Uma matéria recente no site iO9 fala da Psicologia da luta no MMA, Mixed Martial Arts. O texto defende que mesmo os lutadores mais experientes sentem medo, ansiedade, nervosismo, etc. Porém eles possuem no repertório habilidades de autocontrole para superar esses estados contraproducentes e obter bons desempenhos.
Como eles fazem isso?
Que técnicas de autocontrole são essas que permitem que eles se sintam tão confiantes, mesmo em situações como esta:
Antes de mais nada, a autoconfiança surge de um histórico de sucesso pregressos. Portanto, nada como treinar e errar, corrigir e acertar, acertar e acertar (ou seja, repetir, repetir e repetir o treino) antes da luta para entrar confiante nela.
Mas apenas o desempenho passado pode não ser suficiente. Grandes lutadores (com histórico vasto de sucessos), por vezes parecem "travar" durante as lutas. Nesse caso, o que faltou?
Provavelmente, faltou autocontrole. Isto é, manejar os próprios estados e comportamentos, visando foco e segurança.
O artigo do iO9 destaca 3 tipos de técnicas para obter esse efeito: scripiting, framing e othering.
Uma por uma:
Scripting
Contar uma história sobre como deve ser a luta, isto é, as estratégias e eventos nela; ou sobre a vida do lutador como um todo. O atleta precisa se sentir como parte dessa história, e tomá-la como regra para seus comportamentos, como um roteiro pré-determinado.
Algo como: "Eu vou lá, sigo o plano direitinho, e volto vitorioso. Simples assim. Trabalho feito!".
Seguir um roteiro de qualidade faz o atleta sentir-se menos ansioso, preocupado, pois ele confia na eficácia do plano. O comportamento do atleta passa a ser controlado pelo plano, que inspira confiança e segurança, e não por eventuais contingências geradoras de ansiedade e insegurança.
Além disso, conhecer a biografia de lendas das artes marciais pode ser uma forma de Scripting. Algo como: "Serei vencedor como Bruce Lee foi, pois sigo seus passos", "Mesmo que eu tenha me machucado, darei a volta por cima, como o Minotauro fez", "Penso igual o Júnior Cigano sobre o valor da honra e do treino", etc.
| Ter um modelo de sucesso ajuda a realizar o Scripting |
O atleta passa a ter seu comportamento controlado pela modelação do comportamento da lenda que admira. Para ser mais específico, num processo conhecido como Congruence, onde tanto o que o ídolo fala (instruções verbais) quanto o que ele faz (exemplos), conta.
OBS: Cheque este post onde analiso as instruções de Wanderlei Silva para obter sucesso na vida e no MMA.
Framing
Há um ditado (instrução verbal típica de uma cultura) no mundo das lutas que diz: "Treino duro, luta fácil". Esse ditado é um exemplo de framing, que gera a seguinte descrição de contingências: "A luta é igual o que você já faz na academia. Relaxa, pois você está preparado".
Framing consiste em enquadrar uma situação, mudando seu significado. No exemplo anterior, a luta no campeonato que era tida como muito aversiva passa a ser vista como "apenas uma coisa que você já sabe bem como fazer".
| "Treino duro, luta fácil" é um ditado que Júnior Cigano (DIR, batendo) repete bastante em seu twitter e no Ultimate Fighter em que foi coach |
Outro exemplo de framing: o atleta que encara as lutas na academia, de sparring de treino, como preparação e não como disputa. Assim, caso ele perca, não se vê como perdedor, mas como "mais preparado", e diz de si mesmo "Ganhei experiência". Aquela derrota deixa de ter importância ou efeito aversivo, pois passou a ser enquadrada como aprendizado.
Um terceiro exemplo de framing: entrar na luta ouvindo uma música que o faça lembrar momentos de sucesso em treinos passados. Aliás, a entrada de todo lutador do UFC sempre tem uma música que ele escolhe para inspiração.
Othering
O lutador cria um personagem para si, e quando precisa de confiança e força para lutar, interpreta-o. Passa a ser controlado pelas regras de comportamento do personagem, até ele mesmo ser esse personagem, isto é, tê-lo como parte integrante de seu repertório.
É comum ouvir relatos como: "Quando luto, imagino que sou um gladiador", "Penso em mim mesmo como um guerreiro invencível, sem medo", "Não sou eu no ringue, é um outro Eu, bem mais forte", etc.
No Kung Fu tradicional, existe mesmo técnicas de meditação para a luta no qual o artista marcial se imagina como um animal mitológico. Assim, p.e., ele deve agir com a coragem e destreza de um dragão ao lutar.
| "Quando luto, viro um dragão" |
As técnicas da classe "Othering" podem inclusive gerar um estado de dissociação da identidade, muito parecido com uma sugestão hipnótica. De fato, certas tribos de índios costumam incentivar o Othering de seus guerreiros lhes dando drogas e sugerindo, em seguida, que se transformaram em lobos: a licantropia nasceu, nesse contexto, como uma preparação para lutar.
| Lyoto "The Dragon" (ops!) Machida incorporando Ryu, do Street Fighter |
Nota Comportamental Vale destacar que as 3 classes de técnicas apresentadas anteriormente são explicáveis pelo mesmo processo: o comportamento controlado por regras. |
Tanto o Scripting quanto o Framing e o Othering são formas de fazer o comportamento do atleta ser menos controlado pelas contingências (visto que elas são aversivas, ansiogênicas), e mais por regras (que lhe conferem segurança e confiança).
Portanto, para funcionar melhor, as regras precisam ser condicionadas por alguém que tenha grande poder de reforço em suas instruções. Em outras palavras, o instrutor precisa ser alguém em quem o atleta confia e valoriza muito para que as regras que sejam ensinadas por essa pessoa de fato controlem poderosamente o seu desempenho. Isso não exclui que essa pessoa seja o próprio atleta. Mas comumente quando o instrutor quer "motivar" sua equipe, chama alguma lenda viva do esporte para dar um seminário ou dizer algumas "palavras de inspiração" (cujo papel é servir de reforço para as regras aprendidas no treino comum).
Portanto, para funcionar melhor, as regras precisam ser condicionadas por alguém que tenha grande poder de reforço em suas instruções. Em outras palavras, o instrutor precisa ser alguém em quem o atleta confia e valoriza muito para que as regras que sejam ensinadas por essa pessoa de fato controlem poderosamente o seu desempenho. Isso não exclui que essa pessoa seja o próprio atleta. Mas comumente quando o instrutor quer "motivar" sua equipe, chama alguma lenda viva do esporte para dar um seminário ou dizer algumas "palavras de inspiração" (cujo papel é servir de reforço para as regras aprendidas no treino comum).
Vale inclusive um aviso afinal: cuidado com o grau de controle determinado pelas regras. Quanto mais o comportamento é controlado por regras, mais o atleta tende a ignorar as contingências, e já comentei outro dia aqui como isso gerou o fracasso de Minotauro na recente luta contra Frank Mir.
IMPORTANTE: O atleta que usar as técnicas citadas anteriormente deve manter um mínimo de sensibilidade ao ambiente necessária para saber quando as contingências sinalizam que as regras não estão funcionando e precisam ser substituídas por outras melhores, ou o comportamento do lutador deve ser controlado inteiramente pelas contingências imediatas.
Pra fechar, fique com um ótimo vídeo pra inspirar lutadores:


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