O que diz o Behaviorismo Radical sobre a sexualidade?
As categorias "hetero", "gay", "bi", etc, descrevem bem o fenômeno?
É possível entender a sexualidade como comportamento, isto é, algo contingencial e determinado pelo ambiente cultural?
Este post pretende responder a essas perguntas.
Para isso entrevistei o Flávio Amigo (sobrenome simpático, né?), graduando em Psicologia na UNIFACS, em Salvador-BA (foto aí do lado).
Ele vai nos falar da Teoria Queer, um conjunto recente de respostas sobre a sexualidade, baseado em estudos culturais.
"Queer" é uma gíria para designar pessoas "sexualmente esquisitas". Parte da ideia de que algumas pessoas possuem uma sexualidade de difícil classificação, pois complexa e ainda por cima mutável. Em síntese, a Teoria Queer diz que isso se aplica, em maior ou menor grau, a todos.
Flávio, também behaviorista, nos dará algumas pinceladas sobre o tema: "Behaviorismo & Sexualidade". Acompanhe:
OB: Pode contar um pouco sobre sua carreira até o momento, especialmente sobre o seu interesse na Teoria Queer?
Questões de Gênero sempre foram muito fortes em minha formação, não necessariamente porque eram devidamente discutidas, mas porque eram distorcidas ou silenciadas. Ao passar do tempo comecei a reparar como determinadas concepções teóricas pautadas em binarismos afetavam as práticas de profissionais da área de saúde, levando a comentários heteronormativos e misógenos, mesmo que esta não fosse à função de seus discursos. Este regime binarista (masculino/feminino) parte do pressuposto que devemos nos comportar desta ou daquela forma de acordo com a aparência da genitália com a qual nascemos.
| Desde muito cedo somos condicionados a diferentes identidades por conta de nossa genitalidade. A começar pelas cores de roupas dos bebês. |
A Teoria Queer surge rompendo com estes discursos, percebi então algo muito parecido com o momento em que me deparei a primeira vez com o Behaviorismo Radical: os paradigmas que norteavam minhas noções sobre o ser humano eram epistemologicamente falhos.
OB: A grosso modo, qual a diferença entre a Teoria Queer e os estudos clássicos GLBT, feminista,etc?
Antes da teoria surgiu um militância Queer. Pessoas que não eram aceitas originalmente no movimento gay, tais como travestis negras e transexuais criam outro movimento onde não era necessário rotular sujeitos de acordo com suas praticas sexuais. “Já que não somos nada que vocês levem em consideração, somos queers e não precisamos nos encaixar em siglas”, esse foi mais ou menos o raciocínio fundador deste novo movimento.
Acadêmicos(as) começaram a nutrir interesse nos questionamentos levantados por este novo grupo, vendo que a proposta deste movimento era coerente com posicionamentos de alguns autores como Foucault, Deleuze e Guatarri. Surge então de uma coletividade o que pode se chamar de “Teoria Queer” rompendo com concepções identitárias fixistas e essencialistas sobre o ser humano. Na época esta proposta batia de frente com os estudos GLBT porque não via sentido em categorizar os sujeitos, e batia de frente com os estudos feministas que eram essencialistas e acreditavam que sua sexualidade começava a ser construída após seu nascimento e que existia uma “essência feminina”.
Esta campanha contra homofobia parte do pressuposto
de que uma pessoa é travesti, hetero, bissexual, gay, etc;
como se essas categorias de identidade fossem definitivas
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| A tentativa de mudar a categoria de identidade sexual em terapia parte da ideia de que existe algo concreto e isolável chamado "sexualidade", que pode ser manipulado como um objeto |
OB: A abordagem comportamental é compatível com a Teoria Queer?
A teoria Queer não possui ligação direta a nenhuma linha especifica de pensamento, entretanto, não consigo imaginar uma abordagem mais compatível do que a Análise do Comportamento.
As práticas sexuais não precisam estar acopladas obrigatoriamente com afirmações identitárias fixas (o que remete a questão função/topografia). Tradicionalmente, parte-se do pressuposto que é “natural” meninos gostarem de carrinhos, futebol e meninas de brincar de casinha quando estes são comportamentos reforçados socialmente.
Crianças que costumam a aderir a brincadeiras pertencentes “ao sexo oposto” são tratadas como seres “desviantes” ou “homossexuais em potencial”. Entra-se então em uma contradição: Como algo supostamente “natural” ou “intrínseco” pode ser alvo de contra-controle com tanta freqüência?
Antes de nascermos os pais criam toda uma expectativa sobre seu rebento, preparam o quarto do futuro bebê que quando começar a crescer também será vestido de acordo com seu sexo. A transgressão de qualquer norma binária regente é encarada como risco de que ocorra algo “horrível” como a homossexualidade. E se você for homem não basta você ser heterossexual! Tem que gostar de beber cerveja, jogar futebol e Cia!
Chega a ser ingenuidade crer na existência de um homem plenamente masculinizado ou de uma mulher plenamente feminilizada. A tentativa de regular nossas condutas de acordo com nossas genitálias não muda nossos “desejos” (sejam sexuais ou de se engajar em uma atividade do outro sexo), apenas gera uma multidão de pessoas inseguras acerca de sua própria sexualidade.
| Experiências homossexuais passageiras costumam ser mais frequentes em algumas circunstâncias. Uma delas é a adolescência. |
Foucault no primeiro volume do seu livro “A História da Sexualidade” traz relatos de fatos históricos sobre como práticas homossexuais eram vistas como normais para maioria dos povos antigos até o momento em que o cristianismo inventou o “pecado do século”. Fosse você homem ou mulher, caso praticasse sexo anal, teoria cometido o pecado da sodomia (assim como o pecado da gula ou da luxúria). De início adultério, sodomia e sexo antes do casamento eram considerados crimes de mesmo peso estado, mas a noção de pecado foi se aperfeiçoando ao longo do tempo e com isso profissionais da área de saúde conseguiram incluir homossexualidade na lista de patologias. É interessante parar para pensar que em uma leitura analítico-comportamental, Foucault mostra como a comunidade verbal foi sendo modelada ao longo de gerações até chegar à noção de sujeito “homossexual”.
Acho que fica claro como a Teoria Queer, assim como Skinner combate o jargão “nasce assim” (sem negar a filogênese) muito difundida em nossa sociedade para explicar comportamentos os não conseguimos identificar as variáveis de controle.
Me surpreende o fato que Skinner não conseguido articular teoricamente o BR
com questões de gênero da mesma forma como conseguiu com a Religião e Cia. Infelizmente, todas as vezes que Skinner falou de “sexualidade humana” acabou cometendo erros crassos.
OB: O que você recomenda para quem está interessado em estudar essa área?
Judith Butler é a maior representante da Teoria Queer na atualidade a nível internacional, mas suas obras são leituras avançadas é não são fáceis de entender.
Recomendo que os interessados neste estudo façam o mesmo que estou fazendo no momento: deixem Butler para quando estiverem bastante avançados em seus estudos sobre a Teoria Queer e comecem lendo autores nacionais como Guacira Lopes, Leandro Cooling ou Berenice Bento que escrevem em uma linguagem mais acessível.





2 comentários:
Post muito bom! Parabéns pela entrevista!
Muito interessante, não conhecia sobre a Teoria Queer, vou buscar mais sobre ela.
Muito legal o texto, estou fazendo uma pesquisa na area de classificações sexuais e a visão da análise do comportamento sobre elas e tb estou obtendo resultados muito interessantes :)
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