tenho na minha mente"

Você não sabe o que eu estou pensando. Ou seja, a mente como a sede dos comportamentos encobertos, especialmente o palco do pensamentos e, para alguns, também dos sentimentos.

4. "A mente humana é misteriosa"

A forma como as pessoas funcionam é misteriosa. Isto é, suas motivações, caminhos, capacidades, comunicações, etc.

5. "A mente do brasileiro é assim"

A cultura padrão do brasileiro é assim. Trata-se de um complexo esquema de macrocontingências e práticas culturais comuns ao povo brasileiro, apelidado de "mente".

6. "O poder da mente sobre o corpo"

O poder da concentração dos pensamentos sobre o corpo. Isto é, a capacidade de autoinstrução e modelagem dos pensamentos quando focados.

7. "O coração em conflito com a mente".

As emoções em conflito com a racionalidade. A mente, neste caso, como faculdades intelectuais de natureza distinta e oposta a vivência sentimental.

8. "O mundo é controlado pelos mais inteligentes, que são pessoas que formam uma elite mental".

Isto é, um grupo de pessoas com maior poder intelectual de manejar contingências da sociedade, por exemplo, porque são mais persuasivas. A mente como refinamento de habilidades superiores de controle de si mesmo e do mundo.

Paremos por aqui...

Se analisarmos o discurso implícito nessas 8 declarações, podemos concluir algo como a seguinte definição corrente de mente:

"Mente é algo individual, um local interior e misterioso (1) onde ocorrem pensamentos e seus derivados, como a faculdade de raciocinar, aprender, se concentrar, etc (2). A mente é de natureza racional (3) e a união das pessoas forma uma mentalidade, que é um outro nome para a cultura (4), que quanto mais mental, melhor".

Vamos a esses 4 pontos:

1) Na Análise do Comportamento, não há nada como um "mundo interior" abstrato. Ele até existe, mas enquanto metáfora poética para uma dimensão complexa do uso da linguagem para descrever estados do corpo. Portanto, se a mente existe, ela não pode estar contida num mundo interior. Onde ela estará, então? Na relação das pessoas umas com as outras e dessas com o mundo.

2) As ditas habilidades mentais na verdade são refinamento de comportamentos encobertos. Por exemplo, a habilidade de imaginar um objeto em 3 dimensões e compor uma casa ou um "filme mental" não passa de uma forma encoberta de se comportar. Não é um "poder mental" mas apenas um comportamento, como andar e falar, com a diferença de que apenas quem o emite é que o percebe.

3) Para a Análise do Comportamento não podemos dissociar comportamentos tidos como racionais, como tomar decisões, de sentimentos e estados do corpo. Logo, não faz sentido dizer que emoções interferem na mente, pois o que ocorre é que aquilo que chamam costumeiramente de mente não passa de um conjunto de variáveis numa rede com outras variáveis que são aquilo que chamamos de coração.

4) A cultura é um conjunto de macrocontingências, metacontingências e práticas replicadas e historicamente determinadas que pessoas compartilham, e não algo como uma "mente coletiva" que existe em uma dimensão metafísica.

O objetivo deste post era explicar como a mente existe apenas enquanto um fenômeno verbal, isto é, uma maneira de dizer, ou ainda um figura de linguagem para nomear contingências dificilmente descritiveis.

No próximo post, falarei mais sobre a relação entre mente e cérebro.


Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Peosia sob controle da audiência

Hoje tive conhecimento de um autor aqui da região chamado Marcelo Ariel. Ele lançou um livro chamado "Tratado dos Anjos Afogados" em que registrou os poemas compostos em seus vinte anos de carreira. Uma das características do autor é que o que ele escreve é bastante alternativo. Conversando com um professor de redação, a característica de misturar diversos elementos inusitados faz de Marcelo Ariel um autor interessante. Num mesmo poema ele mostra influência de Platão, filmes da moda, eventos da história mundial e situações cotidianas. Aí perguntei pro professor por que isso é interessante e ele disse que este é um jeito diferente de escrever, sem compromisso com os estilos literários e poéticos. Isso me fez pensar no controle da audiência modelando o comportamento de um escritor.
Veja um dado curioso da vida do Marcelo Ariel. Ele começou a escrever na época quando ajudava a mãe nos cuidados de um irmão esquizofrênico. Os dois iam para a biblioteca de Cubatão, Ariel lia de tudo e escrevia algo para o irmão ler. O irmão, esquizofrênico, fica sob controle de estímulos que apresentem relação de oposição (minha leitura comportamental da esquizofrenia, tradicionalmente descrita como uma cisão com a realidade), ou seja, vai ouvir e atentar para aquilo que for diferente, diverso, sem coerência, sem lógica. Supondo que a atenção do leitor é o reforçador para o comportamento de escrever, e que o leitor em questão atenta para aquilo que exibe oposições, poemas "mix" são selecionados.
É bem o oposto do que acontece com um literato sujeito à academia, por exemplo. A comunidade acadêmica está sob controle de todo o produto agregado das pessoas que se comportaram em milhares de anos da história da literatura. Várias formas de escrever já foram selecionadas e várias outras já foram extintas, sendo que o escritor hoje é reforçado quando escreve aquilo que esta comunidade específica aprova - e a coerência parece ser um critério tradicional para o reforço.
Este é o dilema de Marcelo Ariel, se sua audiência o modelou a escrever poemas esquizofrênicos, ele não pode ser compreendido pela academia da literatura. Porém, o terceiro nível de seleção também está sujeito a alterações. Uma vez que uma variação passe a contribuir para a comunidade obter reforço (no caso, pela denúncia questões sociais relevantes, reforço negativo), tal prática cultural pode ser selecionada. Poemas esquizofrênicos que contribuam para o alívio do sofirmento humano pelo apontamento de dilemas sociais podem vir a ser importantes e impactantes. Talvez por isso o professor de redação a que me referi no começo do post esteja interessado em comprar o livro de Ariel.


Se quiserem conhecer Marcelo Ariel, assita sua entrevista no programa Entrelinhas aqui.
Marcelo Ariel tem um blog, o Teatrofantasma, se quiser conferir, clique aqui.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Filosofia Comportamental da Mente (1)

Uma busca rápida por "mente" no Google Imagens traz ilustrações como essas acima.

Note que todas tem algo em comum: mostram a mente como
algo que existe dentro da cabeça das pessoas, intimamente ligada ao cérebro ou (como em ao menos 1 delas está sugerido) ao espírito.

E os comportamentalistas? Será que eles pensam a mesma coisa? O que eles têm a dizer sobre a mente?

Ela é tão real quanto o cérebro, simbólica como uma metáfora ou seria apenas uma ficção?

A mente é física ou metafísica?

A mente é o objeto de estudo dos psicólogos?

A mente influi no corpo, está interagindo com ele ou é determinada pela nossa biologia?

Essas e outras perguntas pretendo responder, de acordo com o parecer Comportamental, nos próximos posts desta série, chamada "Filosofia Comportamental da Mente".

Domingo, 10 de Maio de 2009

Watson, behaviorista Metodológico?

Watson é classificado como Behaviorista Metodológico por muitos autores em Psicologia. Muitos inclusive, atribuem esta definição da obra de Watson a Skinner - coisa que Skinner não faz em nenhuma de suas obras.

O livro Princípios Básicos de Análise do Comportamento de Márcio Borges Moreira e Carlos Augusto de Medeiros é um exemplo. Na página 217, parágrafo 2 da edição de 2007, onde é feita uma citação do livro "Sobre o Behaviorismo", os autores colocam um parêntese em uma frase referindo-se ao Behaviorismo Metodológico como o Behaviorismo de Watson. Coloco abaixo a frase:

"O Behaviorismo Metodológico (de Watson) e algumas versões do positivismo lógico excluíam os acontecimentos privados porque não era possível um acordo público acerca de sua validade"

A principal reinvidicação de Watson é sim relativa a restrição da pesquisa aos eventos observáveis da atividade humana. Tal reinvidicação nasceu em protesto a psicologia introspeccionista da época que, devido à seu caráter subjetivo, não poderia ser aceita como científica. Watson em seu manifesto Behaviorista defende a Psicologia Objetiva como única possibilidade desta tornar-se uma ciência.




Esta preocupação com o método (outra coisa que pode ter contribuído para ele ser classificado como Metodológico) é tida como característica definidora de seu Behaviorismo. Em detrimento da importância dada a ele para o método, obviamente sendo possível estudar somente o que é observável, em algumas de suas obras ele deixa uma brecha que muitas vezes passa a idéia da possibilidade de existência de um mundo metafísico - caracterizando-se assim, um dualista. Como exemplo, cito um trecho de uma obra dele que foi publicada em 1913:

"“Seria então deixado para a Psicologia um mundo puramente físico, para usar o termo de Yerkes? Eu confesso que não sei. Os planos aos quais sou mais favorável para a Psicologia levam praticamente a ignorar a consciência no sentido em que o termo é utilizado pelos psicólogos hoje. Eu tenho virtualmente negado que esse campo da física é aberto à investigação experimental. Eu não quero ir além nesse problema no presente porque ele leva inevitavelmente para dentro da metafísica”. (Watson, 1913, p. 175, apud. Strapassom & Carrara, 2005)"

Porém ele não era dualista. Ele diz que os comportamentos como o pensamento, até então não observáveis, ainda viriam a ser. Ele assim, atribuia as condições tecnológicas da época a dificuldade de observá-los; classificando-os como comportamentos - assim como os observáveis - mas que ocorrem em escala tão pequena que só a partir do momento em que houver a tecnologia adequada tornar-se-á possível estudá-los.

O próprio Lanshey, aparentemente o primeiro a usar o termo "Behaviorismo Metodológico", não enquadra Watson deste modo. Watson teria de assumir um mundo mental (metafísico) para ser classificado como Metodológico, e isto Watson não faz. Em uma de suas obras, Watson diz que rejeita a discussão metafísica do mesmo modo que os outros cientistas naturais:

O behaviorista gostaria de fixar a premissa, sem discutir suas muitas implicações metafísicas... O behaviorista... desvia seu olhar... da premissa metafísica e pede apenas para que permitam-no fazer observações sobre o que seu sujeito está fazendo sob dadas condições de estimulação. No lado metafísico ele pede apenas para ser colocado no mesmo cesto dos outros cientistas naturais .” (Watson, 1920, pp. 93-94, apud. Strapasson & Carrara, 2005, grifo acrescentado)

As configurações do Behaviorismo Metodológico não se aplicam a Watson à medida que, sua proposta, tornaria-se inviável diante do compromisso epistemológico do BM. Watson dizia que o Behaviorismo deveria ser capaz de explicar toda a atividade Humana; coisa que o BM não admite por ter entre suas premissas (compromisso epistemológico) a idéia de que o mundo divide-se entre um mental e um físico, sendo possível apenas estudar o mundo físico.


Compreender o pensamento de Watson é importante, afinal ele é o pai do Behaviorismo. O Rodrigo me disponibilizou uma coletânea de textos sobre ele, dentre os quais, estão os que me referenciei para escrever esta matéria. Estes textos foram usados em um curso a respeito de Watson ministrado na USP em 2008; estou me colocando a disposição para enviá-los a quem tiver interesse. Quem quiser recebê-los, envie um email solicitando para: netopsico@yahoo.com.br


Sábado, 9 de Maio de 2009

Comportamento Social (3)

Continuando a série de posts sobre Comportamento Social, depois de falarmos de macrocontingências, bem como o de metacontingências e da definição de comportamento social propriamente dito, chegou a hora de falarmos da aplicação desses conceitos.

E aqui surge um novo conceito-chave: o de prática cultural.


Enquanto escrevo este post, vejo 2 amigos meus jogando DotA, um jogo eletrônico da série Warcraft. Eles parecem bem entretidos. Jogam várias horas seguidas, encontram amigos no mundo virtual do jogo. Têm um linguajar repleto de termos in game. Podemos dizer, portanto, que eles estão inseridos em um cultura própria. (A dos jogadores de DotA).

