24 julho 2009

Teoria Comportamental da Personalidade (3)

A Visão Comportamental da Personalidade

Para um comportamentalista, qualquer explicação baseada em causas internas e metafisicas para os comportamentos é classificável como ficção explanatória. Ou seja, na falta de uma explicação rica, inventa-se (ficção) uma entidade que causa (explica), misteriosamente, os comportamentos. Assim, ao dizermos: “João agiu assim porque tem um caráter expansivo”, inventa-se uma entidade chamada “caráter expansivo” que, por si só, acontextualmente, explica porque João age como age.


Uma não tão profunda análise histórica e ambiental de João iria descobrir que há explicações mais eficientes para suas ações que pressupor a existência de uma não-verificável “estrutura de personalidade”. Essa, por sua vez, pode ser classicamente definida como um conjunto mais ou menos organizado de “traços de caráter” (em geral associados com aprendizados vivenciais) unidos a um temperamento (tido como elemento inato da personalidade).

Assim, mentalisticamente, temos:

  1. A personalidade é uma estrutura interna não-verificável diretamente que causa comportamentos
  2. Ela tem 2 naturezas: inata (temperamento) e adquirida (caráter, ou estrutura de caráter)


Dizer que Pedro sorri (comportamento) porque é alegre (temperamento) e um moço bem criado (caráter) é perigoso a medida que mata nossa curiosidade, mas paraliza nossa investigação. Bloqueia, por exemplo, nosso senso crítico para questionamentos como: O que torna Pedro alegre? Ele é sempre alegre? Trata-se de um traço estático de sua pessoa ou um estado frequentemente observado? Pedro pode sorrir sem estar alegre? Ou ficar alegre sem sorrir?



Na visão usual, ou senso comum, o ego é uma entidade que reside dentro de nós. Já para um Comportamentalista, o ego é um sistema de relações da pessoa com o mundo.






Uma Análise Comportamental da personalidade revela que os “traços de caráter” não são estruturas fixas, mas aprendizagens passíveis de mudanças, sejam elas lentas ou rápidas. Por exemplo, a alegria característica de Pedro pode muito bem sumir em dias sobre determinadas circunstâncias (luto, viagem, stress, mudanças no trabalho, etc) e ser substituída por ansiedade ou preocupação. Nesse caso não caberia dizer que um traço foi suprimido ou houve uma “mudança interior em Pedro”, mas apenas uma nova aprendizagem ocorreu, oriunda das relações de Pedro com o mundo.

A personalidade, em termos Comportamentais, é um conjunto de comportamentos que possui alguma coerência e organização. E como comportamentos, só podem ser compreendidos se observarmos com atenção as pessoas em seus contextos de vida.

Assim, se sou costumeiramente cordial e gentil, crio condições para que eu seja identificado como “Um cara gente boa”. Dizer que “Tenho uma boa personalidade” é um erro: na verdade, me comporto costumeiramente de forma cordial e gentil, o que faz os outros, e eu mesmo, inferir que tenho uma boa personalidade.

Por isso é complicado classificar as pessoas como boas ou más: elas são boas a medida que se comportam fazendo o bem, e vice-versa. Da mesma forma, as pessoas não tem “personalidades amorosas”: elas agem com amor. O amor não é uma força que repousa no interior, mas um comportamento, um estilo de inteagir com o mundo.

3 comentários:

Paula Souza - Cindy disse...

Interessante! Mas como fica o fator genético? E os instintos? Qual a posição de vocês em relação a isso?

Cláudio disse...

Estava lendo o blog, relendo alguns posts e pensando...
Até agora não conseguia definir bem o motivo pelo qual não ficava satisfeito com a explicação da Teoria Comportamental para o conceito mais intrigante no estudo da Psicologia, a "mente", mas acho que finalmente consegui definir o problema.
Para a Teoria Comportamental a "mente" nunca é causa para efeito algum, nem mesmo se considerarmos que o cérebro é a mente. Todas as causas são oriundas do ambiente.
Se o cérebro é causa direta de algum efeito, como por exemplo uma doença genética neurológica que causa alteração comportamental, como a Coréia de Huntington, então diz-se que o cérebro - assim como todo o restante do nosso organismo - faz parte do ambiente.
Acredito que os argumentos que se seguem a partir deste ponto é que estão equivocados ou mal explicados.
Fazer parte de um conjunto não é a mesma coisa que ser o conjunto. Meu cérebro é parte integrante do meu corpo, assim como meu corpo é parte integrante do ambiente. Mas meu cérebro, por si só, não é meu corpo. E meu corpo não é o ambiente. Ainda que não seja possível conceber um corpo fora de um ambiente, também é verdade que há uma delimitação clara e evidente entre meu corpo e o ambiente, que a grosso modo é a pele.
Outra coisa é que o cérebro armazena informação, e a informação lá armazenada é mais única que o DNA. Enquanto gêmeos idênticos tenham um mesmo DNA, suas experiências, memórias e padrões de comportamentos, ainda que sejam parecidos, jamais poderão ser os mesmos por diversos motivos, dentre os quais o mais importante talvez seja o de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
A informação que retemos determina nossos reforçadores. Essa informação precisa estar retida em algum lugar material, obviamente o cérebro. Desta forma, o cérebro - cuja própria configuração vai ser resultado dos reforçadores - interfere na expressão comportamental.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

Cláudio,

de fato o papel do cérebro no comportamento foi pouco falado por Skinner.

Esse tema ainda hoje é pouco tocado pelos analistas do compt, afinal, a enfase da abordagem é ontogenetica, e não fisiologica.

Contudo, uma coisa é certa: ninguém é um cérebro flutuando no vácuo. Mesmo uma pessoa com uma evidente doença neurológica irá melhorar ou piorar de acordo com, p.e., contingências emocionais (que dependem de outras pessoas).

Um exemplo: tenho um conhecido que tem dislexia, e os médicos insistem que é algo 'no cérebro'. Ele, poré, sabe que em determinadas circunstâncias (de calma, satisfação, etc) os sintomas somem. O cérebro é o mesmo, mas o contexto, não!