quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Liberalismo & Behaviorismo Radical



Outro dia expliquei aqui porque não sou marxista. Algumas pessoas me perguntaram qual era minha filosofia política. Ao que eu respondi: "Sou libertário".


Via de regra, os behavioristas que ouvem eu falando isso fazem essa cara:






Costumo ouvir que um behaviorista de forma alguma pode ser Libertário, porque  Behaviorismo fala de controle, e o Liberalismo, de liberdade (que é algo ingênuo e anti-científico). Mais a frente explicarei porque não é bem assim...

Noto, contudo, que muitas críticas que behavioristas fazem ao Liberalismo são equivalentes às que outras pessoas fazem ao Behaviorismo: explicáveis por mal entendidos e falta de leitura aprofundada.


Resolvi compartilhar neste post minha visão de como é possível sim ser behaviorista e libertário. Para isso, tomei por base a tese de doutorado de Alexandre Dittrich: "Behaviorismo Radical, Ética e Política: Aspectos Teóricos do Compromisso Social". Da página 436 a 443 o autor explica uma visão behaviorista sobre o Liberalismo. Visão essa que me parece incompleta. Coisa que pretendo explicar aqui.



Adam Smith tem algo em comum com Skinner:
muita gente o odeia apesar de nunca ter lido nada dele, de verdade




O autor conclui, na página 444: "Os pressupostos fundamentais do Liberalismo são marcadamente diferentes daqueles presentes no Behaviorismo Radical". Fica sugerido que os dois sistemas filosóficos são incompatíveis. Pretendo mostrar que não o são, de fato, e é perfeitamente possível um behaviorista ser um libertário (ainda mais se ele usar outra nomenclatura qualquer pra essa filosofia, caso a raiz "liberdade" o incomode, rsrsrs).


Dittrich começa dizendo algo muito correto: o Liberalismo tem diversas versões. Didaticamente as agrupou em duas classes: Liberalismo Clássico e o Neoliberalismo, cujas diferenças constam na tabela abaixo.





Liberalismo Clássico Neo-Liberalismo
Indivíduo Absoluto, portador de livre-arbítrio. Senhor de suas ações, responsável por elas. Em interação com outros indivíduos na vida comunitária e social.
Estado & Economia Estado Mínimo ou inexistente. A ordem espontânea deve emergir do jogo entre oferta e procura. O Estado tem seu papel enquanto regulador e árbitro, mas não deve interferir demais na Economia.
Liberdade Enfatiza as liberdades negativas: ausência de coerções no ambiente social. Fala das liberdades negativas, mas também dá ensejo às positivas: condições favoráveis para o bem-estar e prosperidade dos indivíduos.



Infelizmente Alexandre Dittrich não cita textos explicativos de grandes autores liberais (como Friedman e Hayek) sobre essas 3 grandes questões (o Indivíduo, o controle do Estado sobre a Economia e a Liberdade). No lugar disso,  apenas textos de autores que criticam esses autores. 

Falemos sobre esses conceitos tão caros aos libertários, então. Procurarei acrescentar algo à essa reflexão.


Indivíduo & Liberdade


A grande maioria dos behavioristas entende no Individualismo Liberal uma noção ingênua. Afinal, o comportamento do indivíduo não pode ser explicado apenas porque ele quer isso e aquilo, porque simplesmente fazer isso e não aquilo. Se fosse assim, ele não teria nenhuma determinação ambiental. Como ficariam as contingências em que ocorrem o comportamento?

"O indivíduo só existe como parte de contingências", diz o behaviorista. E o libertário também. Duvida? Continue lendo...

Uma coisa que os behavioristas esquecem, ou mesmo não sabem, é que o Individualismo Liberal tem duas faces (em geral apenas a primeira é citada, por causa de leituras superficiais). As duas são:


a) busca dos próprios interesses (o que envolve um certo egoísmo sim, visto que as pessoas buscam sempre condições mais interessantes para suas vidas e as vidas de quem amam);


b) busca pela aprovação dos outros indivíduos (o que envolve uma contingência social intrínseca ao Individualismo: a reputação como reguladora ética, uma vez que os comportamentos mais éticos são aqueles tidos como os que devem ser imitados por todos).


OBS: quem já trabalhou no comércio sabe o poder de ter uma boa reputação na praça.


Liberalismo pressupõe comunidades que se auto-regulam
por meio da aprovação ou rejeição ética de comportamentos individuais




Ou seja, indivíduos agirão visando uma vida melhor para si mesmos e em congruência com o comportamento de outros indivíduos de sua comunidade. E isso já é dito desde Adam Smith, patrono do Liberalismo Clássico, que muito falou do papel da comunidade na geração da riqueza das nações.


