quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Três Metáforas Visuais para o Ego





Uma vez comparei o self/ego a uma coleção de selos.

Hoje vou propor outra metáfora visual. Na verdade, três.



Essas são baseadas em algo que filosofei recentemente... Se trata do fato de  você ser agora todas as pessoas que você já foi um dia. Você é um bebê, uma criança de 3 anos, um adolescente, você mesmo do ano passado, você mesmo de ontem. Essas pessoas que você foi não sumiram. São conjuntos de aprendizagens que você vivenciou, são formas como as experiências de sua vida te transformara. E como sabemos que um comportamento uma vez aprendido nunca é completamente extinto (ele só pode ser enfraquecido, mas nunca eliminado inteiramente) então esses Eus ainda existem, em um certo sentido.


Todos os seus Eus, (sistemas integrados de comportamentos típicos de cada fase e momento de sua vida), estão aí contigo agora, neste instante, compondo seu repertório.

Mas como entender a forma como eles se organizam?



Agora vamos às 3 metáforas visuais...


A primeira tentação é imaginar esse nosso Eu-múltiplo como um conjunto de bonecas russas:






Ou seja, um Eu dentro de outro, acoplados, encaixados mecanicamente em seus lugares, o maior englobando o menor até chegar em um final. 


Mas essa metáfora é ruim por vários motivos: presume que é possível isolar um Eu de outro, e sabemos que não é nada mole isolar uma classe de respostas; fora isso, presume que há algo como um Eu-Interior-Final (a menor boneca).


Então me ocorreu uma segunda metáfora visual.


Que tal comparar o Eu a uma cebola?






Essa imagem tem suas vantagens: a cebola não tem um caroço, assim como o Eu não tem um núcleo rígido, estanque, mas é um sistema fluído de comportamentos; a cebola cresce organicamente, de camada em camada, como crescemos nas fases da vida.


Mas a metáfora da cebola também tem problemas... Ela te induz a pensar que o seu Eu tem camadas bem delimitadas, estruturas bem definidas que podem ser "descascadas" analiticamente com facilidade. Também induz ao erro de achar que apenas a camada mais superficial e mais recente é que tem contato com o ambiente.


Ou seja, ela mantém uma falha da metáfora da boneca russa: a de que aquilo que forma o Eu são partes isoláveis, destacáveis e manipuláveis.


Procurando uma metáfora mais robusta para descrever o Eu, o que me ocorreu foi uma da qual sou bem familiarizado, por praticar artes marciais há vários anos.


Trata-se da faixa de graduação, cuja cor e outros caracteres indicam o nível de amadurecimento na arte.






Uma faixa preta indica que o aprendiz já passou por todas as outras e, mais que isso, que ele é, ao mesmo tempo, tudo aquilo que um faixa branca é, um faixa amarela, um faixa verde, e assim por diante. Uma faixa preta é uma evidência do acúmulo de diversas aprendizagens que podem não estar visíveis  no momento, mas mudaram o aprendiz.


Apesar de, funcionalmente, o faixa preta ser todas as faixas, a que aparece é apenas a de cor preta. Isso porque ele pode ser todas as faixas, mas o é enquanto alguém que foi mudando, acrescentando densidade e complexidade ao seu repertório. Só faz sentido ele usar uma faixa: a preta, e não todas as outras ao mesmo tempo. E mesmo quando ele faz algo de branca, ele não precisa trocar a faixa para isso.

Apesar disso, não adianta pegar uma faixa preta e tentar tirar dela tinta azul, verde, amarela, branca... Ela não é estruturalmente todas as cores: é funcionalmente.


As aprendizagens de cada faixa não são partes acopladas mecanicamente, que podem ser pinceladas separadamente, isoladas umas das outras. São  sistemas de respostas que se integram organicamente, formando uma rede viva, mutável, dinâmica.



Um faixa preta pode fazer técnicas de faixa branca, pode "ser um faixa branca", mas é ao mesmo tempo algo mais: se ele faz uma técnica básica de branca, o faz com o nível de discriminação de contingências próprio de um preta.


Analogamente, se você é um adulto há quem diga que você tem uma criança-interior. Mas esse eu-infantil será acessado por você, em determinadas circunstâncias, sempre a partir da experiência de um adulto. Em termos mais científicos: seus comportamentos tidos como infantis são emitidos por você-adulto. Não se trata de um eu-interior que assumiu o controle, mas de contingências que subitamente aumentam a força de comportamentos infantis que já haviam sido extintos.


Você é todas as pessoas que você já foi. Mas é todo essa multidão apenas porque consegue ser você mesmo aqui e agora, controlando a hora e a vez de toda essa gente. Se por um lado esse sistema múltiplo de Eus pode confundir e atrapalhar em alguns momentos, lidar bem com ele é a chave para manter-se flexível, variar conforme o contexto e se adaptar ao que cada momento traz.



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