Em um dado momento da carreira, B. F. Skinner chegou a falar de uma "engenharia comportamental":
"Você não pode impor felicidade. Você não pode em última instância, impor coisa alguma. Nós não usamos a força! Tudo que precisamos é engenharia comportamental adequada" (Skinner, em 1948)
Porém, esse termo não pegou.. por quê?
Outro dia já falei aqui sobre como existe uma iniciativa para fazer uma engenharia do conhecimento no mundo das tecnologias digitais. E até comparei a Análise do Comportamento à engenharia de produção.
Mas, apesar dessas comparações, o termo "engenharia comportamental" não pegou. Pelo visto pouca gente levou a sério a possibilidade de engenheirar o comportamento humano, isto é, tratá-lo como objeto de estudo passível de modelos e simulações matemáticas e físicas, e com isso construir artefatos, "tecnologias comportamentais".
Temos que lembrar que antes de Skinner, já se falava em uma engenharia mental. Trata-se de um termo comum na Programação Neuro-Linguística e Hipnose, se expressa algo como projetar pensamentos visando objetivos específicos. Ex: Fazer alguém parar de fumar condicionando náuseas ao cheiro do cigarro.
Mais tarde, algums psicólogos cognitivos pegaram o termo emprestado, e falam até da existência de "psicólogos-engenheiros" (que realizam simulações e outros testes computadorizados para experimentos cognitivos).
Nesse sentido, há até quem fale de uma Engenharia Cognitiva. Mas quem está engenheirando cognições, ora, está lidando com comportamentos, uma vez que cognição é comportamento...
E antes de se falar nessa tal de engenharia mental, ou cognitiva, ainda se falava de "Engenharia Social".
Trata-se de um termo que designa, na Política:
"iniciativas de influência popular, atitudes e comportamento social em larga escala, tanto por governos ou grupos privados. Na arena política a contraparte à engenharia social é a engenharia política" (fonte)
O mesmo termo, Engenharia Social, também pode querer dizer outra coisa, no contexto de Segurança de Informação, usado por hackers e afins:
"práticas utilizadas para obter acesso a informações importantes ou sigilosas em organizações ou sistemas por meio da enganação ou exploração da confiança das pessoas" (fonte)
Ou seja, seria algo como "ter a manha de enganar", "usar de lábia", "manipular sutilmente para obter benefícios".
Bom, pelo visto nenhuma dessas engenharias (comportamental, mental, cognitiva e social) remete a algo bom e de sucesso.
Diria que é por um motivo ético e um técnico.
a) Em termos éticos, pega muito mal falar que vamos tratar gente como engenheiros tratam motores, prédios e circuitos.
b) Em termos técnicos, descobrimos que isso não funciona mesmo: pessoas não são passíveis de determinismo estrito, exato, mas apenas probabilístico (na melhor das hipóteses).
Para ser sincero, não levo a sério nenhuma tentativa hoje de transformar a Análise do Comportamento em algo como uma engenharia. Respondendo a pergunta expressa no título desse post: não acho que um dia vá existir uma engenharia comportamental!
Até a "Applied behavior analysis" (ABA), está longe de ser uma engenharia e, opinião minha, jamais será uma.
Sabem por quê? Acredito que estamos mais próximos do mundo da Computação do que da Engenharia.
Explico.
A Computação, apesar de ser solidamente fundamentada em Lógica e Matemática, está longe de ser uma ciência "exata". Pelo contrário. Ela é mais um exercício linguístico de criação de tecnologias, algoritmos e programas aplicáveis, que demanda muita criatividade, também.
Nós, turma da Análise do Comportamento, temos muito em comum com a turma da Computação. Por exemplo, o conceito de algoritmo e, como mostrei recentemente aqui, o de Análise Funcional.
Quando o Skinner mencionou algo como "engenheiros do comportamento" foi em um contexto (EUA, 1948). Hoje em dia faz muito mais sentido falar do Analista do Comportamento, de forma análoga aos profissionais da Computação, como um programador de contingências.
Nós não engenheiramos o comportamento. Isso é um mito. Na melhor das hipóteses, criamos ("programamos", arranjamos, etc) contingências bem pensadas, visando objetivos em termos de comportamentos consequentes. É assim em todas as áreas: Clínca, Organizacional, Escolar, Desenvolvimento de Produtos, etc.
OBS: Aliás, esse termo não é invenção minha. Clique aqui e veja um artigo que fala de programação de contingências em ensino escolar.
Ser Analista do Comportamento é apenas o começo: bom mesmo é fazer o salto desse estágio teórico-analítico para outro, que engloba e supera esse: um sintético-prático que chamei aqui de "programadores de contingências". Boa sorte para quem tentar esse salto!


2 comentários:
Acho que o que está impedindo nossa ciência de crescer é ainda ser ensinada no curso de psicologia, o que obriga ela a ser resumida e precária até se chegar no mestrado.
Que é o único caminho pra se aprender A.C. de verdade.
Hey - I am really glad to discover this. Good job!
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