O indivíduo não existe num vácuo de contingências, mas sempre como parte de uma comunidade que controla seu comportamento. Um exemplo econômico: se um lojista for muito desonesto com seus clientes, logo sua má fama percorrerá a vizinhança e fará os clientes, suas famílias e amigos irem numa loja concorrente à do lojista desonesto.


A liberdade, para um indivíduo, é viver sem coerções (liberdade negativa) bem como a presença de múltiplas opções de comportamento disponíveis em seu ambiente (liberdade positiva). Mas note que essas escolhas individuais serão sempre influenciada pela comunidade, em termos de aprovação, tradições, reputação, etc. 

Evidentemente o conceito de livre-arbítrio, de origem teológica, muito valioso para muitos liberais clássicos de orientação religiosa, pode ser amplamente questionado por um behaviorista. No final das contas, o livre-arbítrio é inversamente proporcional a quão longe se analisa as contingências em que ocorreram as escolhas... Não é o indivíduo que escolhe sozinho: as consequência de suas escolhas para os outros sempre fazem parte da equação, seja em termos éticos ("Me preocupo com eles") seja em termos de reação ("O que eles farão caso eu faça isso").







Estado & Controle da Economia




A grande questão que os liberais defendem não é que o Estado é mau por si mesmo, mas simplesmente que ele está fadado a ser um administrador incompetente da Economia por duas razões:


a) Sua natureza burocrática. O Estado opera, p.e., criando comitês burocráticos que em geral objetivam criar leis reguladoras (impostos, subsídios, incentivos, punições, etc). O que ocorre é que esses burocratas raramente são escolhidos por serem competentes nas áreas em que irão legislar, mas sim pelas conexões político-partidárias que possuem. Dessa forma, as leis são criadas e fiscalizadas por gente que não entende de fato das contingências que estão mexendo. Conclui-se que quanto mais controle estatal (centralizado e vertical, de cima pra baixo) maior a probabilidade de decisões erradas na Economia acontecerem.

B. F. Skinner, em Walden II, fala da "Junta dos Planejadores", uma espécie de Estado Mínimo formado por um punhado de membros experientes nas atividades produtivas, que deve regular a Economia da comunidade. Mas note como esses Planejadores Skinnerianos não são burocratas sem conhecimento técnico. Ao invés disso, conhecem profundamente o negócio em que estarão intervindo, e estão treinados para analisar contingências. 


O sistema político de Walden II só funcionava porque não havia um Estado burocrático. No lugar dele, havia uma Personocracia: as pessoas mais adequadas eram acionadas para agir diretamente sobre cada situação, e o processo não era lento e custoso (pois não era burocrático).




b) a complexidade das contingências econômicas, que impede planejamentos de longo prazo e a eficácia de grandes intervenções. O contexto econômico é não apenas complexo demais para os burocratas do Estado analisarem, como desafia especialistas. P.e., mercados como o financeiro são repletos de variáveis caóticas, por vezes aleatórias; já mercados agrícolas dependem de variáveis climáticas que simplesmente não podem ser previstas satisfatoriamente. 


Intervenções estatais na Economia, mesmo as mais bem intencionadas, têm grande chance de piorar as coisas pra população não apenas porque os burocratas são quase todos incompetentes, mas porque a Economia não é algo de fácil compreensão nem para gênios.


Nenhum analista do Estado pode entender e controlar devidamente
as contingências que determinam o Mercado Financeiro


Diante de tamanha complexidade de contingências, dizem os libertários, o melhor negócio não é deixar tudo na mão de comitês burocráticos que não entendem do assunto e estão distantes da realidade dos mercados, mas dar poder aos micro-agentes econômicos. Em outras palavras, pegar um controle vertical (exercido pela Estado) e torná-lo horizontal (distribuí-lo ao maior número possível de indivíduos). Os próprios agentes produtores de riqueza são as pessoas mais capacitadas para controlar a produção, bem como os consumidores os mais aptos para regulá-la (Lembremos do princípio da Reputação, que pode determinar boicotes a produtos de má qualidade).


Nenhuma ação estatal pode ser tão rápida e eficaz para regular a Economia quanto a mobilização da comunidade de produtores e consumidores em prol de objetivos comuns. 


Do ponto de vista econômico, o Liberalismo poderia ser chamado de "Pluricontrolismo", uma vez que determina a distribuição do controle e de contracontrole. Quem sabe com esse nome ele seria mais do agrado dos behavioristas...


Para fechar, confira este vídeo, no qual o grande economista Libertário Milton Friedman dá exemplos de tudo isso que eu disse aqui neste post. Friedman fala de um assunto polêmico: a legalização das drogas.


Preste especial atenção ao que Friedman diz sobre as contingências econômicas do tráfico, e como o Estado foi incompetente em alterá-las, gerando ainda mais problemas com leis coercitivas que deviam resolver a situação:








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