O comportamento "jogar DotA" é expressão de uma prática cultural, pois:

1) trata-se de um comportamento operante, pois opera alterando o meio

2) envolve comportamentos de mais de um indivíduo

3) é análisável por meio de macrocontingências (neste caso, o surgimento dos videogames, das LAN Houses, o sucesso da fantasia medieval entre jovens, etc)

4) e também por metacontingências (as regras compartilhadas socialmente dos jogadores de DotA que controlam as práticas, determinando por exemplo quem são os melhores jogadores, quem são os novatos, como se classifica um e outro, etc)

OBS: Além de macro e metacontingências, as práticas culturais também pode ser analisadas pelo modelo clássico da contingência ternária.

Uma prática cultural pode ser definida da seguinte forma:

"Um ou mais comportamentos operantes similares propagados através de sucessivos indivíduos" (GLEN, 2003).

Como vivemos em sociedades, estamos todos imersos em um mundo cultural. Destacando: eu não disse que estamos imersos em uma cultura, mas em mundo cultural, pois estamos imersos em inúmeras culturas presentes num mesmo mundo. Por exemplo, meus amigos que jogam DotA praticam Pa-Kua comigo (eu não jogo DotA). Compartilhamos a classe de práticas culturais "Pa-Kua" mas não a classe "DotA".

A análise cultural ou "de nivel cultural" do comportamento é mesmo um capítulo todo especial do Comportamentalismo. Trata-se de um tema recente em termos de pesquisas... e fascinante!



Referência bibliográfica:

Glenn, S. S. (2003). Operant contingencies and the origins of cultures. Em K. A. Lattal & P. N. Chase (Eds.), Behavior theory and philosophy (pp. 223-242). New York: Klewer Academic/Plenum.

Domingo, 3 de Maio de 2009

modelagem & modelação


Vejam essa foto.




Trata-se de um treino de acrobacia do Pa-Kua ao ar livre, no Horto Florestal do Córrego Grande em Florianópolis.

Podemos ver nela o Mestre Aron (atrás) ensinando Fábio (no chão) a equilibrar Augusto (nas coxas de Fábio). Notem que Isabel, ao lado de Aron, está observando como Aron ensina.

Vemos nessa cena 2 formas clássicas de ensino.

Primeiro, modelagem. Aron está modelando o comportamento de Fábio através de instruções em tempo real, reforçando diferencialmente a cada mínimo acerto dele. Mais ou menos assim: "Agora segure ele ali. Isso. ISso. Agora vai se curvando. Mais devagar. Mais devagar. Pára. Pára. Volta".

Depois, Isabel está observando o modelo do comportamento de Aron, aprendendo com ele como instruir pessoas. Trata-se de modelação: aprender um comportamento pela observação de um modelo.

OBS: modelação se torna mais eficiente quando nos identificamos com o modelo e podemos nos comunicar com ele.

Se você quiser mais fotos desse treino no Horto Florestal, clique aqui.



Sábado, 2 de Maio de 2009

Comportamento Social (2)


Clique aqui para ver uma propaganda da Doritos que foi censurada no Brasil.

A peça publicitária foi considerada homofóbica. Nela, um grupo de amigos está no carro, descontraído, e toca uma música que é considerada um hino gay: "YMCA". O garoto menor, do banco do carona, começa a dançar e os amigos ao redor ficam constrangidos. A propaganda termina com um pacote de Doritos tapando o rosto do garoto discriminado e o narrador aconselhando: "Se for dividir algo com os amigos, divida um Doritos".

Ou seja, eis a mensagem: "Não fale de sua homossexualidade para os amigos, senão você será punido".

Essa propaganda me lembrou que uma das propriedades do comportamento social é estipulação de regras, na maioria das vezes verbais, de como as pessoas devem se comportar. Instruções como "Não fale de sua homossexualidade para os amigos" expressam contingências sociais: "Senão eles vão te punir porque a sociedade é assim e assim, e as coisas funcionam assim, etc".

Por causa disso, as contingências sociais podem envolver um atraso. Por exemplo, é possível que um garoto fale de sua homossexualidade aos amigos e não seja punido de imediato, ou nas primeiras vezes. Nesse caso, a regra perde um pouco da força.

Por isso também a maioria dos comportamentos sociais são reforçados intermitentemente. Algo como "Se você agir e assim será bom, mas não precisa fazer sempre isso". As regras sociais costumam ser frouxas e permitir exceções, a não ser em sociedades rígidas.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Método PSI - Uma proposta de ensino com a cara da AC?

Por ser uma disciplina onde o professor versa a respeito de processos de aprendizagem, era de se esperar que os alunos aprendessem com maior facilidade o conteúdo de AEC; além de verem a matéria como uma das melhores do curso, senão a melhor. O que ocorre é muitas vezes o contrário. Grande parte dos alunos sai sem ter domínio do conteúdo e, muitas vezes, detestando a disciplina. Apesar de falarem sobre estabelecimento de contingências reforçadoras, os professores não tem conseguido criá-las em sala de aula.

O professor, muitas vezes, mantém os alunos freqüentando suas aulas por meio de reforço negativo. Se o aluno faltar, ele perde ponto, por exemplo. Ele não vai à aula porque esta é reforçadora, mas para esquivar-se de conseqüências aversivas, muitas vezes. O mesmo acontece com relação a estudar. Grande parte das vezes, o aluno estuda não porque a aprendizagem é reforçadora, mas também para esquivar-se de conseqüências aversivas, como por exemplo, a reprovação.



Pensando nisso, o professor Fred Keller (1963) criou um método que ficou conhecido como PSI (Personalized System of Instruction), coerente com os princípios Analítico Comportamentais.

Também conhecido como “O plano de Keller”, o método foi inicialmente implantado em um curso introdutório de AEC na Universidade de Brasília, produzindo resultados extraordinários e ficando muito popular na década de 70. Existiam cerca de 5 mil cursos baseados no PSI, além de um periódico específico sobre o assunto. Entre os anos de 1973 e 1979 também manteve-se em funcionamento o Center for Personalized Instruction na Georgetown University – EUA.

Após a desativação do Centro de Instrução Personalizada, em Georgetown, houve um decréscimo dramático no número de cursos baseados no PSI, bem como nas publicações a respeito. Vários foram os motivos, mas provavelmente o mais significativo foi a dificuldade inicial para preparação do curso, que exigia um esforço muito grande, além do fato de que o método, não acompanhava o calendário acadêmico, mas o ritmo do aluno.

Algumas das características principais do PSI, são:

1 – Aulas e demonstrações como veículo de “motivação”: As aulas não tem a finalidade de transmissão de conhecimento. O aluno recebe seu próprio material e é instruído sobre como conduzir seus estudos, participando de uma aula somente após dominar o conteúdo que será tratado naquela aula, tendo a aula apenas papel motivacional.

2 – Domínio seqüencial do conteúdo: O conteúdo é dividido em pequenas unidades. O aluno só avança após demonstrar domínio da unidade anterior.

3 – Ênfase na palavra escrita: O que o aluno deve aprender é passado a ele em forma de textos ou manuais que este deve acessar no momento em que lhe for mais conveniente.

4 – Ritmo próprio: Cada aluno conduz seus estudos a seu próprio ritmo. Como o conteúdo não segue o calendário acadêmico, o aluno pode conduzir seus estudos independente do ritmo dos colegas. Se o aluno não atinge os critérios para passar para uma nova unidade, ele pode revisar o conteúdo e tentar novamente. Isto impede que ele avance de um assunto a outro sem ter domínio do anterior.

5 – O papel do monitor: Sempre que o aluno precisar ele pode contar com a ajuda de um monitor. Este, além de fornecer feedback imediato para os alunos, fomenta aspectos sociais da aprendizagem.


Referência:
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-554520040100008&lng=pt&nrm=iso

Sábado, 25 de Abril de 2009

Comportamento Social (1)


Nos meus posts anteriores falei de 2 conceitos prévios fundamentais para se compreender os comportamentos sociais. Trata-se dos conceitos de macro e metacontingência.

Ok, hora de falar de comportamento social em si.

Porém há uma
certa dificuldade nisso. Esse tema costuma ser especialmente espinhoso. Por isso resolvi dividir esse texto em partes, e diagramar bastante os sub-conceitos.

Vamos lá...

1) Sabemos que comportamentos são eventos, ações que um organismo faz em determinadas condições (chamadas comumente em Análise do Comportamento de contingências)

2) Uma forma elementar de representar contingência pode ser vista no diagrama abaixo:


Contingência é a relação que existe entre a Resposta, a Situação Anterior na qual ela está inserida e as consequências que ela gera na situação.


3) Ok. Partindo de 1 e 2, o que seria comportamento social?

Seria todo comportamento onde as consequências efetivas para um organismo A são oriundas da Respostas de um organismo B.

Esquematicamente:



Usando uma linguagem mais técnica: no comportamento social a Resposta de um organismo tem a função de Situação Antecedente para um outro organismo.

Vejamos um exemplo. Se um amigo se aproxima de mim alegre, sorri e acena, eu sorrio e aceno, imitando-o. No caso, a resposta do meu amigo (sorrir e acenar) gerou conseqüências em mim (imitá-lo).

Ou seja, comportamento social pressupõe um ambiente social pré-existente, onde ao menos 2 pessoas interagem através de ações, alguma linguagem, etc.

No próximo post da série, vou aprofundar mais sobre as propriedades do comportamento social. (As coisas ficarão mais interessantes hehhehe)

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Metacontingência


Estava eu pensando em como falar de metacontingências aqui no Olhar Beheca, quando me deparei com essa imagem ao navegar aleatoriamente pelo Google Images, enquanto comia uma barra de chocolate crocante:




No desenho acima vemos pessoas montando um quebra-cabeça, porém elas mesmas são parte dele. Ou seja, as pessoas são peças e montadores do puzzle, ao mesmo tempo.


Achei-a perfeita como ilustração do que é uma metacontingência.

Podemos defini-la como uma prática cultural: trata-se de uma ação que mais de 1 pessoa tomam juntas, coordenadas por regras, visando um produto, um fim comum. Assim as pessoas têm suas contingências individuais entrelaçadas, unidas por um objetivo de longo prazo. Um exemplo clássico: pessoas criam leis para uma sociedade mais justa e as leis criam condições sociais em que as pessoas vivem.

A diferença entre uma contingência e uma metacontingência é que enquanto a primeira é determinada pela Situação Anterior, Resposta e Situação Posterior, a segunda vai além, pois a Situação Posterior pode estar muito distante no tempo, a perder de vista.

Por exemplo, é uma contingência simples: "Quando são 19h, Pedro sente fome e janta", é uma metacontingência: "Na casa de Pedro 19h é hora de jantar porque la é assim que as coisas funcionam pela tradição familiar".

Metacontingências são fundamentalmente sociais e estão ligadas a comportamentos regidos por regras.

Para Todorov e Moreira:

Sociedades se comportam governadas por metacontingências. Estas metacontingências podem ser definidas nos códigos e leis dos países. Em Estados democráticos de direito, como o Brasil, as metacontingências que controlam a sociedade são deliberadas democraticamente por um Congresso eleito pela maioria da população. Alguns exemplos são: a Constituição, o Código Penal, o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente.


Recomendo a leitura na íntegra do excelente artigo de Todorov e Moreira, no SciELO para maiores esclarecimentos:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-79722004000100005&script=sci_arttext

Matéria da Veja sobre Genética


Muito, mas muito "comportamental" a matéria de capa da revista Veja desta semana.

Até no título: "Genética não é destino".

A matéria basicamente diz que existe SIM determinação genética, mas que ela só faz sentido se levado em conta a determinação ambiental.

Dentre outras coisas, a matéria diz:

- Hábitos do indivíduo podem ativar ou desativar genes

- Os genes não são definitivos, nem em um adulto: mudam durante a vida através de mutações ou efeitos epistásicos

- Fatores ambientais, como clima e stress, podem alterar, e muito, efeitos dos genes

Ou seja, mesmo algo inato, como nossa herança genética, está passível de ser alterado por fatores ambientais e, mais ainda, pela maneira como nos comportamos!

Domingo, 19 de Abril de 2009

Macrocontingências

Estava lendo uma revista Época antiga numa fila de espera e uma matéria me chamou a atenção, não pelo tema, mas pela abordagem sociológica que ele teve.

O artigo falava sobre GRUPS (contração de "grown up", isto é, adultos).

Trata-se de um nova tribo urbana formada por homens e mulheres com mais de 30 anos que levam um estilo de vida parecido com adolescentes mas são adultos pra valer, com independência finaneira e maturidade. (O que não os impede, por exemplo, de usar All Star, fazer esportes radicais, ir na balada da moda e jogar videogames).


