sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Dramaturgia: Arte & Programação de Ensino




É possível ensinar alguém a ser criativo? É possível ensinar Arte?


Contingências de reforçamento podem ser arranjadas para tornar uma pessoa, por exemplo, um brilhante escritor de peças de teatro?


A dramaturgia é a arte de escrever textos...
... que serão a base para uma encenação dramática.




Há alguns meses estou frequentando um curso de dramaturgia na UFSC. O professor, Paulo Berton, é PhD na área. Me identifico com a forma como ele ensina por várias razões. Uma delas é que ele evidentemente está seguindo um plano. Ele sabe onde quer chegar a cada momento, e sabe o que precisa ensinar e o que os aprendizes precisam fazer para chegar lá.


Pela minha visão behaviorista, Paulo está executando um programa de ensino. Trata-se de arranjar contingências de forma a cumprir objetivos de ensino, isto é, ensinar algo a alguém. No caso, habilidades dramatúrgicas.


Ensinar, lembremos, é arranjar contingências para que alguém aprenda algo.

Partir de um plano, um programa de ensino é saber com clareza a forma como esses arranjos devem ser feitos para que o aprendiz aprenda da melhor maneira possível. 





Paulo (DIR), e dois aprendizes 


outros colegas da oficina


Falemos do programa de ensino da Oficina de Dramaturgia, conforme eu o entendi...

O objetivo do programa (e eles sempre começam pelo fim, isto é, pelos comportamentos-alvo) é claro: desenvolver nos aprendizes classes de competências relativas à arte dramatúrgica, capacitando-os para serem, eles mesmos, capazes de escrever um texto dramático de qualidade.



As aulas acontecem toda 4a-feira, das 14h as 18h.  Vejamos uma versão minha, simplificada, do arranjo de contingências que experimentamos na sequência das 5 primeiras sessões da Oficina:



Sessão Antecedentes Atividades Consequências
1 Conhecimento prévio dos aprendizes sobre o tema, de antes da Oficina. Discutir o que é arte, teatro, drama, e quais os critérios técnicos que delimitam uma obra como dramática. Preparar os aprendizes para o fato de que nem todo texto que parece dramática o é: há critérios que delimitam o conceito dessa arte, e permitem avaliar um texto.
2 Saber que há critérios que estipulam a arte dramática. Apresentar os primeiros 3 itens do Modelo Actancial.
Propôr um exercício: escrever uma cena levando em conta os 3 itens.

Propôr que os aprendizes leiam uma peça clássica.
Os aprendizes exercitam habilidades de leitura e escrita, levando em conta os conceitos da arte dramática.
3



Exercícios da sessão anteiror feitos.

Ler e avaliar a produção dos aprendizes, dando orientações.
Apresentar o item 4 do Modelo Actancial.
Propôr como exercício criar uma cena envolvendo os 4 itens.




Os aprendizes exercitam habilidades de leitura e escrita, levando em conta os conceitos da arte dramática.

4 Ler e avaliar a produção dos aprendizes, dando orientações.
Apresentar os últimos 2 itens do Modelo Actancial, agora completando-o.

Apresentar as 7 partes da estrutura dramática em cartelas.
Propor um exercício: criar uma cena com o modelo actancial completo.
Outro exercício: usar o estrutura dramática e criar 7 cartelas (mais a frente explico isso).
5 Exercícios da sessão anteiror feitos.
A peça clássica foi lida na íntegra, pelos alunos.
Discutir uma peça.
Ler e avaliar a produção dos aprendizes, dando orientações.
Já com alguma habilidade de escrita, os apredizes devem ser capazes de criticar a si mesmo e aos outros, propondo ajustes, melhorias nas obras uns dos outros.


Claro que houve bem mais que 5 sessões até agora, mas aí essa tabela ficaria longa demais... O que importa é que sei que o professor Paulo tem um programa ensino (mesmo que ele não chame por esse nome), de modo que ele já está preparado para o que apresentar nas sessões futuras.





IMPORTANTE




Muitas vezes um processo é fracassado porque partiu de um mau programa de ensino (que não tinha um bom arranjo de contingências). Ou pode ser que o professor não soube executar corretamente um programa de qualidade.



Vamos supor que o programa da Oficina que participo tivesse algumas variáveis alteradas. Vamos supor que as sessões passassem a ser duas vezes por semana, ou quinzenais, ou a noite... De que forma essas alterações iriam afetara a eficiência do ensino? Pra saber mesmo, apenas experimentando, mas é possível fazer algumas inferências em termos de esquemas de reforçamento sobre os efeitos dessas alterações na experiência dos aprendizes e do instrutor.







