Achei esse o primeiro capítulo realmente difícil de entender do livro, até porque é bem extenso, mas também porque fala de um assunto pra lá de de complicado : como ocorre a compreensão do comportamento verbal na relação ouvinte-falante, e como ela é determinada por operantes verbais antecedentes. Em termos leigos: como as pessoas se entendem e como sutilezas da linguagem mudam isso.
Mas antes de falar do que é a compreensão, Skinner investe muitas páginas falando do que é a tal da "estimulação suplementar". Trata-se do efeito de operantes verbais que determinam respostas do ouvinte. O efeito que eles geram são de dois tipos:
a) formal (diz respeito a aspectos estruturais do estímulo verbal, como a sonoridade, a grafia, a carga emocional da entonação da fala, etc)
b) temático (diz respeito a assuntos, significados, conteúdos, associações por semelhança)
Estamos o tempo inteiro em episódios verbais com os outros e com nós mesmos sugerindo temas sobre os quais queremos falar ou em que palavras estamos pensando, ou o que estamos sentindo quando falamos algo, etc.
Às vezes você pode ouvir "Eu te amo" num tom de voz que sugere que esse tato não descreve exatamente o que parece descrever, e pode dizer "Ok, tudo bem" quando o contexto formal e temático sugere o oposto. Outra situação muito comum é a de uma pessoa estar falando sobre um assunto e o ouvinte achar que está falando sobre outro, como quando um namorado começa uma conversa sobre horários e rotinas do casal, mas na verdade está "discutindo a relação".
Por isso compreender a forma como as pessoas falam conosco (e aí entram as emoções, p.e.), e sobre que tema estão de fato falando é indispensável para discriminar a função do que dizem.
| "Por que a gente nunca se entende, hein?" |
Para explicar melhor isso, Skinner cita como exemplo o uso de prompts (dicas).
Se eu peço: "Diga o nome de um país que começa com a letra B", estou fazendo um operante verbal chamado "mando", para alguém responder. Mas se suplemento esse mando com: "E que termina com 'il' ", acabo de dar uma dica/prompt de natureza formal onde a resposta verbal (que foi um pouco discriminada pela rima).
Se digo: "E que é famoso pelo futebol e carnaval", dei uma probe ("sondagem"), de natureza temática: a resposta verbal não foi discriminada, mas associações temáticas relacionadas com ela foram, que me ajudam a matar a charada e responder "Brasil".
Um exemplo de probe temática, citado por Skinner: se eu digo "O chá está uma delícia" isso faz a pessoa que estava servindo o chá palpitar "Acho que ele quer mais chá". Mas se eu digo: "O chá estava uma delícia", fica sugerido que estou saciado. O tema, portanto, da primeira frase é "Me sinto privado", e o da segunda é "Me sinto saciado".
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| O uso de prompts e probes é muito comum no processo de alfabetização |
Se na parte 4 Skinner fala de operantes verbais que são antecedidos por estímulos igualmente verbais (comportamento ecóico, comportamentos textuais e comportamento intraverbal).
Agora é a vez dele explicar como esses 3 podem funcionar como estimulação suplementar:
- Resposta ecóicas. Ex: Tentar lembrar o nome de uma pessoa repetindo em voz alta: "Renato", "Torquato", "Tato", pois o nome soa dessa forma, até lembrar que é "Gustavo" (Esse exemplo é uma resposta auto-ecóica).
- Respostas intraverbais. Ex: Dizer "Quem com ferro fere com ferro será...", e com isso fazer alguém dizer automaticamente "ferido". Esse ditado também sugere o tema sobre qual será a futura conversa: vingança.
- Respostas textuais. Ex: Ler em voz alta um texto para dar dicas para o ouvinte sobre um determinado assunto que será tratado.
Esses operantes ajudam a "conduzir" um episódio verbal, determinando assuntos, deixas, objetivos, significados. Um bom analista precisa estar atento para essas funções, muitas vezes sutis, se quiser entender de fato o que uma pessoa está dizendo.
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| Quando compreendemos algo que lemos, ouvimos ou mesmo que falamos ? O que é compreender ? |
Toda essa introdução sobre as estimulações suplementares foi necessária para explicar como elas podem mudar o significado de um episódio verbal.
OBS: Vale lembrar, "significado" é a variável independente do episódio verbal. Em termos leigos, sua causa. Se digo "Quero pão" o significado disso é o meu estado de fome.
Como no dito no capítulo 9, o comportamento verbal já é complicado de entender porque determinado por muitas variáveis. Imagine então que fica ainda mais desafiante compreendê-lo por conta dessas estimulações suplementares que ocorrem comumente junto com ele, como uma classe mais imediata de variáveis.
É nesse ponto, no final do capítulo, que Skinner chega ao verdadeiro assunto dele: o que é compreender.
O autor sugere que um ouvinte compreende a verbalização de um falante quando ocorre uma correspondência entre os comportamentos de ambos. Vejamos um trecho fascinante do final do capítulo:
"Quando entendemos o que alguém diz é porque temos repertório para, se estivéssemos nas mesmas condições que ela, dizer as mesmas coisas. Se não entendemos, é porque não temos esse repertório. Se entendemos mal, é porque usaríamos outras palavras. E se entendemos pouco o que a pessoa diz, é porque não conseguimos nos imaginar nas mesmas condições que ela". |
| "Não entendo essa pergunta" equivale a "Não entendo o que estava controlando o comportamento do autor da pergunta quando ele a criou" |
Compreender um texto, a fala de um amigo, uma placa de trânsito, etc, é:
a) ser capaz de entender as condições de emissão dessas respostas verbais e
b) ser capaz de descrever o que aquela resposta significa (que efeito gera) no ambiente.
Portanto, para haver compreensão de um comportamento verbal é preciso "se colocar" na posição de quem o emite, e entender que contingências de reforçamento estavam em jogo, determinando-o. Daí vemos como o comportamento verbal é mesmo social por excelência, uma vez que implica em certa empatia.
Aguarde: logo, logo a parte 11 desta série sobre o livro "Comportamento Verbal", de B. F. Skinner.



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