Grups são adultos independentes que optam por ter um estilo de vida adolescente.
Clique aqui para ver um resumo do artigo sobre GRUPS.


O que mais me chamou a atenção foi que o autor da matéria, ao invés de dizer algo como "Os grups são frutos do espírito da nossa época", resolveu fazer uma análise de contingências, pesquisando que mudanças na sociedade explicam o surgimento da tribo Grup.


Algumas contingências apontadas:

1) A expectativa de vida está aumentando. Logo para os adultos é um bom negócio manter-se jovens, ao menos na forma de se comportar, para poderem curtir mais a vida.


2) Cada vez mais pessoas moram sozinhas. Um adulto solteiro e solitário tem mais chances de levar uma vida de diversão.

3) Os grups são um fenômeno de grandes centros urbanos, onde há opções de lazer e cultura pop.

4) Hoje pessoas entre 30 e 50 anos (a faixa etária da maioria dos grups), são as de maior poder aquisitivo, ao mesmo tempo que tiveram infância nos anos 70 e 80, a primeira época de consumo de massa no BRasil.

5) Hoje em dia a cultura pop e de entretenimento não visa apenas crianças, mas jovens. E o individualismo contemporâneo incentiva um estilo de vida jovem e hedonista.

E por aí vai...

Só que essas contingências (muito bem apontadas, por sinal) são de um tipo peculiar.

Trata-se de macrocontingências, ou seja, quando 2 ou mais pessoas agem sob controle de uma mesma contingência. (No caso, por exemplo, a macrocontingência "Aumento da expectativa de vida" afeta milhões de pessoas no Brasil).



"Aumento na expectativa de vida" é uma macrocontingência
comumente estudada por geógrafos e sociológos.


Macrocontingências são unidades de análise fundamentais para compreender comportamentos sociais. Se desejamos entender como funcionam as culturas, a nivel sociológico, estudar macrocontingências estará sempre em nossa lista de atividades.

Motivação Intrínseca?

Estava eu e um amigo falando sobre motivação.

Em um dado momento, ele me disse: "As pessoas devem agir porque ouvem a voz interior. A motivação de fazer o certo deve partir de dentro delas, senão é falsa".

E eu: "Mas o que custa um incentivo? Por exemplo, regras ou recompensas?"

Ele: "Ora, mas aí vem de fora. O correto é a motivação ser intrínseca"

Essa questão é velha conhecida de Analistas do Comportamento.

Me refiro a falácia da causa interna: desconsiderar a interação pessoas-meio.

No caso desse meu amigo, acredito que ele quis dizer, na verdade, que a pessoa deve se sentir impelida a fazer algo bom não porque há alguém em cima dela açoitando-a ou dando recompensas imediatas, mas porque ela, enquanto indivíduo, aprendeu e amadureceu quanto a ética.

Quando ele diz que a motivação "deve partir de dentro dela" está na verdade dizendo que a pessoa deve contar com maturidade. Isto é, que ela já deve agir de forma autônoma (E em geral isso ocorre com pessoas com alguma bagagem vivencial, apenas).

Mas nem todos estão no mesmo nível de maturidade.

Pode ser que para Joãozinho, de 4 anos, dizer sempre a verdade seja algo a ser recompensado; enquanto que para Pedro, médico de 30 anos, deva ser algo natural e portanto não digno de destaque.

Joãozinho provavelmente precisa de um empurrão, regras, modelos, etc. De Pedro já se espera que seja um indivíduo autônomo, isto é, que saiba se virar por conta própria (dotado de "motivação intrínseca", na linguagem coloquial do meu amigo).

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Como Obama está usando a Ciência da Mudança

“Estou lhe pedindo para acreditar.
Não apenas na minha habilidade
para promover mudanças em Washington...
Estou pedindo para você acreditar
na sua própria capacidade de mudar”

Barack Obama
Mensagem em destaque na página oficial de Obama

Duas semanas antes do dia de eleição, a campanha de Barack Obama mobilizou milhões de adeptos; era um pouco tarde para começar a reescrever o getout-the-vote ("GOTV" - expressão utilizada em língua inglesa para se referir a campanhas pra estimular possíveis eleitores de um candidato a votar, já que o voto é facultativo nos EUA.) . "MASSS...", escreveu o diretor adjunto de campanha Mike Moffo para a coordenação nacional de GOTV de Obama, "...e se eu lhe dissesse que uma equipe mundialmente famosa de gênios cientistas, psicólogos e economistas já descreveram as melhores técnicas para um programa de GOTV?!?! Vocês estariam interessados em, pelo menos, dar uma olhada?" Claro que estariam!
Moffo enviou 0rientações e um exemplo de programa formulado por um conselho de cientistas
comportamentais, um grupo consultivo "secreto" formado por 29 eminentes comportamentalistas dos EUA. A principal diretriz foi uma mensagem simples: "Uma grande participação dos eleitores é esperada". Isso porque estudos realizados pelo psicólogo Robert Cialdini e outros membros de sua equipe que tinham encontrado o mais poderoso motivador para que clientes de hotéis reutilizem toalhas, para que os visitantes de parques nacionais se mantenham nas trilhas demarcadas e para que os cidadãos vão votar é a sugestão de que todos estão fazendo isso. "As pessoas querem fazer o que acham que outros irão fazer", afirma Cialdini, autor do Best Seller Influence (Influência). "A campanha de Obama realmente teve isso."
A existência deste dream team (time dos sonhos) de cientistas comportamentais - que também incluiu os famosos Dan Ariely do MIT (Autor de "Irracionalidade previsível") e Richard Thaler e Cass Sunstein da Universidade de Chicago, bem como Prêmio Nobel Daniel Kahneman de Princeton - nunca foi divulgado publicamente, apesar de seus membros terem apresentado mensagens de apoio e doações públicas para a campanha de Obama, bem como auxiliado em mobilização de eleitores. Todas as propostas da equipe - entre elas a famosa loteria online para arrecadação em que pequenos eleitores concorriam à chance de ter um encontro presencial com Obama - vieram com notas de rodapé citando dados de pesquisas científicas relacionadas. "Foi incrível ter estas propostas nos dizendo o que fazer e a ciência por trás delas", diz Moffo à revista TIME. "Esses caras realmente sabem como fazer as pessoas votarem".
Presidente Obama continua confiando na Ciência Comportamental. Mas agora sua Administração a está utilizando para transformar o país. Pois quando você sabe o que faz as pessoas irem votar, é muito mais fácil ajudá-las a promover a mudança.

O fator "cutucada"
Todos sabemos que Obama ganhou a eleição por parecer mudança, soar como mudança e nunca parar sua campanha por mudança. Mas ele não declarava mudança apenas em Washington - ou mesmo mudança apenas nos Estados Unidos. A partir de suas declarações de que "mudança vem de baixo para cima" para suas advertências acerca de "uma era de profunda irresponsabilidade", Obama apelou à mudança nos americanos [de seus comportamentos]. E não apenas em banqueiros e agentes de seguro - mas em todos nós. Seu mantra "nós somos a mudança que estávamos esperando", pode parecer como um dialeto da hora, mas estava de fato no cerne de sua agenda.
Na verdade, Obama está apostando sua presidência em nossa capacidade de mudar nossos comportamentos. Suas principais prioridades - economia, saúde e energia - dependem disso. Temos de gastar mais dinheiro agora para evitar uma depressão financeira a curto prazo e, em seguida, guardar mais dinheiro mais tarde, para garantir o futuro econômico de longo prazo. Temos que consumir menos energia para reduzir as nossas importações de petróleo e as emissões de carbono, bem como nossas despesas domésticas. Precisamos parar de fumar e evitar outros comportamentos arriscados que trazem danos à saúde das pessoas e aumentam os
custos dos cuidados de saúde que estão devastando a "saúde fiscal" do país. Basicamente, nós precisamos fazer melhores escolhas - sobre hipotecas e cartões de crédito, seguros e planos de aposentadoria - assim não precisaremos de ajuda pelo caminho.
O problema, como qualquer pessoa que tenha um parente guloso ou um alcoolista na família, ou que estoura constantemente o limite do cartão de crédito sabe, é que velhos hábitos são difíceis de mudar. A tentação é forte. Nós somos fracos. Temos abundância de gurus, apresentadores de TV e celebridades nos dizendo para poupar energia, perder peso e viver com nossos próprios recursos, mas ainda estamos dependentes do petróleo, comida gordurosa e dívidas financeiras. É justo perguntar se somos mesmo capaz de mudar. Mas as descobertas recentes da ciência sugerem que sim, nós podemos.
Estudos de todos os tipos de fragilidades humanas estão revelando meios para ajudar pessoas a mudar - não só através de regras ou bonificações financeiras, mas também por meio de sutis incentivos que preservam a liberdade de fazer escolhas ao mesmo tempo que nos encoraja a tomar melhores decisões, desde a adesão a planos de aposentadoria que nos exigem optar por poupar ou não por uma boa aposentadoria a aparelhos que nos avisam quanta energia estamos consumindo. Esses incentivos podem desencadear grandes mudanças; em 2001, uma pesquisa mostra que apenas 36% das mulheres aderiram a planos de aposentadoria quando tinham que se inscrever por ele, mas quando eram automaticamente inseridas em um plano de aposentadoria [sem nenhum trabalho para se inscrever e tendo a opção por não aceitar], 86% optavam por aderir ao plano.
Não é por acaso que o orçamento do Obama propõe um programa ambicioso de matrícula automática em pensões aos locais de trabalho que não oferecem planos de aposentadoria, ou que seu pacote de estímulo econômico tem bilhões de dólares destinados para aparelhos que controlam consumo de energia. Ciência comportamental - em especial o crescente domínio da economia comportamental que foi popularizada pelos livros Freakonomics, The Wisdom of Crowds, Predictably Irrational, Nudge and Animal Spirits, que são os mais lidos no "mundo de Obama" - já estão modificando dezenas de políticas administrativas. "Isso realmente se aplica a todas as grandes áreas em que precisamos mudar", diz o diretor do orçamento de Obama, Peter
Orszag.
Orszag foi um descarado geek [excentrico] comportamental desde que ele leu o estudo que embasa o programa de aposentadoria "401 (k)". Seu substituto, Jeff Liebman de Harvard, é um importante economista comportamental, como também são o conselheiro econômico da Casa Brancaro Austan Goolsbee da Universidade de Chicago, o Secretário Adjunto do Tesouro Alan Krueger de Princeton e vários outros de seus principais assessores. Sunstein, foi nomeado para ser regulamentador do governo Obama. Mesmo o diretor do Conselhor Econômico Nacional Larry Summers tem feito trabalhos em finanças comportamentais. E o economista de Harvard Sendhil Mullainathan está organizando uma rede independente de peritos comportamentalistas para apresentar idéias políticas à Administração Federal.
Obama aprecia a motivação humana relacionada à organização social, e sua retórica muitas vezes soa como se fosse extraída de um livro sobre comportamento. Ele também leu o livro Nudge, que inspirou-lhe para escolher o seu amigo Sunstein - mais conhecido como um estudioso constitucional - para coordenar o Serviço de Informação e Assuntos Regulamentares, o obscuro mas influente departamento do Instituto de Gestão e Orçamento Federal, onde as regulamentações federais são revistas e reescritas. "Cass é uma das pessoas na Administração que ele melhor conhece", diz Thaler, fundador do campo da economia comportamental e co-autor do livro Nudge. "Ele sabia o que estava fazendo quando deu a Cass esse trabalho."
O primeiro sinal da mudança comportamentalista no governo veio à tona em 1 de abril, quando os americanos começaram a receber 116 bilhões de dólares provenientes de cortes de impostos de folha de pagamento pelo pacote de estímulo a economia. Obama não está enviando o retorno dos impostos pagos em apenas um cheque anual. Razão para isso: o objetivo do pacote é incentivar os gastos dos consumidores, e as pesquisas mostram que somos mais propensos a poupar dinheiro ao invés de gastá-lo quando recebemos uma grande quantia. Em vez de entregar uma grande quantia única aos trabalhadores, Obama assegurou que os cortes fiscais serão pagos por meio de deduções graduais, de forma que o dinheiro chega como um pequeno aumento no salário do trabalhador. A idéia, explica um assessor, está em estimular as pessoas a gastar o dinheiro extra.
Os esforços de Obama para nos mudar, implica em um sério risco político. Republicanos já rotularam como um Estadobabá, como um elitista Big Brother nos ensinando como encher pneu do carro ou que deve-se ler para nossos filhos. Temos um presidente eleito, e não um terapeuta, e talvez não queiramos que os funcionários eleitos desafiem nosso direito de sermos preguiçosos e gastar muito tempo vendo televisão.
As intervenções de Obama parecem valorizar estratégias que preservam mais a livre-escolha do que regulamentações rígidas, concepção que Thaler e Sunstein, co-autores de Nudge, chama de "paternalismo libertário". Mas, ainda assim, continua sendo um tipo de paternalismo, e Sunstein terá agora o poder de colocá-lo em ação. A idéia de que funcionários públicos, ainda que bem intencionados, tentem modificar nossos comportamentos individuais para produzir mudanças pode nos parecer um pouco assustadora.
Encare isso: Obama tem razão. Nossas emissões de carbono estão fervendo o planeta e a maior parte da energia gasta é em desperdícios. As despesas com Saúde estão quebrando as Finanças do estado, e a maior parte dos motivos que fazem as pessoas irem ao médico são relacionados a comportamentos inadequados. Nós realmente precisamos mudar, e sabemos muito bem disso.
Então, por que nós não mudamos? E como poderíamos mudar? Os comportamentalistas tem idéias, e o Governo está escutando.