Como deu para ver, ensinar é conduzir a experiência do aprendiz num passo-a-passo de crescente complexidade, onde conceitos elementares são apresentados no início, para se tornarem atividades e comportamentos regidos por regras mais e mais sofisticadas.



Esse texto é uma cena dramática escrita
 por mim, como exercício da Oficina.
Destaquei em vermelho as notas de
revisão e melhorias propostas pelos colegas.


Na tabela acima citei 2 importantes modelos, fundamentais para a teoria-método dramático. Vamos a eles:




Modelo Actancial





Eis aí ele completo, acima. O objetivo dele é explicar como criar personagens bem concatenados com o enredo. Nem todo dramaturgo o usa, pois não é um consenso na comunidade dessa arte. Mas ele é realmente um ótimo ponto de partida pra pensar a ação dramática.






A Estrutura Dramática em 7 Partes







Este é outro modelo que ajuda a controlar o comportamento de crítica/autocrítica do dramaturgo. Cada uma das 7 partes da ação dramática é um critério de avaliação para checar se o drama está completo.






IMPORTANTE



Notaram que boa parte do programa de ensino foi sobre apresentar, gradativamente, as partes desses dois modelos citados acima?


Não apenas apresentar, mas propor exercícios para que os aprendizes aplicassem na prática de escrita os conceitos que compõem os dois modelos.


Ou seja, todo programa de ensino parte de comportamento-alvo, objetivos, e envolve, para chegar nesses, a aquisição do domínio de regras e conceitos-chave. Estes devem ser gradativamente apresentados e treinados, seja com atividades teórico-metodológicas (leitura e debate) seja com atividades práticas (exercícios, testes, avaliações).





Foi proposto um exercício interessante na Oficina: fazer 7 cartelas de papel, uma para cada parte do modelo, e inventar itens. Assim, cada cartela é uma classe de item dramático, que possui em ser verso uma instância, uma  resposta verbal que exemplifica aquela classe.


Vejam este exemplo, de cartela bolada por mim:




As cartelas que eu fiz foram dadas para outro aprendiz, para que ele as usasse para criar uma cena a partir delas. Ou seja, as cartelas funcionaram como instruções.


Assim, a criatividade do aprendiz é exercitada: ele recebe instruções para criar uma cena que são uma surpresa, pois inesperadas, diferentes, vindas de outras pessoas. Criatividade, nesse sentido, tem a ver com variar e expandir o repertório, emitindo respostas (no caso, verbais) que normalmente não emitimos.


Uma equipe teatral debatendo o texto-base de uma peça.
Isso sempre envolve confronto de ideias e negociações,
que demandam "variar o repertório" .


O objetivo desse post era mostrar como mesmo temas considerados complicados, como Arte, podem (e de fato o são) ensinados pelo que chamamos, na abordagem comportamental, de programação de ensino.


Mesmo a arte é comportamento, isto é, ação humana contingencial. Podemos, e devemos, ensinar a arte, a criatividade, a intuição e todas as demais habilidades que (para muitos equivocados) estão além da compreensão e da possibilidade de serem ensinadas. De fato, dizer que algo não pode ser ensinado, que é "talento natural", é simplesmente reconhecer que não faz ideia de como a coisa de fato funciona. Isto é, de que arranjos de contingências está em jogo.


Para fechar, confiram um exercício meu da Oficina. Trata-se de 6 linhas de diálogo onde um desejo está implicitamente colocado:






Ambiente: Sala de estar de uma família brasileira de classe média. Reginaldo e Eduarda, um casal de seus 40 anos, estão sentados no sofá. Eduarda levanta e começa a andar nervosa pela sala.



REGINALDO, suspirando: Você não acha que o Pedro já está na idade de ser mais maduro, querida?

EDUARDA, com raiva: Ele só tem 14, Reginaldo. Não vejo como ser adulto com 14.

REGINALDO:  Talvez fosse melhor o rapaz tomar suas próprias decisões...

EDUARDA: Rapaz... Hmpf! [Vira-se de costas para o marido e faz um longo silêncio]. Até ontem ele estava brincando de carrinho na rua com coleguinhas. Tá vendo, aquele carrinho na estante, ali.

REGINALDO, sorrindo: Esse "ontem" já tem alguns anos, né, Eduarda?

EDUARDA:  Não entendo onde você quer chegar. [Volta a andar pela sala] Eu trato ele como devo tratar. Sou a mãe do menino. [Pára por um momento e parece ter um insight, surpresa] Adulto? Rapaz? Ainda não, senhor Reginaldo. Só quando o Pedrinho merecer.





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