14 setembro 2010

Gestalt e Behaviorismo: Semelhanças e Diferenças



Ontem conversando por Gtalk com o leitor Jota, de Lages, ele perguntou sobre Gestalt Terapia. 


Por coincidência estou mesmo lendo um livro sobre! 


Eis aqui então um post onde comento as similaridades e diferenças entre essa modalidade de terapia e o Behaviorismo Radical. Mas, especialmente, mostro a Gestalt sob um olhar comportamental.


Acho que uma boa forma de começar é dizendo que o fundador da Gestalt, Fritz Perls (esse barbudo aí do lado esquerdo), foi um psicanalista influente. Ou seja, Perls parte da noção de inconsciente e das tópicas freudianas. Porém em um dado momento de sua carreira, Perls rompe com a Psicanálise para propôr uma terapia de método diferente.


No início o nome de sua invenção era "Terapia da Concentração", pois Perls acreditava que o paciente precisava prestar melhor atenção aos seus sentimentos, estados físicos, pensamentos, para "fechar uma figura melhor", e fazer uma boa "relação figura-fundo".




OBS: Essa noção de aumentar auto-compreensão para fins de auto-controle é bem afim com a Functional Analytic-Psychotherapy.







Perls explica que nossos dilemas são estímulos complexos, cuja compreensão pode ser ambígua e confundir, como as imagens clássicas da Gestalt onde a figura e o fundo se misturam. Se fizermos uma boa figura-fundo, encontramos um ponto ótimo onde os dilemas se resolvem.




OBS: Opa, nossos dilemas são mal entendidos da percepção equivocada? Conheço um filósofo muito próximo do Behaviorismo que disse algo assim...






 Através da concentração viriam os inisights do paciente, que são o motor da cura, pois eles possibilitam o que Perls mais tarde chamou de "awareness" (dar-se conta de algo). O papel do terapeuta é tão somente facilitar as coisas para que o paciente chegue aos insights resolvedores-de-problemas, para isso usando do método fenomenológico para se isentar de interferências na compreensão do paciente.



Uma taça ou duas pessoas? Depende...




A Gestalt Terapia só ganha contornos mais delimitados em 1951, quando Perls propõe que sua prática é "orientado a experimentos". Isso quer dizer que o terapeuta deve propor experimentos para o paciente fazer, sendo que esses experimentos são qualquer atividade que provoque "awareness", insights. Segundo uma linha que lembra muito o Orientalismo, muitos desses experimentos eram de consciência corporal, envolvendo posturas de relaxamento e respiração, mas também interpretar um sonho ou falar do passado também contavam como experimentos.


Nas palavras de Zinker, aluno de Perls, os experimentos devem 

"expandir o repertório de comportamentos da pessoa, criando condições para que a pessoa possa ver sua vida como sendo de sua própria autoria, e estimular cirscunstâncias onde a pessoa possa se sentir mais competente".


Quem conhece a FAP, uma terapia comportamental moderna, identificou muitos pontos em comum dela com essa noção gestaltica de "experimento". 


Sendo que na FAP as atividades/experimentos servem para "elucidar comportamentos clinincamente relevantes" e incentivar novos comportamentos, mais interessantes, no cliente (O que fecha com a proposta de experimentos, segundo Zinker).

Aliás, a própria noção de tratar a terapia como um "projeto experimental" é bem simpática ao behaviorismo, pois pressupõe a criação de uma terapia para cada cliente, uma vez que cada projeto experimental é único e depende da criatividade do responsável (seja esse projeto experimental uma pesquisa de laboratório ou um processo terapêutico).



Já a idéia do awareness é similar ao "trazer para o consciente" freudiano: o paciente precisa identificar as variáveis das quais seus comportamentos são função (para falar de forma behaviorista). Skinner dizia que todos os nossos comportamentos, e em especial os mais importantes, começam de forma inconsciente. Isto é, fazemos coisas importantes sem saber ao certo porque fazemos. Na terapia, aprendemos a identificar esses porquês e a partir daí controlar essas condições que controlam nossos comportamentos.