Economia para o mundo real
Obama se comprometeu que a regulação do sistema financeiro seria baseado "não em modelos abstratos... mas no conhecimento disponível sobre como as pessoas atualmente tomam decisões financeiras". Está é uma forma clara de dizer que essa regulação será orientada pela economia comportamental e não pela economia neoclássica.
A economia neoclássica - Outra especialidade da Universidade de Chicago - já tem governado nosso mundo durante décadas. É a doutrina que os mercados melhor conhecem: quando o Governo mantém suas mãos longe das empresas, o capital migra para campos mais produtivos e a sociedade prospera. Mas esse elegante modelo depende de uma ousada suposição: decisões racionais tomadaspor pessoas com interesses particulares criam mercados eficientes. A Economia Comportamental contesta esse pressuposto e o atual colapso financeiro acabou de despedaça-lo de vez; mesmo o antigo presidente do FED (Reserva Federal do Tesouro Americano) Alan Greenspan confessou que a visão de mundo da Escola de Chicago foi abalada. "Nós não poderiamos ter planejado melhor campanha de marketing para Economia Comportamental.
A Economia Comportamental não ignora as forças do mercado explicadas pelas diciplinas básicas de Economia , mas explicita conhecimento tradicionalmente estudado nas disciplinas básicas de Psicologia. Os comportamentalistas sempre souberam que, na verdade, homens não agem como o modelo super-racional do Homo Economicus da visão de mundo neo-clássica. São anos de estudos sobre pacientes que não tomam seus medicamentos, de adultos que mantém relações sexuais sem proteção, além de várias outras decisões imperfeitas dos homens que explicitam a irracionalidade do Homo Sapiens. Algumas de nossas irracionalidades são muito específicas, tais como uma supervalorização das coisas que temos, excessivos alimentos em grandes depósitos, superestimar a probabilidade de eventos improváveis - o que fez a a campanha de arrecadação de fundos via loteria eletrônica "Conheça o barack Obama" ser uma idéia inteligente. Mas, em geral, somos ignorantes, míopes e temos tendência a manter o status quo. Nós não somos tão inteligentes quanto Larry Summers. Nós procrastinamos. Nossos impulsivos ids esmagam a lógica de nossos superegos. Planejamos perder peso, mas ooh - um bolo! Somos especialmente irracionais em relação ao dinheiro; pagamos mais pela mesma coisa se pudermos usar um cartão de crédito, se pensarmos que está em promoção, ou se é comercializado junto a fotos de mulheres bonitas. Não é de estranhar que solicitamos financiamentos que não podemos pagar. Não é de estranhar que nossos banqueiros aprovam tais financiamentos.
"Nós realmente queremos fazer melhores escolhas", explica o economista Dean Karlan de Yale. Ele é co-fundador da stickK.com, em que usuários fazem "contratos de compromisso" para dar dinheiro pra caridade ou amigos - ou mesmo para "anti-caridade" que eles desprezam - caso não consigam atingir seus objetivos pessoais como parar de fumar e perder peso. "Mas nós precisamos de ajuda para conseguir conquistar nossos objetivos".

A Necessidade de saber
O primeiro passo é o conhecimento. Estudos sugerem que melhores informação - sejam a partir de anúncios de serviço público, representadas por personalidades respeitadas, ou mesmo em novelas para ajudar a reduzir gravidez na adolescência e outros males sociais nos países em desenvolvimento - pode nos ajudar a fazer melhores escolhas. Houve uma corrida atrás de lâmpadas com melhor eficiência energética após Oprah indicar aos espectadores de seu programa para comprá-las, do mesmo modo, a hora na Casa Branca de Michelle Obama estimula pessoas aos produtos frescos. Nós não percebemos que deixar nossos carros em marcha lenta consome mais energia do que liga-los e desliga-los, ou que a granola é rica em gordura. E algumas das nossas escolhas são simplesmente confusas, e é por isso que é tão fácil de tropeçar em taxas ocultas e pagamentos de balões durante um financiamento. Mesmo doutores podem se confundir com toda a papelada de nossa sociedade; Thaler e Sunstein contar uma história em Nudge sobre a luta de um economista saudável para conseguir prescrição de remédios para seus pais.
Nudge valoriza rígidas regras de divulgação e de clareza, para nos ajudar a tomar decisões mais fundamentadas sobre empréstimos para habitação, empréstimos pra financiar educação, cartões de crédito, planos de saúde e planos de aposentadoria. Thaler cita uma ordem executiva, assinada por Obama em seu segundo dia no cargo, em que solicita uma nova transparência nos processos por meio das novas tecnologias. "Isso é exatamente o que estamos a falar", diz Thaler. "Se em vez das 30 páginas de uma porcaria ininteligível que vem com uma hipoteca, você puder carregá-lo com um clique em um site que irá explica-lo e ajudá-lo a avaliar as alternativas, o processos se torna tão fácil quanto fazer uma compra qualquer."
Mais informações podem nos tornar mais saudáveis, razão pela qual o pacote de estímulo financeira destinou $ 1,1 bilhões em pesquisas para comparar eficácia de intervenções. Orszag tem pilhas de gráficos que evidenciam que os procedimentos médicos e seus custos variam amplamente em todo o país, mas com pouca clareza sobre o que de fato funciona em saúde pública. Ele pretende documentar as melhores práticas - desde lista de procedimentos em salas de emergência que reduzem drasticamente quantidade de infecções, a protocolos para avaliar quando novos testes ou cirurgias podem de fato ajudar - e, em seguida, implantar tais práticas em todos os serviços médicos públicos. Essa concepção já ajudou os anestesiologistas americanos a reduzir mortes, bem como custos.
Ainda assim, somente informação não é o suficiente para a mudança. Todos nós já sabemos que não devemos fumar ou se entupir de doces, mas o conhecimento não é tão poderoso quanto a motivação; mesmo Summers precisaria perder alguns quilos. Velha piada comportamentalista: Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? Resposta: Apenas um, mas a lâmpada realmente precisa querer ser trocada.

Isso vai ser fácil
Econ 101 (economia tradicional ensinada nas disciplias básicas de graduação) ensina que são os preços dos produtos que promovem mudanças, e é verdade que cobrar 4 dólares pela gasolina nos levaria a dirigir menos. Mas os preços não são tudo.
Essa é a razão pela qual as alternativas que parecem ser o padrão tem tanto poder. A maioria de nós poupará dinheiro para a aposentadoria, executará o computador no modo eficiente de energia e será doador de órgãos se tiver que agir para não fazê-los - mas não os faria se tivesse que tomar alguma medida para fazêlos. Por exemplo, a alguns anos atrás, quase ninguém optou por um serviço alemão de energia limpa até que ele se tornou o padrão. Quando isso aconteceu, 94% da população começou a utilizá-lo. É mais provável que a pessoa vá ao médico para cuidados preventivos, como tomar vacina contra a gripe, se já tiver um horário marcado para fazê-lo. Em um discurso no ano passado, Orszag chegou a sugerir que tivessemos sistema de marcação automática de consultas médicas para a população, tendo a opção de desmarcar a consulta. O próprio Orszag admitiu que isso pode parecer "um pouco esquisito a primeira vista, ou mesmo a segunda vista", mas o fato é que funciona.
Mas idéias como essas estão para começar. O Governo espera fazer uso da inércia das pessoas para implantar os planos automáticos de pensão, um passo importante rumo a contas de poupança universais, e para diminuir drasticamente a quantidade de requisições de americanos por ajuda financeira do Governo Federal. O esforço pela informatização dos registros de saúde da população - outro importante item do pacote do governo - podem melhorar a relaçao custo-benefício dos procedimentos e medicamentos utilizados em tratamentos. Os idosos que não escolheram planos de saúde ou planos de medicamentos (recurso disponível nos EUA) poderiam ser automaticamente inscritos em planos de baixo custo. "Seria bom se todos nós nos comportássemos como supercomputadores, mas nós não somos assim", diz Orszag.
Enquanto a equipe econômica de Obama procura por soluções indolores, rápidas e fáceis para nossos instintos sem fáceis explicações, seu discurso frequentemente explicita a importância de nos prepararmos para tolerar algum grau de dor e incômodo. Ele nos convida a não ocultar as pressões, a aceitar que nós estamos em um prolongado desconforto mas sem nos acostumar a ele, e para focar em nossos valores. Isso é muito similar com as premissas básicas da "terapia da aceitação e compromisso" (ou ACT), um dos mais recentes avanços na Psicologia Comportamental. Em vez de ajudar fumantes a ignorar seus vícios ou a pessoas que sofrem dor-crônica a pensar em outras coisas - a velha abordagem da negação - a "terapia da aceitação e compromisso" ensina pessoas a identificar seus pensamentos negativos e, em seguida, a superá-los, concentrando nos valores importantes para a pessoa. Um rápido exame dessa forma de terapia mostra que parece estar ajudando fumantes a parar, obesos a perder peso, pacientes com dor crônica e diabetes a permanecer sem necessidades de internação em hospitais. O psicólogo Steven Hayes, da Universidade de Nevada em Reno, acredita que nossa cultura de prozac tem nos ensinado a evitar qualquer desconforto, deixando-nos relutantes em exercer ou ajustar nossos "termostatos". Nós supostamente vivemos para estar sempre felizes" (happy-happy-hoo-hoo), diz Hayes. "Obama está tentando nos ajudar a superar isso".
Mas Obama não é um terapeuta mudando indivíduos, um de cada vez. Ele é um gestor público tentando construir uma comunidade e a inspirar ações coletivas por meio de pequenos grupos ou por recursos tecnológicos como o Facebook, bem como por meio de seus discursos sobre os valores partilhados pela nação. Em outras palavras, ele está tentando criar normas sociais - promover mudanças comportamentais de larga escala no país.

