23 setembro 2012

Ícone, Índice e Símbolo



Quando se faz design, especialmente o gráfico, é comum discutir o uso de signos

Muitos designers adoram falar em Semiótica, e a partir daí como os ícones significam tal coisa, como usar índices assim e assado, como tal cor do logotipo simboliza tal qualidade, etc.

Neste post ofereço uma explicação comportamental para os signos, i.e., para o que são ícones, índices e símbolos; para mostrar que quando fazemos design não estamos abstratamente "manipulando signos" em uma dimensão mental, mas sim mexendo com comportamentos concretos de pessoas.

Diz-se comumente que devemos "usar signos" como se eles fossem entes reais, objetos com atributos fixos e que se existem em si mesmos, como cadeiras, computadores e carros. 

Um signo, numa visão comportamental, é apenas um nome que se dá a uma relação específica entre estímulos. Essa relação só nos é interessante no design porque ela afeta, de determinada forma, as respostas do usuário.

Assim:


Apesar de autores como Peirce terem insistido na arbitrariedade da relação entre significante, significado e referente, a tendência da maioria das pessoas (e da maioria dos designers que conheci!) é adotar o signo como um ente real e bem definido, fixo. 

Se dizemos "Rosa vermelha significa paixão" caímos na tentação mentalista de achar que descobrimos uma verdade última: que a rosa vermelha, naturalmente, significa "paixão" para todos e que isso é de sua essência. 

Se um designer diz "Vou usar o ícone tal porque ele significa tal coisa" ele entende que o signo escolhido é uma entidade real, bem definida, cujo valor de significado existe em si mesmo e é um e apenas um para todo e qualquer público. Já um behaviorista diria que o significado do ícone depende de uma relação contingencial entre o usuário e a interface, não sendo portanto pré-definido.

Para um designer mentalista, o ícone ao lado significa "email". Para um designer behaviorista, seria preciso relacionar esse estímulo visual com estímulos visuais do repertório do usuário e entender, nesse contexto, que função ("sentido interpretado"), esse ícone exerceria. Pra maioria das pessoas significaria "email" sim, mas o designer behaviorista entende que isso se dá sempre de forma arbitrária, cultural, (e portanto pode variar).

Desde Charles Peirce, ou já antes, temos uma classificação dos signos em três tipos:



Característica
Exemplo
Ícone
 É fisicamente parecido com aquilo que representa.
 O ícone da lixeira do windows é uma lixeira estilizada.
Índice
 Indica algo. Dá indícios de outra coisa.
Fumaça significa fogo.
Símbolo
 Relação arbitrária de substituição.
Um logotipo significa uma empresa e suas qualidades.


Anteriormente eu disse que todo signo é uma relação entre associações de estímulos (estímulos do contexto da pessoa com os estímulos sensoriais oferecidos pelo signo) e respostas que essas geram. Vamos especificar agora que processos comportamentais determinam essas relações, em cada um dos 3 tipos de signos:


Signo
Processo comportamental
Ícone
Associação por semelhança física, gerando uma generalização de estímulos.  
Índice
Associação por contiguidade.
Símbolo
Associação por proximidade: um estímulo toma o lugar de outro, pois foram historicamente pareados, usados um no lugar do outro. O processo implicado é o que Equivalência de Estímulos.


O que ocorre é que um signo é gerado a partir de associações, mas ele faz parte de um processo comportamental em que essas associações terão um efeito, uma função diferente no usuário, por conta do contexto deste.



Dessa forma, esse signo aí do lado... Ele pode ser, em um contexto 1, um ícone para eletrecidade e em um contexto 2, para o mesmo usuário, um símbolo (logotipo) de um programa (se você pensou em Winamp, reforço positivo pra você!). O "significado" do signo (que efeito ele gera no usuário) vai depender das contingências de reforçamento em que ele é percebido por uma dada pessoa.

Comunicar não é empregar signos que farão por si mesmos o trabalho: é programar contingências de tal forma que associações entre estímulos gerem respostas desejadas por nós nas pessoas com quem desejamos nos comunicar.

A fórmula comportamental do signo parece ser esta: "Em tais e tais condições, para uma pessoa tal, o estímulo 'X' será associado ao 'Y', determinando uma resposta 'Z' ".

Portanto, os signos não são entes portadores de significados em si mesmos, mas sim associações arbitrárias entre estímulos, cujo significado gerado é uma resposta do usuário determinada pelo contexto ambiental em que ele percebe o signo.


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