Hoje li os primeiros 5 capítulos de "Introdução À Psicolinguística", de Leonor Scliar-Cabral (Ed. Ática, 1991, RJ).
Me interessei pelo título, mas logo de cara vi do que se tratava. A autora defende que Noam Chomsky fez uma revolução nos estudos da linguagem que solapou o Behaviorismo e que hoje somos todos neo-chomskianos.
Antes de mais nada, não houve revolução cognitiva nenhuma, mas sim uma renovação de velhas ideias cognitivistas que haviam saído de moda.
Mas analisemos o que a autora diz:
1) O modelo de Skinner para explicar a linguagem, contido em "Verbal Behavior"(1957), é falho, pois não consegue explicar coisas complexas. A autora cita duas:
1.a) se as crianças são ensinadas a falar por reforço de qualquer verbalização como é que elas acabam aprendendo uma língua inteira, com gramática, vocabulário, etc? Afinal, se elas recebem reforço por tudo, como "esquecem" as verbalizações erradas?
1.b) como pode uma pessoa falar algo que nunca tenha ouvido antes? P.e., se eu digitar aqui "O repatorizador beembezou o caramujo azul" certamente é algo que nunca falei e nunca ouvi ninguém falando. Como isso pode ser possível se o comportamento verbal é todo aprendido por condicionamento operante?
Para explicar o item "1.a)", basta citar um simples processo comportamental muito conhecido: a modelagem. No início a criança tem a emissão de qualquer fonema reforçada, mas os adultos vão "esculpindo" esses sons. Depois de muita modelagem (e outros processos comportamentais), a criança se torna parte de uma comunidade verbal, que reforça diferencialmente: apenas verbalizações minimamente de acordo com as normas da língua são reforçadas.
Ex:
- Diz "papai".
- mmmmmd deeeee gggrrrrr meeeee
- Não, não. Pa-pai. Paaaaaaa-paaaaaai. Paaaaa-paaaaai.
- Da-da.
- Isso! Isso! Agora "papai".
- Da-da.
- Não! "Pa-pai".
- Pa.
- Ótimo. Agora "paaaa-pai".
- Pa.
- Não. É "papai".
- Papa.
Por vezes a criança parece ter um "salto qualitativo", desenvolvendo velozmente a compreensão gramatical da língua. Outro fenômeno bem conhecido dos behavioristas: a aprendizagem latente.
E o item "1.b)"? Aí vale a pena conferir o experimento de Skinner e Estes sobre criatividade. Eles demonstraram como pombos podem emitir complexas cadeias de respostas para os quais não havia sido condicionados, parecendo "criar livremente" (como se estivessem totalmente livres de aprendizagens prévias).
Também vale a pena destacar que mesmo quando criamos um enunciado inteiramente inédito para nós, ele ainda assim está determinado por certas regras aprendidas. Na frase que inventei ("O repatorizador beembezou o caramujo azul" ), notem que:
- estou usando uma estrutura sintática comum de sujeito e predicado,
- que começa com o artigo ("O"),
- um substantivo derivado de uma palavra inexistente, mas coerente ("repatoziador"),
- um verbo inventado mas que conjuguei corretamente ("beembezou"), e
- um sequência de palavras que eu já conhecia, mas nunca vi associadas ("o caramujo azul").
Prossigamos...
2) A autora diz em seguida que Noam Chomsky trouxe algo inteiramente novo para a Psicologia (Na verdade, ele apenas revigorou velhas ideias da Epistemologia mentalista). Entre essas ideias:
2.a) a de que já temos uma compreensão inata da linguagem
2.b) a de que a linguagem é um tipo especial de ação humana, distinta do comportamento, e que não pode ser explicada em termos "meramente" comportamentais
Sobre o item "2.a)", o que os chomskyanos esquecem de dizer é que apesar de o tempo inteiro falar que o "órgão da linguagem" é inato, Chomsky diz que isso nada tem a ver com a Evolução. Para esse linguística, a Evolução biológica não pode explicar como a linguagem surgiu. Darwin não teria nada a dizer sobre a linguagem. (O que, aliás, gerou as críticas de outros cognitivistas!)
No lugar da Evolução, Chomsky defende que o "órgão da linguagem" vem de outra dimensão, e que apenas a Física Quântica pode, talvez, explicar como ele se conecta aos nossos corpos físicos. Parece que estou inventando isso pra zoar com o Chomsky? Pois quem disse isso, citando um livro de Chomsky, foi Daniel Dennett (um cognitivista).