Todo mundo fazendo!
Que mensagem seria mais apropriada para moradores economizarem energia elétrica: um apelo à sua consciência ambiental, ou um apelo à sua carteira? Cialdini testou essas estratégias em um experimento na cidade de San Diego e a resposta foi: nenhuma delas. O que funcionou foi um apelo à "conformidade". Os moradores utilizaram menos energia quando disseram a eles que seus vizinhos estavam consumindo menos energia. Somos membros de uma espécie gregária, mais propensos a sermos obesos se as pessoas importantes para si também o são.
Alan Gerber de Yale, em um estudo em 2005, conseguiu aumentar incríveis 8,6% da participação dos eleitos de Michigan nas eleições, por meio de uma única carta com "pressão social" que dizia haver um registro da quantidade de participação da vizinhança em eleições passadas e que na próxima eleição também seria mensurada a participação da vizinhança e que um relatório indicando quem votou nessa eleição seria enviada a todos. (A campanha de Obama chegou a cogitar enviar carta semelhante, mas decidiou não correr o risco de uma reação negativa). E a vergonha também funciona; Mesmo alguns executivos da AIG devolveram seus bônus [financeira que recebeu dinheiro do Governo e o distribuiu sob forma de bônus a seus executivos deflagrando um escândalo nacional]. Cialdini relata que imagens do cérebro mostram que quando pensamos estar fora de passo em relação a nosso pares, a parte do cérebro que registra dor apresenta atividade mais frequente. "Isso é um incrivelmente poderoso incentivo a ação", diz ele.
As normais sociais ajudam a explicar porque as pessoas não optam por sair de um 401(k) [plano de aposentadoria] quando este é oferecido automaticamente: Não é apenas por sermos demasiadamente preguiçosos para marcar um "x" em um formulário, mas por crer que o padrão é a coisa certa a fazer. O incentivo de Obama por investimentos em calefação para milhões de lares - outro incentivo a gastança - exigirá novas normas. Em Oregon, um programa de incentivo para a troca de janelas e isolamento térmico para casas sem quase nenhum custo tem uma resposta morna. Mas após uma intensa campanha de mobilização realizada por conselhos comunitários, igrejas, grupos de escoteiros que batiam de porta em porta perguntando porque as pessoas ainda não tinham isolamento térmico - 85% das casas no estado foram inscritas no programa. "O que funcionou foi criar um sentimento de que estamos todos juntos nesta e que você será um desviante se não se juntar a nós", lembra Ralph Cavanagh do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais. Esta é a razão pela qual cartões, jornais comunitários ajudam a promover
prevenção de saúde e porque competições de convervação entre prédios em que moram estudantes ajudam colégios a poupar energia. E é por isso que os funcionários do Governo - depois do efeito "manada" de pessoas retirando desesperadamente seus dinheiros dos bancos com medo que quebrem, citado no livro Animal Spirits - tentam aumentar a confiança dos consumidores em uma norma social.

Às vezes precisamos de um empurrão
Mas provavelmente nós não gastamos se não tivermos dinheiro. Assim como não é viável utilizar transporte público se não houver nenhum em nosso bairro. O bully pulpit [local em que qualquer cidadão tem voz para reclamar de problemas públicos para o Governo; talvez equivalente as sessões abertas nas câmaras de vereadores no Brasil] tem seus limites - Michelle Obama literalmente tem incentivado o consumo de brócolis, mas ela não tem como faze-lo ter gosto de um delicioso brigadeiro. "Eu adoro nugets, mas as vezes precisamos de mais do que isso", diz Mullainathan de Harvard. As vezes precisamos de um empurrão. As pesquisas mostram que a mudança pode acontecer quando é fácil e popular, mas torná-la lucrativa - ou até mesmo obrigatória - pode fazê-la acontecer com mais certeza.
Esta é a razão pelo recente interesse do Estado na tributação da gasolina, bebidas alcoolicas, eletricidade e até mesmo em produtos com gordura trans para desencorajar comportamentos inadequados enquanto ao mesmo tempo se fecham as lacunas no orçamento. Obama já elevou os impostos sobre cigarros e tem planos para acabar com a ausência de impostos para a extração de petróleo e para offshoring [internacionalização da produção de bens, visando mão de obra e impostos menores em outros países, como a China]. Obama parece estar ainda mais ansioso para
diminuir a carga de impostos sobre comportamentos desejáveis como poupar dinheiro, atividades relacionadas ao ensino, climatização de ambientes, compra de carros eco-eficientes e de equipamentos que economizem energia. Obviamente, sua política energética vai além de incentivos; quer uma rigorosa limitação na quantidade de emissões de carbono. Obama também já sinalizou o criação de um programa nacional de plano de saúde obrigatório para todos os americanos.
Se o modelo econômico neoclássico solicitava que o Governo nos deixasse em paz para fazer o que queremos, a Economia Comportamental abre espaço para o Governo nos ajudar a fazer aquilo que faríamos se fossemos pessoas racionais. Infelizmente, as características que tem detonado Washington nos últimos anos - inércia, negação, alergia a complexidade, preferência pelas gratificações a curtoprazo ao invés dos planejamentos a longo-prazo - são nossos próprios pontos fracos. Os membros do Congresso também são pessoas; eles provavelmente também aceitam mudanças apenas quando são fáceis, populares e gratificantes. Nós realmente queremos que eles tentem nos mudar?
Michelle Obama nos advertiu durante a campanha, "[Barack] vai exigir que você acabe com seu cinismo, que você deixe para trás suas fragmentações, que você saia de seu isolamento, que você saia de sua zona de conforto, que você torne a si próprio uma pessoa melhor". O presidente enfatizou isso em seu discurso de posse, quando pediu aos americanos superar problemas infantis e escolher a esperança ao invés do medo.
Mas nós não precisamos mudar nossos corações assim. Planos de aposentadoria, aplicações financeiras simples, termostatos programáveis e protocolos médicos mais eficientes e com menores custos podem nos ajudar a fazer as coisas certas mesmo que continuemos a ser ignorantes, preguiçosos, gananciosos ou infantis. Não importa se poupamos energia porque nos preocupamos com a Terra, com o próprio dinheiro, ou com nossos vizinhos; o que precisamos é economizar energia. O Governo precisa fornecer as regras certas, os incentivos e empurrões para nos ajudar a fazer escolhas certas. Será muito bom se Obama conseguir mudar nossas normas sociais para que formas mais sustentáveis e ecológicas de vida, alimentação saudável e uma maior responsabilidade financeira sejam a nova identidade do povo americano. Mas para isso não basta mudar as leis em Washington. Nós precisamos de melhores políticas, não melhores atitudes.
A literatura comportamental nos ajuda a enxergar a loucura humana, e conhecer essa loucura pode até nos deprimir. Mas essa literatura também nos oferece meios de transcender a nossa loucura, meios mais efetivos para lidarmos com nossos ids, para superar nossa conformidade, inércia e fraqueza, para deixarmos de fazer coisas que farão mal a nós mesmos e a nossso país. "No mundo físico, nós compreendemos nossas limitações", diz Ariely. "Ninguém fica chateado por não podermos voar. Simplesmente pojetamos algo para nós ajudar a voar." Se Obama nos ajudar a voar para superar nossos maus hábitos, ele vai proporcionar a mudança que precisamos.

Adaptado de: Grunwald, M. (2009). Como Obama está usando a Ciência da Mudança. Em: TIME Magazine. Publicado em 02 de abril de 2009, disponível no site: http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1889153-1,00.html. Traduzido por Hélder Lima Gusso, com versão em língua portuguesa disponibilizada no site: www.sasico.com.br/psico/?p=287. Postagem pessoalmente autorizada pelo tradutor.

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Willy Wonka: sobre chocolates ou FAP?

No filme A fantástica fábrica de chocolates, o personagem de Willy Wonka é o mais bem sucedido fabricante de chocolates do mundo. Ele possui um empreendimento em que realiza invenções supimpas e inovadoras, e enche o mundo de gostosuras. Porém, ao perceber que sua obra pode estagnar-se por não possuir nenhum herdeiro, lança um concurso em que procura por uma criança com as qualidades para ser um bom fabricante de chocolates. Quando o encontra, propõe que esta criança abandone sua família para viver na fábrica de chocolates. A criança nega o seu pedido e provoca Wonka a procurar o padareiro de seu pai. No final do filme, após a reconciliação familiar e a negociação entre os protagonistas, os chocolates feitos na fábrica fantástica se tornam ainda mais deliciosos.

A Psicoterapia Anaílitica Funcional (FAP) é uma abordagem clínica behaviorista radical que propõe uma análise das queixas clínicas de acordo com problemas e dificuldades de relacionamentos interpessoais. As técnicas empregadas na FAP caracterizam-se pelo emprego da interação entre terapeuta e cliente como um ambiente de modelagem de repertórios sociais que seriam responsáveis pela mudança e melhora da qualidade de vida do cliente.

No filme da fantástica fábrica de chocolates, a dificuldade que surge na vida de Willy Wonka parece não ter nada a ver com problemas de relacionamento: ele simplesmente quer contratar um novo chefe. Porém, no desenrolar do filme, revela-se a coerção exercida pelo seu pai sobre ele enquanto ainda era criança - o que parece ter suprimido todos os comportamentos de intimidade para relações familiares. É no seu relacionamento com o ganhador do concurso, um menino esperto, criativo, vivo e amável, que emergem alguns comportamentos que haviam sido punidos pelo pai de Wonka. Willy faz pedidos exagerados ao garoto, que nega mas dispõe-se para novas negociações. A escuta não punitiva e a disposição para reforçar comportamentos alternativos adequados são a fórmula para a resolução dos conflitos de Wonka, que reencontra o pai, conquista uma nova família e ainda passa a produzir doces muito mais criativos e deliciosos.

A relação entre o menino e Willy Wonka é bem parecida com o que a FAP propõe como regras de comportamento para o terapeuta. As cinco regras são:


  1. Prestar atenção se comportamentos clinicamente relevantes acontecem na sessão, ou seja, se o cliente faz na sessão as mesmas coisas que faz na vida diária e que o prejudicam ou se ele apresenta alguma melhora na sessão;

  2. Evocar, ou fazer aparecer, os comportamentos clinicamente relevantes;

  3. Reforçar os comportamentos clinicamente relevantes;

  4. Observar os efeitos potencialmente reforçadores do comportamento do terapeuta;

  5. Fornecer interpretações sobre os comportamentos clinicamente relevantes.

Interessante é assistir o filme e ver o menino seguindo as regras da FAP.

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Maslow seria um psicólogo comportamental?

Por Ítalo Sobrinho e Rodrigo N. Xavier

Respondendo a essa pergunta, Maslow não era psicólogo comportamental - ele era da área humanista. Mas, no inicio de suas pesquisas com macacos, ele desenvolveu uma teoria sobre as necessidades do ser humano: criou a pirâmide de Maslow e concluiu que na base da pirâmide estariam as necessidades básicas e que, em direção ao topo, seguiam-se aquelas necessidades que não tinham tanta força, mas que são importantes em um dado momento.

Onde entra a análise do comportamento nesta historia? Podemos falar das necessidades básicas em termos de reforçadores para o comportamento. Por exemplo, poderíamos explicar a base da pirâmide fazendo uma alusão aos reforçadores primários. Como os reforçadores primários são muito importantes para uma grande quantidade de espécies devido ao seu valor de sobrevivência, a privação aumenta muito a probabilidade de respostas que produzam estes reforçadores. Maslow parece ter caracterizado corretamente cada necessidade de acordo com a probabilidade do comportamento diante da privação: é muito mais provável que uma pessoa se comporte diante de privação de reforçadores primários (necessidades básicas) ou de estimulação aversiva (seguraça estabilidade) do que de conquistas profissionais e pessoais socialmente aprovadas (necessidade de auto-realização).

Um exemplo sobre o poder dos reforçadores primários é a história do acidente aéreo ocorrido nos Andes em 1972, onde sobreviveram algumas pessoas que, para continuarem vivas, tiveram que derreter gelo da montanha para conseguir água e comer a carne de humanos que morreram no acidente. É um caso que ilustra o controle por reforço primário (Maslow chamaria de necessidade fisiológica) numa situação de privação extrema. Depois de 59 dias, duas pessoas sairam atrás de ajuda e 10 dias depois eles foram salvos por um camponês que passava por ali.

Talvez Maslow nunca tenha sido analista do comportamento, mas sua teoria sobre as necessidades podem ser lidas em termos de uma descrição de estados de privação de determinados tipos de reforçadores - e talvez haja uma grande relação entre o humanismo e a análise do comportamento.

Condicionamento Operante em ARTE



Esse desenho de Escher para mim é mais perfeita representação visual do conceito de Condicionamento Operante.

Condicionamento significa que agimos sempre num contexto histórico, isto é, influenciados por condições prévias e presentes. Já Operante implica que nossas ações também estão mudando as condições que nos influenciam, ou seja, estamos operando sobre o mundo.

Eis o paradoxo: nosso comportamento é determinado pelo mundo. Mas também determina o mundo. Assim como as mãos que desenham uma a outra.

Sobre Escher:

http://www.mcescher.com/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Maurits_Cornelis_Escher

Domingo, 12 de Abril de 2009

Multiplex, Multiformis



Na tentativa
frustrada de descrever Alexandre, O Grande, um de seus biógrafos disse:

"Semper in omnibus varius, multiplex, multiformis".