Uma grande diferença da Gestalterapia para a terapia comportamental parece estar no fato de que a primeira se propõe a ser não-diretiva, ou o menos diretiva possível. O terapeuta usa o método fenomenológico para suspender suas opiniões e encarar o paciente de forma isenta, pura, sem interpretar e inferir nada.

Ok, ok. Sendo direto: não acredito que o método fenomenológico funcione como diz. É impossível desligar o senso crítico e deixar de inferir, interpretar, achar algo. O que o método fenomenológico parece fazer de bom é ajudar o terapeuta a refletir sobre suas opiniões e com isso evitar preconceitos e outros males. Mas achar que é possível tratar o paciente de forma inteiramente não-diretiva e não-intervencionista é uma ilusão, no meu entendimento, porque o ato da percepção está ligado ao nosso histórico de reforçamentos. Logo, perceber é atentar mediante reforçadores condicionados: nenhuma percepção ocorre num vácuo sem influências.



O que vemos nessa imagem (uma moça ou uma velha) depende
também de nosso histórico de reforçamentos culturais

Como deu para perceber há pontos em comum, vários deles, entre Gestalt Terapia e Terapia Comportamental. Diria que a principal diferença está mesmo na questão da diretividade e do método fenomenológico. Outro ponto em comum que acabou de lembrar: a Gestalt é uma terapia humanista, baseada em filósofos como Heidegger. 


O Behaviorismo, nas palavras de Skinner, também é uma forma de Humanismo, pois humanismo é qualquer filosofia que entenda que o ser humano pode tomar as rédeas de sua vida, de sua existência, e criar-se a si mesmo. E sim, apesar do Behaviorismo questionar a noção ingênua de livre-arbítrio individual, a mensagem behaviorista é clara: o gênero humano pode controlar seu destino, se projetar um mundo melhor para viver.





6 comentários:

Marcos A. Rodrigues Jr disse...

Ontem estava lendo um artigo sobre a critica que Marleu Ponty fez a reflexologia de Pavlov, e em alguns momentos chega até a parecer as criticas que Skinner fez a Psicologia S-R.É claro que ele tem uns conceitos estranhos como a "Intencionalidade"

Vc conhece sobre esse filosofo?
Poderia falar alguma coisa a seu respeito?

Anônimo disse...

muito bom o post!!!Gostei muito das relações traçadas entre as duas abordagens!

abração

J.MACHADO disse...

Reforça o que pensava sobre o tema...
Parabéns pela perspicácia!!

lipidu disse...

como assim o behaviorismo, como o humanismo, acredita que o ser humano pode tomar as rédeas de sua vida, de sua existência, e criar-se a si mesmo? eu li em baum e em skinner que essa liberdade é fictícia, ilusão... que a liberdade não existe. fiquei confuso agora! vc pode explicar melhor?

Alessandro Vieira dos Reis disse...

O que o behaviorismo questiona é a noção ingênua de livre-arbitrio individual.

Algo como "Eu decido tudo na minha vida. Basta eu querer, e farei".

Contudo, Skinner e Baum dizem que o genero humano pode tomar as rédeas de sua existência e, com a ajuda da Ciência, criar um mundo melhor.

Ou seja, se temos o poder de controlar nosso ambiente, temos o poder de mudar nós mesmos.

Uma frase do Skinner que gosto: "Nao tente mudar a si mesmo. Tente mudar seu ambiente".

Marcelo Balthar disse...

Alessandro, venho acompanhando seu blog faz algum tempo e acho muito legais essas comparações que você faz entre a abordagem comportamental e outras da psicologia. Além de muito inteligentes e perspicazes, acredito que sejam também desafiadoras para você, mesmo porque sabemos que há profissionais que as consideram uma blasfêmia. Mas, não fosse o Copérnico arriscar seu pescocinho...
Sobre esta velha polêmica questão da não existência do livre-arbítrio proposta pelo behaviorismo radical, sou taxativo: até para aprendermos a controlar as contingências que controlam o nosso comportamento dependemos delas... sempre elas, as contingências de reforçamento. Ora, será então que o aprendizado de repertórios complexos (que nos levaria a perceber as contigências de controle e como manejá-las) nos tornaria livres? Hummm... ainda acho não.
Um abraço e parabéns pelo excelente blog!