08 março 2009

Personalidades Múltiplas



Segundo a Psiquiatria (ao menos os psiquiatras fortemente influenciados pela Psicanálise) existe uma entidade nosológica chamado "Transtorno da Personalidade Múltipla". O portador desenvolve diferentes personalidades, sendo cada uma independente da outra ao ponto de quando uma estar ativa o portador não lembrar ou mesmo não saber da existência de outras.
De uns tempos pra cá o transtorno mudou de nome para "Transtorno Dissociativo e de Identidade". Ou seja, uma doença que faria o enfermo dissociar sua noção de self, passando a se ver como outra coisa distinta de si mesmo.

O caso mais famoso até hoje é o de
Sybil, uma mulher que teria dezenas de personalidades contidas dentro de sua mente.

Inclusive saiu um ótimo
filme sobre o caso, com Sally Field, em 1976.


Na capa do filme vê-se Sybil no centro de um labirinto, perdida, cercada por suas personalidades alternativas. O fato é que sempre que Sybil se vê em uma situação de ansiedade, uma de suas personalidades é acionada para resolver o problema por ela. Assim, por exemplo, como Sybil é medrosa, quando precisa de coragem, aciona Meggy, que é uma menina valente. Suas personalidades são como egos auxiliares que estão ali, em algum lugar, para quando ela precisar. (Um psicanalista diria que suas personalidades alternativas são
mecanismos de defesa um tanto problemáticos, mal estruturados).

É essa versão da história que o livro e o filme passam.

Agora eu gostaria de passar outra versão: a
comportamental.
Antes de mais nada, o próprio conceito de "personalidade" é relativizado pela Análise do Comportamento. Ao invés de Sybil ter diversos fragmentos de ego dispersos em sua consciência, ela no máximo teria diversos comportamentos não organizados no repertório.

Não há nada como entidades metafísicas controlando Sybil de dentro de sua cabeça: trata-se de conjuntos de comportamentos que são acionados em determinadas circunstâncias. Por exemplo, quando Sybil precisa agir com coragem, ela não está acionando um ego chamado Meggy: ela está emitindo comportamentos que metaforicamente, em seu delírio, identifica e nomeia como sendo outra pessoa.

Quando sofre, Sybil "chama" egos auxiliares para resolver seus problemas. Ou seria ela mesmo agindo, sem auto-percepção?






Agora vem o ponto: por que Sybil não consegue entender esses conjuntos de comportamentos como parte de seu repertório, preferindo vê-los como uma entidade além de si mesma?

Haveria duas explicações possíveis:

1) Seu repertório de comportamentos, por algum motivo, é tão desorganizado e conflitivo que Sybil não consegue discriminar e generalizar, classificando-os em um todo integrado. Em outras palavras, ela não aprendeu a ter uma noção de self. O motivo alegado: uma forte experiência traumática sobre sua própria identidade, na infância, que teria forçado-a a manter os "amigos imaginários" que normalmente somem quando a criança passa de certa idade.

2) Na verdade Sybil conseguiria sim discernir que suas personalidades alternativas são mesmo comportamentos delas. Porém pelo reforçamento social dos que aceitam seu delírio como real e interessante, ela aprendeu que seria melhor negócio declarar publicamente que tem diferentes egos dentro de si. Assim, por exemplo, Sybil sabe que quando é agressiva não é Meggy quem assume o controle, mas é ela mesma, Sybil, que está agindo; porém também sabe que é melhor negócio alegar que é Meggy quem quebrou o vaso...

Seja como for, a existência do Transtorno Dissociativo e de Identidade não é um fato insofismável. Não dá para "entrar na cabeça" na cabeça do suposto portador e com 100% de certeza dizer se ele tem mesmo múltiplas personalidades ou se apenas está tendo um delírio "comum" com um nome diferente.

Porém, de uma ou de outra, uma coisa sabemos com certeza, pela Análise do Comportamento: as "personalidades" (isto é, sub-conjuntos de comportamentos) só são acionadas em contingências apropriadas, o que reforça a tese de que se trata de um caso mórbido de
controle de estímulos acompanhado de uma péssima noção de self.

3 comentários:

psicologa E.S.G. disse...

Amei sua clareza, muitas vezes a psicanalise complica muito o que já esta confuso. Embora eu discorde com algumas de suas colocações, nessa voce foi (10).
Beijocas no seu coração.

kelvisrodrigo disse...

Olá galera beheca;
Alessandro querido adorei esse post, como bem sabemos não da mesmo para entrar na cabeça de ninguém e saber se há realmente homenzinhos operando lá dentro, não acredito muito nessa possibilidade, por isso prefiro o olhar behaviorista radical. Bom, é bastante funcional pra Sybil onde ela evita ser punida pelo que cometeu e ainda é “acolhida” por ser a “esquisitinha”, reforçamento negativo é bem evidente ai.
abraços

Hatarashe disse...

olha só, eu nem sabia que tinha uma versão de 1976! muito obrigado, belo post!