Ou seja, ele sempre parecia ser
vários, muitos, multiforme.

Alexandre era um rei, um guerreiro, um estrategista, artista, filósofo. Mas também era rude, cruel. Porém conseguia ser amável, sensível. Homossexual, mas também amava as mulheres. Frágil nas relações afetivas, mas forte com as pessoas.

Enfim, um mistério. Uma pessoa que desafiava qualquer descrição.

Mas será que só Alexandre, o Grande, era assim?

Você já tentou descrever alguém pra valer?

Não me refiro a termos gerais como "Ele é introvertido", "Ela é maníaca". Estou falando de uma rica descrição fruto de histórico biográfico e da atualidade de alguém.

Quem tenta fazer constata facilmente que pessoas são difíceis de rotular, simplesmente porque as características que as definem são comportamentos que variam de acordo com contingências.

Por exemplo, se eu digo que Pedro é introvertido isso pouco informa: Introvertido quando? Com quem? Em que contexto? Por quanto tempo? etc,etc,etc.

No fundo, no fundo nunca conhecemos de fato alguém. Apenas aprendemos sobre alguns comportamentos que a pessoa pode ter, sem nunca conhecer todos.

Sábado, 11 de Abril de 2009

Reportagem de Época sobre crianças-problema


Saiu na Época desta semana uma matéria sobre crianças-problema. Mas o problema é que elas têm tudo: família, escolaridade, dinheiro, enfim, um ótimo ambiente, mas ainda assim são respondonas, desrespeitosas e até mesmo violentas.

Clique aqui para ler parte da matéria.

Lendo a matéria não pude deixar de tecer uma análise comportamental.

Basicamente o jornalista responsável diz que essas crianças:

1) estão habituadas demais a ter tudo do bom e do melhor com facilidade, por isso não dão valor ao que têm

2) vivem submetidas a esquemas de recompensa contínua por tudo que fazem, por isso não sabem lidar com frustração e perseguir objetivos desafiantes (que envolvem esquemas de reforço intermitente)

3) vivem protegidas de punições por pais super-protetores, e por isso não sentem as conseqüências quando agem de forma reprovável.

dentre outras coisas...

O artigo chega a dizer: "Amor demais estraga".

Pois é, SKinner diz que amor é um outro nome para reforço positivo. Quem sabe ensinar os filhos apenas por recompensas imediatas e abundantes seja o começo do erros dos pais de crianças-problema?

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Consumir por status

Entrevista que dei para o jornal O Estado do RJ. Resta ver como vão publicar, né? ;-)


- Como devo te apresentar na matéria?


Alessandro Vieira dos Reis, Analista do Comportamento, Blog: http://www.olharbeheca.blogspot.com/ E-mai: alessandrovr@gmail.com



- Algumas pessoas compram coisas de marca para passar uma imagem de superioridade. O que seria esse tipo de comportamento?


Comprar uma camiseta de R$ 200 para ser visto com ela é uma forma obter recompensa social. O custo alto da roupa parece querer dizer: "Sim, eu tenho muitos recursos. Sou poderoso". Em outras palavras, não se trata de se vestir para satisfazer uma necessidade, mas para realizar um desejo. Pessoas que agem assim sentem-se privadas de atenção, estima. No exemplo citado, os R$ 200 gastos viram reconhecimento social: a camiseta é um mero meio para isso.

Dois motivos explicam porque esse comportamento, uma vez aprendido, se torna frequente: a) a moda está sempre mudando, empurrando novos produtos a serem comprados para o consumidor se sentir atualizado; b) a recompensa de ser reconhecido como portador de produtos caros é contínua, isto é, sempre que se aparece com uma camiseta cara nova, digamos, obtem-se recompensa de receber comentários ou olhares de cobiça.


- Comprar demais é uma doença? Qual? Quais os sintomas? Existe cura?


Se trata de um comportamento mantido por um sistema forte de incentivos. Por isso uma vez aprendido ele é repetido contínuamente, o que dá a impressão de ser uma mania ou compulsão. O adolescente que precisa gastar pequenas fortunas todo mês em acessórios para roupa para assim manter-se "legal" para os amigos é um caso clássico. Ele está sobre controle de um sistema de recompensas sociais que obtém do grupo de pessoas que ele conhece e/ou da mídia.

Uma boa forma de evitar esse comportamento problemático (de comprar em exagero supérfulos e sentir-se mal por isso) está em descobrir do que a pessoa de fato se sente privada. Por exemplo, alguns compram em demasia porque se sente tristes, ou para obter status porque se sentem inferiores, ou para obter atenção de alguém que gosta, etc. Nesses casos, é de alegria, auto-estima e atenção, respectivamente, que essas pessoas precisam e não propriamente de produtos caros. Descobrir formas de obter isso de forma mais eficaz me parece uma boa solução.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Mas, e o Ciúme?

O ciumento vive em busca de evidencias ou confissões que confirmem suas suspeitas e, por mais negadas ou comprovadamente falsas elas sejam, em alguns casos, para o ciumento, as confissões ou evidencias que não as confirmem podem parecer insuficientemente detalhadas, ou mesmo não fidedignas.



Mas o que significa dizer que alguém está com Ciúmes?

Dizer que alguém está com ciúmes é o mesmo que dizer que esta pessoa discrimina um ou mais estímulos como sinalizadores da perda de um reforçador outrora disponível, emitindo assim, respostas coercitivas que tem por função evitar a perda deste reforçador. No caso, o amor, atenção, carinho e outras coisas que o parceiro pode disponibilizar.

Dentre estas respostas coercitivas, geralmente vemos os famosos interrogatórios, muitas vezes em tons agressivos; chantagem emocional; verificação de mensagens e ligações do parceiro; pressionar o parceiro em busca de confissões que confirmem suas suspeitas; busca de evidencias através de outros métodos, com a finalidade também de confirmá-las, dentre outras.

Diante de toda essa pressão – estimulação aversiva –, o parceiro muitas vezes acaba cedendo às chantagens; abrindo completamente a sua privacidade ao ciumento; dizendo frases como “eu amo você, jamais te trocaria”, “não se preocupe, você é único (a), não posso te perder”, etc.; acaba também dando mais atenção e carinho ao ciumento naquele momento, ou outras coisas conforme for aprendendo ao longo da relação que fazem com que o ciumento remova a estimulação aversiva; mal sabendo que estas coisas que ele faz podem estar na verdade reforçando o comportamento do ciumento. Em outras palavras, a curto prazo remove a estimulação aversiva, mas, a longo prazo, aumenta a probabilidade dela voltar a ser apresentada.

Mas se não cede pode provocar uma briga ainda maior ou mesmo o fim do relacionamento. E agora? Além do mais, em alguns casos, pode partir para a agressão física ou mesmo homicídio. Nestes casos é indispensável a busca de ajuda profissional; e nos casos de agressão, é necessário tomar as medidas legais adequadas. Diante da eminência da punição (apanhar), o (a) parceiro (a) do ciumento (a) pode deixar de fazer as atividades punidas pelo ciumento, o que acaba por reforçar seu comportamento agressivo.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Crianças aprendendo a falar

Você já assistiu Pocoyo?

Clique aqui para assistir um episódio onde Pocoyo conhece uma lagarta que vira borboleta.


É uma animação espanhola onde um garotinho de aproximadamente 2 anos (a julgar pelo seu repertório de comportamentos de fala) aprende coisas sobre o mundo.

Todos os episódios funcionam por uma mesma fórmula. Um objeto ou criatura ou pessoa aparece e um narrador faz perguntas como: "Você sabe o que é isso, Pocoyo?". A história prossegue quando Pocoyo diz que não e pede para aprender sobre. O narrador explica coisas como: "Isso é uma bola. Serve para chutar. Diga 'bola', Pocoyo".

Mais ou menos aos 2 anos as crianças parecem obcecadas por aprender o nomes de tudo. É quando ainda não consegue articular sentenças como "Pocoyo é um cara legal". No lugar, apenas repetem: "Pocoyo" e sorriem. As unidades funcionais do comportamento verbal das crianças é pequena (como simplesmente dizer "Pocoyo" e sorrir), simplesmente porque ainda não têm repertório para ter unidades funcionais maiores (como "Pocoyo é um cara legal").

Seu repertório verbal consiste basicamente em palavras isoladas. Por isso o mais funcional é repetir nomes. Quando uma criança de 2 anos se machuca, não cria uma sentença como "Eu caí no chão", mas fala um nome como "Dodói".

A medida que aprendemos as unidades funcionais da fala vão ganham tamanho e articulação, gerando não apenas vocabulário e gramática, como a capacidade de se comunicar por fala, escrita, leitura, etc.

Esse é o segredo de animações como Pocoyo: unidades funcionais de fala curtas que servem para ensinar os nomes-funções das coisas. E, claro, muita
fofura. :-)

Domingo, 29 de Março de 2009

Ficção Explanatória

Ontem alguns amigos e eu discutíamos um assunto de vital importância. (De como era possível todos sempre perderem um lado do par de meias apenas, mesmo dentro das gavetas). Chegamos a conclusão de que havia apenas uma explicação lógica: existia uma raça de duendes que morava em gavetas e tinha por esporte roubaer meias das pessoas.


COmo mais explicar a incrível coincidênia de todos sempre perderem apenas um lado da meia nas próprias gavetas?

Hehehe

Piadinhas a parte, esse foi um perfeito exemplo de ficção explanató
ria. Trata-se de uma invenção que não tem base em fatos, usada para explicar eventos, e que costuma ser difícil de ser checada. Por exemplo, posso inventar que os duendes são invisíveis e não adianta tentar capturar um, porque usam de sua magia para fugir.

Muitas vezes quando estamos diante da tarefa de analisar o com
portamento humano, nos vemos diante da tentação de explicá-lo com ficções. Por exemplo, quando dizemos que rolou uma energia que motivou alguém a correr, ou que fulano tem um gênio forte, ou que o acaso explica porque agimos como agimos, ou que a mente prega peças, ou que mistérios do inconscientes determinam nossa conduta, etc.

Energia, gênio, acaso, mente, inconsciente... Todas essas são entidades fictícias das quais falamos como se fossem reais para explicar o comportamento.



A ficção explanatória acaba sendo um ato de preguiça, pois nos damos por satisfeitos com essa pseudo-explicação e paramos de investigar.

Afinal, se a existência dos duendes ladrões de meias explica tão bem porque as meias somem, por que diabos eu iria a fundo na questão? (Talvez para não descobrir que as meias somem porque as pessoas costumam agir de forma descuidada e não colocá-las no lugar e posição correta nas gavetas).

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

7 Níveis de Mentalismo

Mentalismo é a crença de que 1) a mente existe e 2) ela causa os comportamentos. A grosso modo, o mentalismo é o oposto do Comportamentalismo, que diz que a mente é apenas uma metáfora, uma maneira coloquial de se referir a certos comportamentos (como o de pensar).

Há diferentes níveis com o mentalismo. Desenvolvi a seguinte escala com o objetivo de expressar as formas como essa forma de pensar compromete nossa análise do comportamento humano. A escala vai de 0 (ausência completa de mentalismo) até 6 (afirmação do mentalismo como centro da filosofia).


0 – Apenas um Comportamentalista está inteiramente livre do Mentalismo. E ainda assim apenas em algumas situações especiais, como quando escreve artigos científicos ou quando faz um seminário em um evento.

1- O nível coloquial-verbal, isto é, uso de termos mentalistas na comunicacao cotidiana. Até comportamentalistas nao conseguem evitar. O que dizer, então, de quem não tem conhecimento sobre Ciência do Comportamento. Ex: "É isso que eu tenho em mente", “Estou com a mente confusa”, “Você tem uma mente brilhante”, etc..OBS: Quem costuma falar dessa forma não necessariamente crê na existencia de uma mente.

2 – Trata-se do mentalismo restritivista de James Watson: presume que a mente exista e que explica certos comportamentos, mas também crê que é melhor não falar nela por ser incognoscivel. O nível 2 da escala equivale ao agnosticismo religioso: “Não sei e nem quero saber se a mente de fato existe. Me abstenho desse debate”.

