segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Calvin e os Tatos e Mandos Disfarçados





Hoje começo com uma tirinha de Calvin:














Aquilo que Calvin diz no primeiro quadrinho parece ter 3 partes:


1. "Eu estou de péssimo humor!" - um tato sobre o que sente naquele momento


2. "Me deixem em paz!" - um mando (que aumentou a tônica emocional da fala irada, especificando que não apenas ele se sente mal, como parece querer que todos se afastem... Veremos, contudo, que não é bem assim).


3. "Eu odeio todo mundo!" - outro tato, que faz coro com o primeiro, e reforça a mensagem temática de sentimentos desagradáveis aliados a "me deixem em paz"


Mas conforme o próprio Calvin diz, tudo isso (as 3 sentenças juntas), na verdade devem exercer um único efeito. Estariam funcionando, para Calvin, como uma "deixa para receber carinho sufocante".


Não vamos analisá-las estruturalmente, isto é, a nível sintático. Nosso interesse como analistas do comportamento é com a semântica e  pragmática das sentenças: o foco não é estrutural, mas funcional (Como as sentenças funcionam enquanto comportamentos).

Pensando funcionalmente, as 3 sentenças somadas devem ser tratadas como um único episódio verbal cujo efeito deveria ser  obter um reforço positivo generalizado (atenção). No caso, um tipo peculiarmente afetivo de atenção: carinho. E carinho discriminado como "sufocante" (tato metafórico para a grande intensidade da experiência íntima). 


Ou seja, até mesmo aquele suposto mando "Me deixem em paz", no contexto do episódio, significa algo como "Se aproxime de mim". E os dois tatos que parecem dizer "Estou péssimo" é um mando disfarçado. Algo como "Me ajude".




Importante


Se você quiser ser um bom analista, aprenda a identificar tatos e mandos impuros, disfarçados na fala e nos textos das pessoas; e efeitos "ocultos" de episódios verbais.




Contudo, o efeito esperado não foi obtido: Calvin sente-se frustrado e triste por esse operante verbal não ter obtido reforço (sofrendo assim algum nível de extinção). Note, contudo, que Calvin parecia com raiva no primeiro quadrinho, e no último, parece triste. A extinção decorrente não aumentou sua raiva, mas sim sua tristeza, o que sugere que o sentimento prevalecente no início do quadrinho era a tristeza. Calvin estava "mal humorado" no sentido de estar mais triste que raivoso.


Aliás, isso sinaliza uma falta de habilidades sociais de Calvin: para obter carinho, havia formas mais positivamente reforçadoras que essa, como pedir (mando verbal) ou dar carinho ele mesmo e obter retribuição (modelação).
A última frase de Calvin é reveladora sobre essa extinção: "Mas ninguém entende". Isso indica que ele, persistentemente, já fez episódios verbais parecidos (usou respostas parecidas com as do primeior quadrinho em situações parecidas), e vez após vez, com diferentes pessoas, não obteve reforço. Então por que Calvin persiste tentando?


Em termos técnicos de behaviorista, esse classe de operantes de Calvin é, por fatores de sua história de reforço, resistente a extinção. Em termos populares, Calvin é um menino teimoso.


Aliás, uma verdadeira peste !!

1 comentários:

hhh disse...

Pensando sobre o caso (que aliás ajudam muito em minha formação) penso em algumas situações:

Ele já sabe do que sente falta, atenção. E como seria isso numa pessoa que faz isso e não sabe deste sentimento ?

(Tá ai uma coisa dificil, é como uma introspecção ao contrário, seria essa a capacidade de observar estes "mandos impuros" ? Perceber estas necessidades "escondidas" )

Ele sendo criança, querendo atenção, o que "deveria fazer" ? (Penso que não deveria fazer nada pois numa situação "normal" seus pais o amariam e o dariam atenção o suficiente, porém, comumente, crianças fazem isso por falta dos mesmos.....então que fazer ?)


=)

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