06 junho 2010

Classes de Ordem Superior


Conversando hoje com um amigo, ele se abriu sobre um problema que anda enfrentado. Está bebendo demais, e fazendo bobagens quando alcoolizado. Pediu algum conselho meu para parar de beber.



Eu, como sei que o comportamento humano é bem complexo, não me detive na queixa inicial, achando que o problema é tão somente esse e pronto. Conversando mais com ele, deu para analisar que beber não é seu único problema. Ele também costuma dirigir perigosamente, e ser grosso com pessoas no trabalho.


"De onde será que veio esses comportamentos?", lancei no ar.


E ele, ingenuamente, deu uma resposta matadora: "Acho que do meu pai. Ele fazia tudo isso. Eu herdei dele, né?"



Bingo! Com mais algumas informações dele, a hipótese de mostrou bastante forte. 






Ele provavelmente está imitando o modelo parental que teve (em várias coisas, não apenas no comportamento problemático de beber demais e sair por aí dirigindo mal e sendo grosseiro com os outros). 


Neste caso, a classe de comportamentos "beber demais" não é o verdadeiro problema. Ela é uma das classes que está contida numa classe maior, chamada "imitar o pai".




Em Análise do Comportamento dizemos que "imitar o pai" é uma classe de comportamentos de ordem superior, pois ela contem diversas outras classes incluidas nela. (E quem sabe seja esteja ela mesma contida em outra, superior de segunda ordem!).

Uma das propriedades das classes de ordem superior é a de que suas sub-classes continuarão existindo, mesmo que não reforças diretamente. Um exemplo: de pouco adiantaria tentar extinguir o comportamento "beber demais", pois o que é de fato reforçado é "imitar o pai". 

Eu poderia empregar procedimentos para extinguir "beber demais", mas creio que de pouco adiantariam, visto que os reforçadores reais para esse comportamentos estão em outro contexto (o contexto de "imitar o pai").

Portanto, seria uma questão de trabalhar a classe de comportamentos "imitar o pai", que está se mostrando problemática, inclusive gerando riscos para sua vida.

Perguntei para ele por que, afinal, ele fazia de caso pensado tal imitação.

Sua resposta foi de que achava isso moralmente correto, pois afinal era seu pai, e sentia em débito. Fora isso, o pai era uma pessoa que parecia forte e imbatível, e ele queria isso para si.

"Quem sabe você não precise imitar seu pai para ser forte? Afinal, isso está até te trazendo problemas, certo?".

Pelo visto, esse caso ainda dará muito pano para manga, pois estou tentando convencê-lo a procurar terapia (dados os riscos reais para sua vida).

Muitas vezes nossos repertórios de comportamentos estão organizados de forma que não é muito clara para nós. Ficamos sem clareza do que porque agimos como amigos quando perdemos de vista, p.e., que uma classe de comportamentos pode ser apenas parte de outra classe.

Entender como nosso histórico de vida dispôs nosso repertório de comportamentos é parte de uma boa e necessária análise dos nossos próprios comportamentos.


2 comentários:

Kathy disse...

Alessandro
Este comportamento não poderia ter uma base genética?
Obrigada

Alessandro Vieira dos Reis disse...

Se vc está se referindo ao IMITAR, então sim, há boa base evolutiva para ele.

Se vc está se referindo ao AGIR COMO ALCOOLATRA, de fato, algumas pessoas podem ser mais suscetiveis ao alcool como reforçador que outras (Mas não por isso serão alcoolatras. Isso é contingencial).