3- O primeiro nível assumido de mentalismo. As pessoas que têm mentalismo nível 3 acreditam que há uma mente que nasce de processos biológicos, especialmente no cérebro. OBS: Alguns aceitam que o cérebro interage com o ambiente socio-histórico do indivíduo para estruturar a mente. Outros, nem tanto. A mente é entendida como uma entidade que interage com o corpo, formando um conjunto de união misteriosa (Corpo-Mente). Ex: Cognistivismo, Psicanálise.

4- O nível do “Eu sou minha mente”. Além de existir, a mente é vista como uma entidade superior ao corpo, isto é, um eu-gerador autônomo que usa o corpo como veículo. Neste nível “mente” se torna sinônimo de Alma ou Espirito. Ex: Formas populares de esoterismo; religiões como o kardecismo; etc.

5- Solipsismo: apenas a mente do indivíduo é real. Seu corpo é visto como uma ilusão. "Eu como individuo sou o criador da realidade por meio de minha mente". Ex: Formas extremadas de relativismo cultural, como a obra de Julia Kristeva e outros filósofos pos-modernos.

6- Solipsisimo teologico/mistico:. A identificação da mente com Deus, e não apenas do corpo mas também de toda matéria como desdobramento ilusório da divindade. "Deus é a Mente Universal, do qual tudo mais é apenas um reflexo fosco". Ex: Spinoza; e, dizem uns, Carl Jung.OBS: Piaget declarou que estudava Biologia para "entender os pensamentos de Deus" e Albert Einstein, que era amigo de Piaget, declarou o mesmo quanto a Matematica.



Domingo, 22 de Março de 2009

Tríplice Contingência

Por Ítalo Sobrinho e Rodrigo N. Xavier

Quando o Ítalo escreve, seus artigos precisam passar por uma revisão ortográfica até porque português nunca foi o forte dele. Aí ele passa o texto pra um amigo corrigir, o Helder, que é estudante de Jornalismo. Só que quando ele foi passar seu primeiro artigo, o Helder viu "SD", "R", "Sr+" e não entendeu nada - não só ele como muitas outras pessoas. Então o Ítalo resolveu escrever algo falando sobre Tríplice de Contingência, que é exatamente sobre isso que seu amigo e os outros estão em duvida. A Tríplice de Contingência resumidamente falando seria decompor episódios comportamentais, mas o que seria isso de decompor episódios comportamentais? Seria exatamente o S ----->R---->S, onde o primeiro S seria a oportunidade para a emissãoda resposta, R seria a própria resposta e o segundo S seria a conseqüência, que pode ser reforçadora positiva (Sr+), reforçadora negativa (Sr-), punitiva positiva (P+) e punição negativa (P-).
SD seria o estímulo discriminativo, ou seja, alguma estímulo do ambiente que no passado estava presente quando a resposta foi emitida e reforçada e que adquiriu a propriedade de aumentar a probabilidade de ocorrência desta mesma resposta. Quando um estímulo não é o responsável pela emissão da resposta, o chamamos de SΔ, ou seja, este estímulo não sinaliza a presença de um reforçador. Quero deixar claro que um estímulo discriminativo não é necessariamente um lugar, mas uma pessoa também pode ser SD para a emissão de uma resposta.
“R” seria a resposta em si, é o que fazemos e que tem maior ou menor probabilidade de acontecer de acordo com os estímulos antecedentes ou conseqüentes, como dirigir um carro. Mas isso vale também para comportamentos encobertos como, pensar em tomar sorvete.
O segundo “S” seria a conseqüência produzida por determinada resposta. Se for uma conseqüência reforçadora, positiva ou negativa, é reponsavel para que a resposta seja mantida. Um Sr+ aquela conseqüência em que há a adição de um estímulo que mantém a emissão da resposta, por exemplo, “Eu trabalho (resposta) e ganho dinheiro (reforço positivo), e o dinheiro que ganho me mantém trabalhando”. Um Sr- seria caracterizado pela remoção de um estímulo que também manteria a emissão da resposta, , por exemplo, “Eu escovo os dentes (resposta) e evito o aparecimento de cáries (reforço negativo), por isso continuo escovando os dentes”.Eu me recordo de um exemplo de tríplice contingência dado por minha professora deu para que nós estudantes entendêssemos como funciona tudo isso. Quando uma mulher que me atrai está no meu quarto (SD), começa a tirar a roupa (R) e recebe vários elogios (Sr+), saberei que meus elogios foram reforçadores se ela continuar a tirar a roupa. Por outro lado, se uma mulher no meio da rua (SΔ) começa a tirar a roupa (R) ela provavelmente vai ser presa (P+) e o comportamento dela tende a diminuir a probabilidade de acontecer novamente.
Quando vamos a um terapeuta analítico-comportamental, ele faz exatamente isso: quer saber porque determinados comportamentos continuam a acontecer e outros não. Chamamos de análise funcional o processo em que se ele usa a tríplice de contingência para descobrir em que situação determinada ocorre e com quais conseqüências mantenedoras. Muitas pessoas procuram um terapeuta para tentar diminuir determinados comportamentos, como a baixa auto-estima, e para aumentar outros como falar em público. O terapeuta vai procurar as relações de dependência entre eventos para tentar encontrar reforçadores que estejam disponíveis no ambiente do cliente e que possam servir para aumentar a freqüência de uma resposta desejável e salientar a punição que determinada resposta indesejável traria, afim de diminuir as respostas indesejáveis de freqüência.
Adaptado de:
http://reforcadopositivamente.blogspot.com/2009/03/triplicecontingencia.html

Sábado, 21 de Março de 2009

O Enigma de Kaspar Hauser


É possível alguém viver toda sua vida sem aprender nada e nem ter contato com nenhum outro ser humano?

Talvez...

Há um caso real muito curioso, ocorrido na Alemanha do século XIX. Um rapaz de 1 5 anos foi deixado numa vilarejo e encontrado por estranhos. Descobriu-se que ele nunca havia visto nenhum outro ser humano e nunca tivera nenhum tipo de instrução. Na verdade, viveu toda sua vida, desde bebê (com que idade?), em uma cela. Não sabia falar, e mal conseguia ficar em pé pois nunca aprendera a andar. Durante toda sua vida fora escondido do mundo por algum motivo misterio
so.

Kaspar Hauser, nome que lhe foi atribuído, tinha um repertório de comportamentos sociais nulo. Contudo, após alguns anos de educação ele aprendeu a se comunicar e pôde levar uma vida "quase normal" (na verdade, como uma espécie de curiosidade de circo), até o dia que foi misteriosamente morto.

Se Kaspar Hauser nunca aprendeu nada, isso quer dizer que ele nunca se sociabilizou, não tendo também a noção de self, isto é, que ele era um indivíduo. Curiosamente Hauser não era capaz de discernir entre sonho e realidade, mesmo quando aprendeu a falar. Era como se a ausência do controle social também não o permitisse controlar seus próprios comportamentos encobertos (sonhos, pensamentos, sentimentos, etc).

Esse é mesmo um estudo de caso fascinante para se refletir sobre o papel do controle social na formação do indivíduo, desde sua linguagem até sua consciência de si mesmo.

Mais sobre a história aqui neste link.

Foi feito um excelente filme alemão sobre Kaspar Hauser. Clique aqui para ler sobre ele. 

Aqui você pode conferir um interessante estudo científico a respeito.

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

Sinuca, um jogo behaviorista.

Por Ítalo Sobrinho e Rodrigo N. Xavier
Saindo da aula com uns amigos, geralmente vamos a um barzinho chamado Hangar 18 onde também jogamos sinuca. Vamos lá para passar o tempo, mas certo dia, em uma dessas idas a este bar, no momento em que estava jogando parei e sentei um pouco. Comecei a perceber como a sinuca é um jogo completamente Behaviorista. A partir daí analisei o jogo com um olhar comportamentalista.
O objetivo principal do jogo é acertar todas as bolas que são designadas a você em algum dos seis buracos que a mesa possui: esta é a regra do jogo. Toda tacada é uma resposta (R) que produz o estímulo “bolas em uma nova posição”, e o reforço (Sr+) do comportamento é o estímulo “bola encaçapada”. Isso sem falar que quando melhoramos a posição das bolas, podemos produzir um estímulo discriminativo (Sd) para a próxima resposta ser reforçada. As formas de jogar são uma maneira muito interessante para se estudar modelagem e modelação.
1º. Quando começamos a jogar nem sempre sabemos como segurar o taco, bater no local certo da bola, dosar a força que colocada, etc. Alguns dos nossos movimentos são selecionados pelo reforço e com o tempo outros entram em extinção, isto seria modelagem. A modelagem é um processo em que se altera o comportamento de acordo com uma classe operante alvo pela seleção de certas respostas por reforço diferencial de aproximações sucessivas. Ou seja, alguns comportamentos são reforçados e outros não. Os comportamentos reforçados são os que chegam mais próximos do objetivo final, que é encaçapar a bola. Mas algumas tacadas são reforçadas mesmo sem encaçapar, como quando se chega o mais próximo possível ou quando “quase” se acerta a bola em um dos buracos. Aí o comportamento pode ser reforçado com algum elogio do tipo “Quase conseguiu” ou “Você é muito bom” – o que pode ser feito pelos amigos ou até pela própria pessoa. Até que nossos comportamentos são completamente refinados e aprendemos a jogar da maneira correta.
2º. Modelagem não é a única forma de conseguir chegar a este objetivo, existe outra forma que se chama modelação. Você observa um bom jogador e ele produz certos movimentos, como quando a bola está perto de cair e o modelo – a pessoa que você observa – dá uma tacada fraca para que não caiam as duas bolas no buraco. Você pode imitar este tipo de movimento em uma situação semelhante e evitar que seu adversário derrube uma bola dele e fique mais perto da vitória. Então, pela observação de um modelo podemos modificar nosso responder para jogar melhor e ganhar o jogo.
Também existem estratégias no jogo, como por exemplo você conseguir dar uma tacada (R), conseguir derrubar a bola (Sr+); deixar uma bola num local mais apropriado para a próxima tacada (Sd), dar outra tacada (R) e encaçapar outra bola (Sr+).É um jogo muito complexo e que exige muito treino. Até hoje não consegui modelar minhas classes de respostas pra ser chamado de “um bom jogador”, não jogo sinuca muito bem, apesar de ser um ótimo passatempo.

Domingo, 15 de Março de 2009

controle da BU-UFSC

Sexta-feira descobri que estava com a devolução de um livro da Biblioteca Universitária (BU, da UFSC), atrasada.

Aquilo me conferia a punitiva multa de R$ 1,00. Fui
na BU devolver o livro, chateado com a multa, e pra minha surpresa a atendente me diz: "Na verdade você não precisa pagar. Apenas quando a multa acumular a R$ 10,00".



O sistema, que me surpreendeu pela engenhosidade, é o seguinte:


1) toda vez que você atrasa você recebe um e-mail avisando


2) você recebe a punição de R$ 1,00 por dia de atraso e por livro

3) no momento que você acumular R$ 10,00 precisa de fato pagar


MAS, disse a balconista, na prática a maioria das pessoas recebe 1 ou 2 avisos e vai correndo devolver o livro e NUNCA MAIS atrasa a devolução, temendo que acumule-se a temível taxa de multa de R$10,00, quando finalmente ela precisa ser paga (E se não for, você tem sua conta na BU suspensa).


Na prática, o número de suspensão de contas é irrisório, o que mostra como os avisos inofensivos de "Você deve R$1,00" já funcionam para incentivar o pagamento.


Em termos de Análise do Comportamento podemos dizer que o comportamento de pagar a dívida está associado a esquiva da multa. Ocorre que um esquema de reforçamento do tipo freqüência variável está agindo: "No dia que eu completar 10 erros, serei punido". É mais fácil se esquivar de uma punição que vem dessa forma intermitente. Esse reforçamento de freqüência variável incentiva a prudência: "Melhor eu cuidar, pois se um dia eu tiver que pagar, será 10 e não 1 real".


E esse é o segredo da eficiência do sistema de cobrança da BU-UFSC.
Parabéns a instituição! :-)

Domingo, 8 de Março de 2009

Personalidades Múltiplas


Segundo a Psiquiatria (ao menos os psiquiatras fortemente influenciados pela Psicanálise) existe uma entidade nosológica chamado "Transtorno da Personalidade Múltipla". O portador desenvolve diferentes personalidades, sendo cada uma independente da outra ao ponto de quando uma estar ativa o portador não lembrar ou mesmo não saber da existência de outras.