Chomsky, quem diria, é um gnóstico! (Por sinal, "gnose" significa conhecimento. "Gnosticismo" é equivalente, etimologicamente, a "Cognitivismo").
| Deus criou todas as coisas pelo poder do Verbo, diz a Bíblia. E apenas o homem, sua obra máxima, possui uma centelha desse poder. |
Sobre o item "2.b)", a autora critica Skinner por entender que os operantes verbais são apenas mais um tipo de comportamento humano, mais complexos, mas ainda assim "comportamento"; e que o comportamento humano é similar ao dos animais, funcionando por regras parecidas.
Novamente vemos o cognitivismo misturado com gnosticismo. A noção de que o comportamento verbal é algo "especial" que nos distingue radicalmente dos animais é herdeira do misticismo judaico-cristão, que identifica o Verbo/Razão como a essência divina que possuímos de forma exclusiva em toda Criação.
| Noam Chomsky, o restaurador do cognitivismo: trouxe de volta a moda antigas crenças gnósticas |
3) A autora diz ainda que hoje (ela escreveu em 1991), já existem neo-chomskyanos. Pessoas que "se liberteram do Imperalismo das ideias de Chomsky"(sic).
Os neo-chomskyianos são cognitivistas que surgiram nos anos 1980 a partir críticas que tinham ao seu patrono. A autora cita algumas:
3.a) Chomsky explica como falamos, mas não explica a comunicação. Sua teoria é acontextualista e ahistórica.
3.b) Chomsky enfatiza demais características estruturais, sintáticas. Ele não fala muito sobre semântica e pragmática da linguagem.
3.c) Chomsky presume que as categorias gramaticais possuem uma "realidade psicológica". Isto é, as unidades formadoras da linguagem existem como átomos em uma dimensão distinta da Natural, o "plano psicológico". Os neo-chomskyanos dizem que Chomsky, por declarar isso, é um "reducionista psicológico", cometendo "psicologismo da linguagem".
Vamos ver então..
Sobre a "3.a)", eu tenho isso a dizer: "HAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHA". A crítica dos neo-chomskyanos é que Chomsky não leva em conta as contingências de reforçamento em que a linguagem se dá. Isso soa como música pros meus ouvidos..
Sobre a "3.b)", eu tenho isso a dizer: "KKKKKKKKKKKKKKKKKKK". Os neo-chomskyanos sentem falta de uma abordagem funcionalista da linguagem (como a Comportamental é). Isto é, uma que leve em conta não apenas o contexto em que ela ocorre, mas que efeitos que ela gera, como ela funciona em termos de consequências no ambiente.
Sobre a "3.c)", eu tenho isso a dizer: "MeRacheiDeRir!!!!!". O que estão criticando é o mentalismo da abordagem de Chomsky. De forma bem gnóstica, ele parece acreditar que as palavras existem como essências numa dimensão além da explicação científica (a dimensão mental), e que vêm para o nosso mundo físico ao decair e se tornarem sons. Com isso Chomsky mantém um dualismo com toda cara de cartesiano, que os neo-chomskyano não gostam muito...
OBS: Acho triste que esses sujeitos não se deem ao trabalho de estudar a abordagem comportamental. Pelas críticas que fazem a Chomsky, iriam gostar muito!
Para fechar, a autora destaca que os neo-chomskyanos não gostam tanto da ideia de pesquisar a linguagem em laboratório. Citando Piaget, ela argumenta que é impossível entender a complexidade da linguagem em condições controladas, pois o cientista sempre infere suas opiniões na amostra. Esse ponto até pode estar parcialmente certo, mas note como toda a pesquisa experimental sobre o fenômeno parece ser descartada, em nome do uso exclusivo de pesquisas de campo, naturalísticas, etnográfica.
Mas não apenas isso! Nesse ponto a autora parece cair em contradição: ela começa o parágrafo dizendo que pesquisas de laboratório não são tão úteis, mas termina dizendo que a Inteligência Artificial tem muito a oferecer, com o uso de simulações por computador.
Ou seja, sai a pesquisa experimental, e a entra a pesquisa por simulação digital. A receita dos neo-chomskyanos para entender a linguagem é parar de estudar animais e pessoas, e estudar como máquinas que pessoas fazem agem quando alimentadas com dados enviesados sobre a linguagem, gerando simulações enviesadas. "Modelos computacionais são o futuro do estudo da lingaugem", dizem os neo-chomskyanos. E depois behaviorista que é mecanicista, hein...
Conclusão: Esse negócio de Psicolinguística não me impressionou. Ao menos não positivamente. Ao invés de girarem em torno de Noam Chomsky, o gnóstico da Linguagem, podiam criar coragem e checar como é a explicação behaviorista. Tenho certeza que iam gostar muito dela depois que se desfizessem dos preconceitos e mal entendidos (que aliás Chomsky divulgou).
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