De uns tempos pra cá o transtorno mudou de nome para "Transtorno Dissociativo e de Identidade". Ou seja, uma doença que faria o enfermo dissociar sua noção de self, passando a se ver como outra coisa distinta de si mesmo.

O caso mais famoso até hoje é o de Sybil, uma mulher que teria dezenas de personalidades contidas dentro de sua mente.

Inclusive saiu um ótimo filme sobre o caso, com Sally Field, em 1976.




Na capa do filme vê-se Sybil no centro de um labirinto, perdida, cercada por suas personalidades alternativas. O fato é que sempre que Sybil se vê em uma situação de ansiedade, uma de suas personalidades é acionada para resolver o problema por ela. Assim, por exemplo, como Sybil é medrosa, quando precisa de coragem, aciona Meggy, que é uma menina valente. Suas personalidades são como egos auxiliares que estão ali, em algum lugar, para quando ela precisar. (Um psicanalista diria que suas personalidades alternativas são mecanismos de defesa um tanto
problemáticos, mal estruturados).

É essa versão da história que o livro e o filme passam.

Agora eu gostaria de passar outra versão: a comportamental.

Antes de mais nada, o próprio conceito de "personalidade" é relativizado pela Análise do Comportamento. Ao invés de Sybil ter diversos fragmentos de ego dispersos em sua consciência, ela no máximo teria diversos comportamentos não organizados no repertório.

Não há nada como entidades metafísicas controlando Sybil de dentro de sua cabeça: trata-se de conjuntos de comportamentos que são acionados em determinadas circunstâncias. Por exemplo, quando Sybil precisa agir com coragem, ela não está
acionando um ego chamado Meggy: ela está emitindo comportamentos que metaforicamente, em seu delírio, identifica e nomeia como sendo outra pessoa.


Quando sofre, Sybil "chama" egos auxiliares para resolver seus problemas. Ou seria ela mesmo agindo, sem auto-percepção?



Agora vem o ponto: por que Sybil não consegue entender esses conjuntos de comportamentos como parte de seu repertório, preferindo vê-los como uma entidade além de si mesma?

Haveria duas explicações possíveis:

1) Seu repertório de comportamentos, por algum motivo, é tão desorganizado e conflitivo que Sybil não consegue discriminar e generalizar, classificando-os em um todo integrado. Em outras palavras, ela não aprendeu a ter uma noção de self. O motivo alegado: uma forte experiência traumática sobre sua própria identidade, na infância, que teria forçado-a a manter os "amigos imaginários" que normalmente somem quando a criança passa de certa idade.

2) Na verdade Sybil conseguiria sim discernir que suas personalidades alternativas são mesmo comportamentos delas. Porém pelo reforçamento social dos que aceitam seu delírio como real e interessante, ela aprendeu que seria melhor negócio declarar publicamente que tem diferentes egos dentro de si. Assim, por exemplo, Sybil sabe que quando é agressiva não é Meggy quem assume o controle, mas é ela mesma, Sybil, que está agindo; porém também sabe que é melhor negócio alegar que é Meggy quem quebrou o vaso...

Seja como for, a existência do Transtorno Dissociativo e de Identidade não é um fato insofismável. Não dá para "entrar na cabeça" na cabeça do suposto portador e com 100% de certeza dizer se ele tem mesmo múltiplas personalidades ou se apenas está tendo um delírio "comum" com um nome diferente.

Porém, de uma ou de outra, uma coisa sabemos com certeza, pela Análise do Comportamento: as "personalidades" (isto é, sub-conjuntos de comportamentos) só são acionadas em contingências apropriadas, o que reforça a tese de que se trata de um caso mórbido de controle de estímulos acompanhado de uma péssima noção de self.

Sábado, 7 de Março de 2009

Como refinar habilidades?

Para refinar uma habilidade, nada como ser reforçado positivamente exatamente no instante que algum sinal de melhoria aparece.

Isto é, ao invés de recompensar tempos depois da melhoria, recompensar no momento exato em que a melhoria dá as caras.


Um exemplo clássicos: aplausos em um show ao vivo. No momento que os artistas realizam algo impressionante, a platéia recompensa imediatamente. Pelo princípio da associação por contigüidade, os artistas entendem com clareza o que deve ser feito para agradar a platéia e assim refinam sua performance.



Clique aqui para ver aplicação do reforço diferencial para refinamento de habilidades em um show ao vivo do Pearl Jam!

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Semelhanças entre o laboratório e o Cotidiano: Modelagem de respostas inadequadas.

Observando estes dias uma prática de laboratório na faculdade onde os alunos modelavam a Resposta de Pressão a Barra no ratinho, vi um tipo de contingência que se repete com muita frequência na vida cotidiana:

Por impaciência, modelamos respostas inadequadas. Incompatíveis à resposta final esperada.


Na figura: Homer Simpson bebendo quando deveria estar trabalhando. A título de exemplo, imagine que um dia em que ele chegou atrasado no trabalho, o patrão dele não falou nada ou disse algo como "tá tudo bem, pode começar a trabalhar"


No laboratório, foi assim: O procedimento de modelagem de RPB ainda não havia sido completado, logo, o ratinho ainda não havia passado pelo processo onde as respostas incompatíveis a RPB são extintas e as compatíveis aumentam de frequência. Dentre estas respostas incompativeis, estão as que afastam o rato da barra que ele deve pressionar; como por exemplo, andar pela caixa, farejar longe da barra, etc.

Uma aluna que não havia participado da aula teórica e, segundo ela mesma, também não havia lido o procedimento da modelagem; não tinha compreendido direito que somente as respostas que se aproximam da resposta esperada (RPB) devem ser reforçadas. Ou melhor, que toda resposta que é consequênciada com água, aumenta de frequência; e que se ela consequênciasse outras que são incompatíveis à RPB, estas respostas incompatíveis aumentariam de frequência, prejudicando a modelagem da RPB.

As vezes, quando o ratinho anda pela caixa, ele fica farejando, erguendo-se, as vezes deita, demorando um pouco a voltar pra perto da barra. Isso gerou frustração nessa aluna que pretendia modelar a RPB. Diante da frustração, a aluna deu água para o ratinho em um momento em que ele estava distante da barra na tentativa de fazê-lo se reaproximar. Quando a aluna deu água, ele foi correndo pro bebedouro; reforçando esta classe de respostas da aluna: "dar água", quando o ratinho se afasta. O que a aluna não sabia, é que ela também estava reforçando respostas do ratinho. Respostas incompatíveis com a RPB.

Após beber a água, o ratinho farejou um pouco perto do bebedouro; levantou-se próximo a barra; farejou de novo lá por perto e, finalmente, afastou-se novamente do bebedouro.

Depois de um tempo que ele estava longe, ela novamente deu água pra ele. Ele foi, bebeu a água, e afastou-se novamente. Desta vez, ele afastou-se um pouco mais rápido do que da primeira vez.

Novamente o mesmo processo se repetiu. Novamente o ratinho afastou-se um pouco mais rápido.

Assim sucessivamente até que ele mal terminava de beber a água, já saia pro outro lado da caixa.

O que aconteceu?

O mesmo que acontece quando os pais cedem a birra das crianças, por exemplo, o que acaba fazendo com que a criança associe "se eu der birra, então eu ganho o que quero";

O mesmo que acontece quando o aluno esqueceu a data de entregar o trabalho e insiste para o professor deixar entregar na aula seguinte. Ele associa "se eu esquecer e insistir, então ele deixa entregar outro dia".

Quando estamos lidando com Comportamento, são detalhes como estes que podem modelar repertorios totalmente inadequados. A criança que quando dá birra consegue o que quer, mais provavelmente voltará a dar birra do que aquela que não consegue; o aluno que quando sai pra farra, esquecendo de fazer o trabalho, insiste pra entregar em outro dia e o professor deixa, mais provavelmente esquecerá novamente de fazer o trabalho em uma outra ocasião do que aquele que sabe que o professor não deixa.

A modelagem de respostas inadequadas ocorre nos mais diversos contextos. São infinitos os exemplos que podem ser citados.

Interessante como ensinamos o que não queremos ensinar, não é? Queremos fazer com que a criança pare de dar birra; mas na verdade, estamos ensinando ela a dar birra.

Domingo, 1 de Março de 2009

Comportamentos Encobertos

Hoje recebi uma dessas mensagens engraçadinhas por email. Dizia assim: "Sabia que você não pode encostar a língua em todos os dentes?". Eu sabia que sim, mas 2 amigos teimaram que era impossível. Num dado momento, perguntei pra eles: "Vocês estão agora tentando fazer isso?". E eles: "Sim".

O final da mensagem dizia: "Se você tentou você é mesmo um bobo. Óbvio que dá"

Este post não é sobre a
piadinha da mensagem, mas sobre o fato do comportamento "Tocar os dentes com a língua" não poder ter sido observado por mim. Se um de meus amigos tivesse feito isso com a boca aberta, eu teria visto a tentativa dele. Mas isso não ocorreu.

Esse episódio me lembrou a definição de comportamento encoberto.

Trata-se daquele que apenas quem emite pode observar. Ou seja, é inacessível a ou
tros. Dos comportamentos encobertos só podemos ouvir relatos ou rastrear sinais. Um exemplo clássico de comportamento encoberto é o pensamento (este até pode se tornar público em palavras, escrita, etc).


No que será que ela está pensando?


Peça para uma pessoa pensar em uma bola por 10 segundos. Depois pergunte: "Qual a cor da bola que você pensou?". Você precisa perguntar porque não tem acesso ao ver-encoberto, isto é, imaginação do outro. Aliás, nem tem como saber se a pessoa pensou mesmo na bola, a não ser que confie no que ela diz.


Os comportamentos encobertos são alvo de estudo do Analista do Comportamento tanto quanto os públicos (aqueles que são acessíveis a observação direta de todos). Um exemplo: os sonhos.

Sim, behavioristas radicais interpretam sonhos. (E sonham também).

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

De onde vêm nossos DESEJOS?

Desejamos aquilo que reforça nosso bem-estar e de que nos sentimos privados.

Essa é a fórmula comportamental da origem do desejo. Entender nossos desejos significa entender, portanto, nossas incompletudes.

Pensando nisso, analise esse incrível fotolog: "Before I Die I Want To".

Trata-se de uma série de fotos, do tipo polaróid instantânea, de pessoas pêgas meio de surpresa. Em seguida o fotógrafo lhes pede: "Complete a frase: 'Antes de morrer eu quero...' "

As respostas que as pessoas dão revela o que lhes causa bem-estar, mas principalmente do que se sentem privadas.
Destaque para 2 fotos que me comoveram:"Antes de morrer, eu quero pilotar um carro de corrida""Antes de morrer eu quero ter um filho"

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Aniversário: esquema de tempo fixo


Hoje é meu aniversário.


Vou aproveitar pra falar de esquemas de reforçamento! :-)

Sabe quando você não precisa fazer nada, e de tempos em tempos, coisas boas acontecem? Isso é o aniversário, com a diferença que esse reforço positivo ocorre um mesmo dia do ano, sempre. (O dia que você nasceu).

Diferente do esquema de intervalo fixo, (onde você precisa emitir alguma resposta, uma que seja, em um intervalo para que o reforço apareça), no intervalo de tempo fixo você só precisa esperar.


OBS: O esquema de reforçamento por Intervalo fixo, ou Fixed Interval, por isso a sigla é FI. Tempo fixo, ou Fixed Time, é abreviado como FT.

Um exemplo de FI: se eu reclamar ao menos duas vezes no dia, no final do expediente alguém faz café na empresa. Um exemplo de FT, além do aniversário: Todo segundo domingo de maio eu devo desejar "Feliz dia das mães para a minha".

Enquanto os esquemas FI geram comportamentos de pouca frequência, cuja resposta aumenta de probabilidade de ocorrer perto do prazo limite (no exemplo anterior, perto do final do dia eu tenho mais chances de pedir pra alguém fazer café), os esquemas FT geram comportamentos praticamente sem reforçamento, já que não precisavamos efetivamente fazer nada.

A não ser, claro, que se você quiser uma festa de aniversário bem bacana você precisa ser um bom menino e cultivar muitas amizades o resto do ano inteiro.